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Estreou esta quinta-feira 22 de outubro nas salas de cinema portuguesas o novo filme “A Comédia Francesa” (2026, Martin Darondeau e Bertrand Usclat). Com distribuição da Risi Film, a obra fez igualmente parte da Festa do Cinema Francês deste ano.

A longa-metragem acompanha as 3 horas que antecedem a estreia de uma atriz da ‘comédie-française’ na encenação com a emblemática peça de William Shakespeare “Macbeth”.

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A Comédia Francesa traz-nos uma trupe desvairada mas muito unida

Apesar do título português “A Comédia Francesa”, o título original deste filme francófono tem algo mais por detrás. A saber, a longa-metragem centra-se no grupo de atores da emblemática sala de teatro parisiense ‘comédie-française’, iniciativa do Rei Luís XIV em 1680 e que teve no dramaturgo Molière uma grande inspiração / patrono, ainda que o próprio já tivesse falecido à data da inauguração.

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O filme centra-se, por isso, na trupe de teatro desta sala de espetáculos cuja atriz Nina Cardi (interpretada por Pauline Clément) tem a sua estreia como encenadora com a peça “Macbeth” de William Shakespeare. Contudo, ao longo das três horas que antecedem a estreia da peça, surgem vários percalços para esta recém-encenadora.

Nina é a cola desta incrível trupe do teatro de A Comédia Francesa

A Comédia Francesa
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Nina não é meramente a protagonista de “A Comédia Francesa”. Esta personagem têm a capacidade de excelência de não se demover perante qualquer obstáculo. Nesse sentido, a interpretação de Pauline Clément é simplesmente perfeita. Certamente que o facto de a atriz ser igualmente uma das coargumentistas da obra terá contribuído para esse fator.

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É realmente preciso de ter uma grande paciência e uma enorme capacidade de gestão para gerir uma trupe tão desvairada como esta. Se há uma esposa que engana o seu marido como outro ator, há também uma atriz veterana que vê nos narcóticos a única maneira de subir ao palco ou um ator que não pode vestir-se de verde por superstição. Este é, sem dúvida, um autêntico filme de atores e de personagens! Cada uma delas com a sua própria densidade e com a sua própria história.

Se, por um lado, a ‘comédie-française’ não é propriamente um teatro exclusivo de comédias – aliás, os franceses muito frequentemente chamam aos seus atores ‘comédiens’ precisamente por causa desta histórica instituição – , esta longa metragem acaba por ter bastante comédia na sua narrativa, o que também ‘alivia’ a pressão de uma peça de teatro tão trágica como “Macbeth”. Nesse sentido, apesar desta não ser uma comédia francesa típica – ou seja, com muitas piadas a torto e a direito – , esta é uma comédia que é também um drama, face a todos os percalços que Nina tem com a sua estreia. Um melodrama, no fundo.

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Se alguma coisa tem de correr mal, vai acabar por correr tudo mal

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“A Comédia Francesa” abre como um filme de ‘desastre’ e, por fim, acaba por terminar mesmo como tal. Ou seja, esta longa metragem aplica a 100% a chamada “Lei de Murphy” onde, se alguma coisa tem de correr mal, tudo acaba por correr mal. E é isso que também acaba por trazer ao espectador uma forte pertença à narrativa. Ao fim e ao cabo, todos nós sofremos das ansiedades sentidas por esta trupe. Todos nós acabamos por ter dias maus mas, no fundo, tudo tem uma razão de ser…

Nina começa por se ‘esquecer’ do seu cartão de identificação e não conseguir entrar no teatro. Depois, tem uma crise com o seu assistente técnico a propósito da iluminação da peça. Seguem-se os problemas com os atores: um deles não pode representar vestido de verde, outra nem sequer percebe a peça que está a fazer e, por fim, para piorar tudo, a protagonista está retida em Brest, o que obriga Nina a ficar com o seu papel.

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O cinema, o teatro e a comédia unidos

O filme tem vários momentos muito bem conseguidos especialmente do ponto de vista do ritmo e da montagem. Destaca-se, por exemplo, o plano-sequência que “A Comédia Francesa” vai buscar de influência a “Tudo Bons Rapazes” (1990, Martin Scorsese). No princípio da crise, seguimos Nina desde a sala com o diretor do teatro, pelos corredores dos bastidores, até ao seu encontro com os atores. Este plano-sequência frenético faz com que nós, espetadores, nos sintamos completamente próximos da ansiedade desta personagem que está numa pilha de nervos, embora para os outros se aparente muito muito calma.

Depois, claro, há todas as pequenas cenas divertidas como a simbologia nazi devido a uma sombra, o ‘ensaio à italiana’ de Émilie e Antoine (Marina Hands e Julien Frison), a maquilhagem exagerada da ‘make up artist’ (Séphora Pondi) ou o sonho destroçado que, afinal, termina bem para o jovem frente de sala Issa (Sefa Yeboah). Deem já um César de Melhor Atriz a Pauline Clément! É incrível a capacidade da atriz perante umas peripécias destas…! Uma mulher de garra!

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Uma homenagem sentida à comédie-française

A Comédia Francesa
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Filmado quase na íntegra em câmara à mão, sente-se toda a frenética de “A Comédia Francesa”. Algo que é também reforçado pelas grandes interpretações dos atores que são eles próprios realmente parte da trupe da ‘comédie-française’ e que, por isso, estarão aqui bastante à vontade, quase a representarem-se a si próprios. Por outro lado, este é também um grande filme de homenagem a esta histórica sala de espetáculos que não só nos ‘dá’ alguns dos seus atores como também vemos a grandiosidade arquitetónica do espaço.

Em declarações à imprensa, o realizador Bertrand Usclat contextualiza esta homenagem: “A nossa verdadeira legitimidade é não pertencermos a ela [‘comédie-française’]. Se a história tivesse sido contada por alguém de dentro, estariam outras coisas em jogo. Nós chegamos como apaixonados pelo teatro, deslumbrados, maravilhados, mas com o nosso sentido crítico, trazendo (esperamos) alguma frescura.”

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Molière e Shakespeare: que rivalidade é esta?

Por fim, é divertidíssima a aparição de Molière (Benjamin Lavernhe) neste filme e que dá a decisão a Nina de seguir em frente. Além disso, os argumentistas inventam ainda uma hilariante rivalidade entre o autor francês e o grande dramaturgo inglês William Shakespeare. Dois autores muito diferentes, ambos grandes dramaturgos, mas que viveram em dois tempos diferentes e onde aqui atingimos em pleno a suspensão da descrença para assistirmos às picardias fictícias dos dois. Ao fim e ao cabo, é uma forma dos argumentistas dizerem que já estamos tão mal que precisamos de fantasmas para seguir em frente!

A Comédia Francesa

Conclusão

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  • “A Comédia Francesa” presta uma bonita homenagem à trupe da sala de espetáculos “Comédie-Française”, edificada no reinado de Luís XIV.
  • Um filme frenético, cheio de peripécias incríveis, nas 3 horas que antecedem o espetáculo “Macbeth”.
  • Todos os atores estão incríveis e destaca-se, especialmente, a protagonista Pauline Clément.
  • O único ‘defeito’ do filme prende-se num eventual exagero de circunstâncias sobrepostas para uma longa-metragem tão curta (1h15) e que acabam por deixar de lado um melhor desenvolvimento de certas personagens. Ainda assim, cada uma das cenas justifica a sua presença na obra.
Overall
8/10
8/10
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