O Cinema Fernando Lopes dedica seis semanas — De 12 de Setembro a 24 de Outubro — ao sueco que transformou funcionários deprimidos, casamentos falhados, vendedores de partidas, padres sem fé e mortos que ainda parecem ter contas por pagar numa das mais estranhas comédias humanas do cinema europeu. De Uma História de Amor a Da Eternidade, cinquenta anos de génio, pessimismo e uma pergunta inebvitável: será Roy Andersson é um humanista desesperado ou um misantropo com uma câmara muito bem colocada?
Roy Andersson prefere colocar meia dúzia de seres humanos numa sala pintada de verde-hospital, deixar a câmara imóvel, esperar que alguém diga uma frase perfeitamente banal e provar-nos, em três minutos, que a civilização ocidental talvez tenha sido um enorme erro de cálculo. Depois corta. E faz outra vez. É cinema, filosofia, teatro do absurdo, pintura em movimento e, em certos dias, uma forma particularmente requintada de depressão sueca. De 12 de Setembro a 24 de Outubro, o Cinema Fernando Lopes, em Lisboa, propõe Sobre a Vida e Outras Tragédias: Mostra Essencial Roy Andersson, seis longas-metragens e uma sessão de cinco curtas que atravessam mais de meio século da obra deste homem singularíssimo. A abertura faz-se, apropriadamente, com Canções do Segundo Andar, amanhã, dia 12, às 21h30, seguindo-se Tu, que Vives, Um Pombo Pousou num Ramo a Reflectir na Existência, Da Eternidade, Giliap, Uma História de Amor e a sessão de curtas. Não é propriamente uma retrospectiva para sair da sala aos saltinhos a celebrar como é maravilhoso estarmos vivos e somos felizes. Mas também seria um erro pensar que Andersson passou a carreira inteira a dizer-nos que mais valia termos ficado em casa.
Antes dos mortos-vivos, houve adolescentes apaixonados
A surpresa começa precisamente em Uma História de Amor (1970). Quem chegar ao filme depois de conhecer o Andersson dos rostos caiados, dos escritórios mortuários e das personagens que parecem ter acabado de descobrir a existência do IRS pode suspeitar que entrou na sala errada. É luminoso, naturalista, jovem, sensual, quase terno. Pär e Annika apaixonam-se enquanto à sua volta os adultos demonstram, com enorme competência, como se estraga uma vida. Os adolescentes ainda acreditam que o mundo pode começar; os pais já perceberam que a coisa correu mal e procuram culpados. A Cinemateca Portuguesa apresentou-o precisamente com o título Uma História de Amor, e é assim que surge nesta mostra.
Cinco anos depois vem Giliap (1975), o desastre necessário. Recepção péssima, fracasso comercial e Andersson desaparece das longas-metragens durante um quarto de século. Em vez de desistir, passa anos a fazer publicidade. Parece castigo. Acabou por ser laboratório. Nos anúncios, aperfeiçoou a frontalidade dos enquadramentos, a obsessão pelo detalhe, a construção em estúdio, os planos fixos e essa estranhíssima capacidade de condensar uma existência inteira num pequeno número visual. Quando regressa em 2000 com Canções do Segundo Andar, já não é o jovem de Uma História de Amor. É Roy Andersson, marca registada, patente cinematográfica e, para o bem e para o mal, dono de um mundo que ninguém confundiria com o de outro realizador. Atravessa então uma cidade onde empregos desaparecem, pessoas são humilhadas, um comerciante incendeia a própria loja para receber o seguro e a humanidade parece estar presa num engarrafamento sem saber exactamente para onde ia.
Bem-vindos ao purgatório, tire uma senha
Esse cinema chega à forma definitiva na chamada Trilogia dos Vivos: Canções do Segundo Andar (2000), Tu, que Vives (2007) e Um Pombo Pousou num Ramo a Reflectir na Existência (2014). O último ganhou o Leão de Ouro em Veneza e não é difícil perceber porquê. Andersson olha para nós como um entomologista que descobriu que os insectos têm crédito à habitação, problemas conjugais e crises metafísicas. Sam e Jonathan vendem artigos para festas, embora tenham aproximadamente a alegria comercial de dois funcionários de uma agência funerária num mês fraco. À volta deles passam reis, bêbados, amantes, soldados, velhos, humilhados, egoístas e criaturas simplesmente cansadas de existir.
É aqui que Andersson se torna simultaneamente fascinante e discutível. Quando funciona, ninguém filma assim. Cada plano parece uma pintura flamenga depois de uma depressão nervosa, um Bruegel que tivesse descoberto a iluminação fluorescente. O espectador começa por procurar a personagem principal e percebe rapidamente que não existe: protagonista é o quadro inteiro. Um homem está a falar, outro espera, alguém passa lá atrás, qualquer coisa absurda acontece num canto e a tragédia pode estar escondida precisamente onde não estávamos a olhar.
Mas a assinatura pode transformar-se em fórmula. E a compaixão pode roçar a condescendência. Andersson diz observar a fragilidade humana; por vezes parece estar numa varanda a contemplar a estupidez dos outros. Aquelas figuras esbranquiçadas, ridículas, mesquinhas, incapazes de comunicar e condenadas ao fracasso tanto podem ser nossos irmãos como espécimes num aquário. Há momentos em que o seu humanismo dói; outros em que apetece perguntar se o realizador ainda gosta das pessoas ou apenas da extraordinária fotogenia da sua desgraça. Essa contradição não diminui o cinema. Torna-o mais interessante. Também porque atrás do pessimismo existe ternura — pouca, muito bem escondida e distribuída com a generosidade de um Ministério das Finanças, mas existe.
A eternidade também tem dias maus
Da Eternidade (2019), que lhe valeu o Leão de Prata de realização em Veneza, leva o método à depuração extrema: um padre perdeu a fé, um pai aperta os atacadores da filha, adolescentes dançam diante de um café, derrotados caminham pela neve, um homem não sabe o que quer. Tudo vale aparentemente o mesmo porque tudo pertence à mesma extraordinária catástrofe: estarmos vivos. Para uns, é a síntese perfeita de Andersson. Para outros, é o momento em que o estilo começou a imitar-se a si próprio. As duas leituras podem estar certas.
E é precisamente por isso que esta mostra vale mais do que a recuperação de meia dúzia de filmes importantes. As cinco curtas — Visita ao Filho, Levar a Bicicleta, Sábado, 5/10, Aconteceu Alguma Coisa e Gloriosa é a Terra — permitem observar como aquele rapaz que filmava jovens apaixonados chegou ao arquitecto obsessivo de mundos fechados onde já ninguém parece saber se está a viver ou apenas à espera que a vida acabe.
Roy Andersson pode irritar, divertir, comover, cansar e deslumbrar, às vezes dentro do mesmo plano. É demasiado singular para ser consensual e demasiado importante para ser reduzido ao truque dos bonecos pálidos e da câmara parada. Construiu um dos universos visuais mais reconhecíveis do cinema contemporâneo e passou cinquenta anos a repetir uma pergunta à qual, felizmente, nunca encontrou resposta: que raio estamos nós aqui a fazer?
A mostra do Cinema Fernando Lopes talvez também não responda. Mas oferece uma hipótese bastante mais agradável: durante algumas semanas podemos sentar-nos no escuro, olhar para os outros seres humanos naquele estranho aquário sueco e pensar, com algum alívio, que afinal os desgraçados não somos só nós.
JVM

