A Volta ao Mundo em 80 Filmes | Parte I

A nossa volta ao mundo leva-nos de África do Sul à Arménia, passando por filmes de intenções revolucionárias e obras de um lirismo tão admirável como perturbador.


 

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ÁFRICA DO SUL

a volta ao mundo em 80 filmes

Come Back, Africa (1959) de Lionel Rogosin

É peculiar começarmos esta volta ao mundo com um filme de um cineasta americano, mas Come Back, Africa é uma obra de considerável importância histórica, cultural e social. Depois de voltar da 2ª Grande Guerra, Lionel Rogosin decidiu dedicar a sua vida artística a explorar e lutar contra as injustiças sociais e intolerâncias do mundo, querendo, como seria de esperar, abordar o horror do apartheid na África do Sul. Este seu filme de 1959 foi uma das primeiras obras de cinema a trazer aos olhos dos americanos e de muitos europeus uma realidade humana daqueles que eram discriminados nesse nojento regime de segregação racial. Por isso o filme merece ser admirado, mesmo que, talvez pelas suas intenções fogosas e grandes ambições, padeça de uma certa falta de aprumo cinematográfico e algum infeliz exotismo da vida das suas personagens. Com tudo isso em conta, há que dizer como uma prolongada sequência de discussões filosóficas e interlúdios musicais noturnos é uma das mais belas passagens do cinema dessa época passada.

 

 

AFEGANISTÃO

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Osama (2003) de Siddiq Barmak

A narrativa de Osama, que acompanha uma menina que se disfarça de rapaz para tentar encontrar trabalho no Afeganistão sob domínio Taliban, já marcaria este filme como uma obra-de-arte de incomensurável valor humano, mas o projeto mais célebre de Siddiq Barmak não se fica por aí. O argumento e seus importantes temas serve de base a um sublime e delicado retrato singular que oscila entre diferentes níveis de realidade, documentário e perspetiva subjetiva da protagonista, para criar um efeito avassalador na audiência. É um milagre de cinema como máquina de empatia que, mesmo assim, demonstra uma surpreendente subtileza, mesmo nos seus momentos mais marcadamente enfurecidos com o mundo de chauvinismo e repressão feminina em evidência.

 

 

ALEMANHA

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O Gabinete do Dr. Caligari (1920) de Robert Wiene

O Expressionismo Alemão é um dos mais importantes movimentos artísticos do início do século XX e também na história do cinema, tendo também a rara honra de que os seus códigos estilísticos e soluções plásticas ainda são bastante relevantes mesmo no panorama atual de cinema. A mais vistosa apoteose do Expressionismo em terras germânicas é esta absoluta obra-prima de Robert Wiene onde os mais negros aspetos da psique humana são transplantados para o mundo exterior onde tudo se assemelha a um pesadelo materializado de ângulos bizarros e aguçadas sombras. A cenografia de Caligari, concebida por Hermann Warm e filmada por Willy Hameister, é um dos maiores triunfos do cinema mudo com as sombras a serem pintadas nas superfícies numa mostra de desavergonhada e inebriante artificialidade. Para além de tudo isto, temos de agradecer a este filme muita da linguagem clássica do cinema de terror – há quem até diga que esta é a primeira obra desse género.

 

 

ANGOLA

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Sambizanga (1972) de Sarah Maldoror

Mesmo nos dias de hoje, o cinema português tem uma enorme relutância em olhar criticamente para o nosso passado colonialista, sendo que temas como a Guerra Colonial raramente são abordados com o tipo de franqueza e urgência que vemos em Sambizanga, uma das obras seminais do cinema angolano. Este filme realizado e escrito por Sarah Maldoror, que havia assistido na realização d’A Batalha de Argel e cujo marido era um líder da Resistência Angolana, conta-nos a história de um jovem casal que vê as suas vidas destruídas por uma série de terríveis injustiças durante 1961. A proximidade dos cineastas ao seu tema e a energia enfurecida que é latente a todo o projeto não invalida o seu impacto humano ou seus pontuais momentos de avassaladora beleza. De destacar está a muito rara presença de uma perspetiva feminina num cenário revolucionário e uma tocante e dolorosa cena em que um grupo de prisioneiros limpa a face ensanguentada de um cadáver.

 

 

ARÁBIA SAUDITA

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O Sonho de Wadjda (2012) de Haifaa Al-Mansour

Independentemente da sua qualidade enquanto uma obra da sétima arte, O Sonho de Wadjda mereceria um lugar de destaque nesta lista de recomendações simplesmente pela sua importância histórica no panorama do cinema internacional. Este é supostamente o primeiro filme a ser totalmente filmado dentro da Arábia Saudita contemporânea para além de, ainda mais miraculosamente, ser o primeiro filme de sempre a ser realizado por uma mulher dessa nacionalidade. Mesmo sem essas considerações esta é uma obra com intenções de clara nobreza, focando-se na história de uma jovem rapariga de 11 anos que sonha em ter uma bicicleta, algo que lhe é proibido devido ao seu sexo. Podemos acusar o filme de uma demasiada modéstia e pacificidade, mas na sua quietude gentil este trabalho consegue ser docemente subversivo e incalculavelmente valioso.

 

 

ARGÉLIA

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Crónica dos Anos de Brasa (1975) de Mohammed Lakhdar-Hamina

A Batalha de Argel de Gillo Pontecorvo pode ter mais fama e um legado mais impressionante, mas Crónica dos Anos de Brasa tem a grande mais-valia de ser um retrato dos esforços revolucionários pela independência argelina que foi concebido por argelinos e cuja perspetiva está intrinsecamente ligada à cultura e sociedade que toma como seu sujeito. O uso da narrativa individual conjugada com um enfoque na coletividade da revolta anticolonialista resulta numa obra que desafia de modo virtuoso as usuais gramáticas visuais e estruturais do cinema político. Este filme, vencedor da Palme d’Or em Cannes, é portanto um objeto de grande importância representacional, sendo também uma história de revolução contada ao pouco usual nível das comunidades rurais, mais empobrecidas e removidas do febril ambiente urbano desse tão mais famoso filme sobre a luta argelina pela independência face aos franceses.

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ARGENTINA

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A História Oficial (1985) de Luis Puenzo

Vencedor do Óscar para Melhor Filme numa Língua Estrangeira de 1985, A História Oficial é um filme que peca em alguns momentos por uma abordagem demasiado didática mas que, de modo geral, se afirma como um poderoso retrato humano e, por consequência, uma pintura das cicatrizes de uma inteira nação. A narrativa deste filme centra-se na experiência de Alicia, uma professora argentina durante os anos 80, que começa a questionar as origens da sua filha adotiva e vai descobrindo os horrores da ditadura militar que ela, durante anos, tem vindo a ignorar. Suportado por um soberbo elenco, com especial destaque para Norma Aleandro e Chunchuna Villafañe, o drama deste filme é tão melodramático como cortante, mostrando como uma mulher foi cúmplice na criação da sua própria prisão de ignorância que, apesar de tudo, se mostra menos dolorosa que a necessária verdade.

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ARMÉNIA

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A Cor da Romã (1969) de Sergei Parajanov

A Cor da Romã é um dos mais curiosos paradoxos na história do cinema. Por um lado, esta obra de Sergei Parajanov é o máximo exemplo do chamado cinema avant-garde, sendo abstrato, inescrutável e cheio de simbolismos obscuros. Por outro lado, esta é uma obra de imensa simplicidade e desprovida de quaisquer pretensiosismos – afinal, o próprio realizador colocou uma mensagem, no início do filme, que explica o pensamento por detrás do seu alienante estilo – traduzir de modo cinemático a experiência de ler a poesia do autor arménio Sayat Nova.  Para audiências abertas a este tipo de abordagem, A Cor da Romã é um dos mais belos e invulgares filmes algumas vez feitos, partindo de rígidos tableaux reminiscentes de iluminuras medievais para trazer ao grande ecrã o lirismo setecentista desse poeta cujo trabalho é inseparável da sua nacionalidade e cultura. Ver esta magnificência é como observar um tipo de cinema realmente inovador que, infelizmente, nunca ganhou o tipo de relevância e legado que merece.

 


 

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Na próxima página, encontrarás, entre as nossas recomendações, obras que tornam o quotidiano num ritual severo e tornam o horror da guerra num explosivo pesadelo de cinema imersivo.


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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