Cinderela, em análise

 

Cinderela - Poster

 FICHA TÉCNICA

  • Título Original: Cinderella
  • Realizador: Kenneth Branagh
  • Elenco: Lily James, Cate Blanchett, Richard Madden, Helena Bonham Carter, Stellan Skarsgård, Sophie McShera, Holliday Grainger
  • Género: Drama, Fantasia, Romance
  • NOS Audiovisuais | 2015 | 105 min

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Já todos conhecemos a história da Cinderela e não é agora que a vamos revisitar numa perspetiva diferente. Através de atores de carne e osso, Kenneth Branagh conta o mesmo conto de fadas de sempre, mas junta-lhe a magia que a Disney havia perdido algures no tempo.

Contudo, se há alguém que porventura não o conhece de trás para a frente, cá estaremos para recordar. A história de “Cinderela” acompanha o destino da jovem Ella (Lily James) cujo pai comerciante casa outra vez após a morte da sua mulher. Ansiosa por apoiar o seu adorado pai, Ella acolhe a sua nova madrasta (Cate Blanchett) e as suas filhas Anastasia (Holliday Grainger) e Drisella (Sophie McShera) na casa da sua família. Quando o pai de Ella morre de forma inesperada, ela vê-se à mercê da sua nova, invejosa e cruel família. Finalmente reduzida a nada mais do que uma serviçal coberta de cinzas e maldosamente apelidada de Cinderela, Ella poderia facilmente perder a esperança. No entanto, apesar da crueldade exercida sobre si, Ella está determinada em honrar as últimas palavras da sua mãe e a “ter coragem e a ser bondosa”. Não irá ceder ao desespero nem à maldade dos que a maltratam.

Depois vem um príncipe charmoso, uma fada-madrinha bondosa, um vestido azul, um coche dourado e um sapato de cristal. E no fim, bem… esse todos sabemos mesmo antes do filme sequer começar: e viveram felizes para sempre.

cinderella

Poderá ser redutor encarar esta adaptação em imagem real do clássico de 1950 como um reprise visualmente arrojado da história que todos conhecemos. Kenneth Branagh é fiel à sua doutrina shakespeariana e isso só contribui para que esta “Cinderela” transpire classicismo por todos os poros. Mas mais do que isso, para lá da sua exuberância cénica, há uma honestidade narrativa que não é usual neste género de remakes. Branagh capta com astúcia tremenda o espírito feel good dos clássicos da Disney e não se importa em seguir o texto original palavra por palavra. Mais do que uma possível prova de falta de originalidade, há aqui uma evidência de respeito pela riqueza do material que tem em mãos.

Ao acrescentar o seu cunho pessoal e ao introduzir também algumas cenas que aprofundam o background dos personagens, Branagh consegue atribuir maior intensidade aos significados morais encontrados em várias linhas de diálogo e ao mesmo tempo é capaz de imprimir uma maior carga emocional nas decisões e motivações dos intervenientes, o que só acaba por elevar ainda mais a necessária “moral da história”. Porém, mais de 60 anos depois, seria expectável conseguirmos admirar a realidade dos avanços geracionais, e com isso constatar que aquela Cinderela que exige a si mesma o binómio coragem e bondade fosse, nos dias de hoje, um bocadinho mais corajosa e menos conformada – mais feminista, se quisermos. É no fundo um pau de dois bicos: se Branagh é inteligente ao cumprir a matriz do clássico, a verdade é que acaba por reproduzir também aquilo que não estava tão bem concebido no passado.

CINDERELLA

Porém, são tópicos que conseguimos facilmente esquecer naquela imensidão de coisas boas. A começar pelo ostentoso guarda-roupa, da autoria da triplamente oscarizada Sandy Powell (por “O Aviador”, “A Paixão de Shakespeare” e “A Jovem Vitória”). O vestido que Cinderela leva ao baile, carregado com dez mil cristais Swarovski, é por si só um verdadeiro clímax, mas há mais.

Atente-se, por exemplo, no deslumbrante figurino da madrasta quando Cate Blanchett faz a sua primeira aparição. Um vestido que funde tons de verde e preto e um chapéu a fazer pandã com o véu que lhe protege os olhos do insignificante mundo exterior. Poucos segundos depois, ergue-se a melhor bitch face que a Disney alguma vez conheceu. O trabalho de Sandy Powell é de facto notável (tão magnífico que uma nomeação aos Óscares em 2016 não lhe deve escapar), mas os atores sabem o peso daquilo que estão a vestir e, sobretudo, da importância daquilo que estão a interpretar.

CINDERELLA

Lily James (a libertina Lady Rose de “Downton Abbey”) aparece aqui fruto de um casting imaculado, como a Cinderela que sempre conhecemos: bela, bondosa e feliz, mesmo quando a sua vida anda de mãos dadas com a infelicidade. Robb Stark (Richard Madden) – agora sem pilosidade facial – assume também ele um papel que lhe assenta que nem uma luva, embora aqui não lhe seja exigido grande esforço na representação de um príncipe quase unidimensional.

Mas quem rouba grande parte das cenas são as veteranas. Helena Bonham Carter é uma fada madrinha em jeito de comic relief, mas é também uma narradora que emociona através das palavras que pareciam perdidas na infância – na nossa infância. E Cate Blanchett só prova que não há nada que ela não saiba fazer. Ao transportar para lá das câmaras toda a sua classe natural e ao resgatar da sua personagem de “Blue Jasmine” as expressões faciais mais medonhas, constrói a rainha das vilãs.

Cinderella-2015

Na hora se fazer o balanço, não se pode dizer que Branagh não acrescentou nada ao que já sabíamos. Pelo menos aqui há uma intenção clara de revisitar os clássicos, de lhe fazer a devida homenagem e, mais importante de tudo, de devolver às audiências aquela magia singular que já parecia extinta.

A “Cinderela” de Branagh é corajosa, bondosa e mágica. Tem aquela magia Disney que nos invade o coração, que evoca a nostalgia da infância e que nos faz render à fórmula nem sempre feliz do “happily ever after”. Não podíamos pedir mais.

DR

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Daniel E.S.Rodrigues

Sonho como se estivesse num filme de Wes Anderson, mas na verdade vivo no universo neurótico de Woody Allen. Sou obcecado pela temporada de prémios, e gostaria de ter seguido a carreira de cartomante para poder acertar em todas as previsões dos Óscares, Globos de Ouro (da SIC), Razzies, Troféus TV7 Dias e Corpo do Ano Men's Health. Mas, nesse universo neurótico e imperfeito em que me insiro, acabei por me tornar engenheiro. Sigam-me no Instagram para mais bitaites sobre Cinema, Música, Fotografia e outras coisas desinteressantes.

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