O Clã, em análise

Na década de 80, a Argentina foi palco de um insólito esquema de raptos e assassínios organizados pela família Puccio, os protagonistas de O Clã, o novo filme de Pablo Trapero.

o clã el clan pablo trapero

Entre 1982 e 1985, a família Puccio raptou quatro pessoas a pedido de grandes somas de resgate. Três das suas vítimas foram assassinadas, mas a última sobreviveu, sendo salva quando a polícia entrou de rompante na respeitável casa que a família tinha em Buenos Aires e onde escondiam as suas vítimas. Por detrás de todo este insano esquema estava Arquimedes Puccio, o patriarca da família e um antigo agente das forças especiais do regime ditatorial que, nestes primeiros anos de suposta democracia argentina, ainda era um pesadelo bem lembrado pela população argentina. Seus filhos e mulher alegaram que nada sabiam dos raptos, apesar de viverem na alçada do luxo possibilitado pelos resgates e coabitarem na mesma casa onde os sequestrados eram escondidos, amordaçados em banheiras ou amarrados na cave.

Depois de ter sido um dos mais tenebrosos e mediáticos casos na história criminal argentina, esta horrenda história chega finalmente aos cinemas pela mão de Pablo Trapero, que arrecadou o prémio para Melhor realizador no Festival de Veneza pelo seu trabalho neste filme, O Clã. Uma das suas decisões diretoriais mais marcantes é o modo como a narrativa se inicia. Longe de tentar estabelecer a harmonia familiar, O Clã começa com a violenta e caótica noite em que o lar dos Puccio foi invadido pela polícia. É a partir desse momento de choque que o filme retrocede até aos dias em que este esquema criminal teve início, lembrando a tradição noir e indicando desse já que estamos perante uma obra que não vai seguir nenhum tipo de sóbria cronologia linear.

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De facto, sobriedade é uma qualidade bastante escassa em O Clã, um projeto que, em certas ocasiões, parece um remake latino de Goodfellas. Emulando as marcas estilísticas de Martin Scorsese, Trapero usa e abusa de longos planos sequência ao som de música dos anos 80, seguindo as suas personagens ao longo de violentos raptos, através da casa de horror onde se passa grande parte da ação, por escritórios que transpiram corrupção e um passeio por um corredor de tribunal que é interrompido por uma inesperada tentativa de suicídio. Podemos acusar Trapero de ser pouco original nesta sua abordagem, mas uma coisa é certa, há uma eficácia exímia em toda esta construção e o cineasta mostra-se perfeitamente capaz de modular estes mecanismos e estilos reacionários de modo a criar cortantes sequências de suspense ou pintar momentos de horrenda violência com um tom de cruel ironia, como quando os gritos de uma vítima são comparados, pela montagem, aos sons de Alex, filho mais velho de Arquimedes e coprotagonista do filme, e sua namorada a terem sexo no carro.

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A sublinhar essa contracorrente de ironia jocosa temos a prestação principal de Guillermo Francella no papel do mortífero patriarca. Apesar de ser mais conhecido internacionalmente pelo seu papel secundário no drama Oscarizado El secreto de sus ojos, na Argentina, Francella ganhou fama como um ator cómico e Trapero capitaliza no contraste entre essa persona e Arquimedes, assim como põe a bom uso o timing preciso do seu ator, capaz de pontuar uma cena digna de pesadelo com um inesperado rasgo de inapropriada comédia.

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Mas, mesmo sem o seu talento humorístico, Francella seria merecedor de destaque. Com os seus gélidos olhos azuis, cabelo branco como a neve e a face congelada numa expressão de confortável impavidez, Arquimedes parece ser uma criatura quase reptileana, um monstro em pele humana. Apesar de estar sempre a dizer que faz o que faz pela família, a verdade é que Arquimedes parece sempre um predador impiedoso capaz de sacrificar tudo e todos pela sua própria sobrevivência, mesmo os seus mais próximos familiares e cúmplices.

A presença de Francella é tão poderosa e o foco de Trapero na sua personagem é tão grande que, na verdade, o filme acaba por cair no erro de ignorar as outras personagens. Mesmo Alex, solidamente interpretado por Peter Lanzani, é deixado muito subdesenvolvido e seus dilemas morais nunca parecem interessar muito nem ao seu realizador nem à audiência. Mas a displicência de O Clã para com o seu protagonista mais novo nada tem que se compare ao modo como o filme ignora todas as suas personagens femininas, o que acaba por prejudicar muito o impacto dos finais destinos da família.

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Aliás, A ideia mais interessante de todo o filme é exatamente o modo como a casa dos Puccio se converteu, durante os seus anos de crime, num arrepiante microcosmos da Argentina sob regime ditatorial. É óbvio que as crenças políticas e passadas afiliações de Arquimedes já trazem ao lar esse fantasma, mas é no silêncio da família que esse inferno ganha sua suprema forma. Ao longo da narrativa, vamos testemunhando como os filhos e esposa de Arquimedes vivem com a constante banda-sonora de gritos abafados a permearem por sua casa, mas nunca questionam a sua origem. Ao nunca dizerem nada, ao se forçarem a permanecer num estado de deliberada ignorância, esta família tornou-se cúmplice dos horrores perpetrados pelo seu patriarca, apreciando os benefícios do seu conformismo sem nunca se arriscarem a olhar os pesadelos escondidos por detrás da fachada de feliz respeitabilidade.

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Em conclusão, à superfície O Clã é apenas um sólido e mecanicamente bem construído thriller de crime que conta uma história verídica através de estilizações reminiscentes de Scorsese, sem cair no erro da pastiche desinspirada de tantas obras de Hollywood como Black Mass do ano passado. No seu âmago, contudo, corre uma veia de subtexto extremamente político, sendo que Trapero utiliza esta base convencional para criar um ácido retrato de como a ditadura militar deixou as suas venenosas marcas em toda a sociedade nacional, mesmo no seu modo de pensar e encarar as injustiças e desumanidades em seu redor. No rescaldo da libertação, não é a luz de um futuro risonho o que transparece, mas sim as cicatrizes hediondas que jamais poderão ou deverão ser completamente esquecidas.

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O MELHOR: A inspirada aprestação de Guillermo Francella.

O PIOR: O modo como o guião de O Clã demonstra um desinteresse quase misógino nas suas personagens secundárias, para grande detrimento do drama e sua tese sobre a unidade familiar enquanto espelho da Argentina.


 

Título Original: El Clan
Realizador: Pablo Trapero
Elenco:
 
Guillermo Francella, Peter Lanzani, Lili Popovich, Stefanía Koessl
Cinemundo | Drama, Crime, Thriller, Biografia | 2015 | 108 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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