Os melhores guarda-roupas de 2016 | 2. O Conto dos Contos

O Conto dos Contos apresenta o seu mundo de fantasia e horror com todo o fausto e esplendor das modas barrocas.

 


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Celebrar os figurinos de opulentos filmes de época é um cliché tão grande que, quando ganhou o seu terceiro Óscar por A Jovem Vitória, a já lendária Sandy Powell usou o tempo do seu discurso para chamar a atenção da Academia e dos espetadores para o trabalho de figurinistas de filmes que não têm roupas tão vistosas como dramas históricos ou fantasias. De facto, quantidade e exuberância não são necessários indicadores de qualidade e é certo que, por vezes, é muito mais difícil trabalhar dentro das restrições e nuances da indumentária moderna que no panorama da pesquisa histórica ou da invenção fantástica. No entanto, depois de já termos reconhecido o valor de guarda-roupas inspirados nos anos 80, em modestos futuros distópicos e o glamour da elegância contemporânea, gostaríamos de destacar também alguns figurinos híper vistosos.

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O filme sobre o qual caem essas honras é O Conto dos Contos, uma adaptação de três histórias do escritor seiscentista Giambattista Basile onde o cineasta Matteo Garrone deu asas à sua imaginação, trazendo aos cinemas um mundo entre os excessos da Europa do século XVII e as monstruosidades dos contos-de-fadas barrocos. Seguindo essa mesma linha de pensamento, os figurinos mostram claras inspirações históricas, mas o objetivo do seu desenho nunca é a recriação exata do passado, mas sim a sugestão de uma realidade alienante e bizarra. Mesmo quando o que vemos é portador de uma beleza de cortar a respiração, sentimos estranheza e um desconforto mesclado de fascínio temeroso.

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Massimo Cantini Parrini, que passou anos a trabalhar como assistente da genial figurinista Gabriella Pescucci, foi buscar inspiração às modas históricas de três nações para definir e distinguir os três reinos onde decorrem as histórias deste tríptico narrativo. Primeiro, na tragédia de uma rainha desesperada e seu filho nascido de um ritual mágico, temos a negrura faustosa da Espanha do início do século XVII, onde severas silhuetas negras são rematadas com largas golas de rufos e complicados toucados de aspeto quase arquitetónico. É nesta secção do filme que aparece o seu mais memorável figurino, um magnífico vestido vermelho envergado por Salma Hayek e confecionado pela Casa Tirelli, os responsáveis por alguns dos mais requintados guarda-roupas das cinco últimas décadas de cinema.

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Para o segundo reino, onde a história contém um teor mais erótico e sexual, a inspiração veio da corte francesa e, mais uma vez, o primor técnico da Tirelli Costumi marca notória presença. Nesta parte da narrativa, as cores são mais frias, com alguns rasgos de escarlate erótico, e os metálicos mais destacados, de modo a sugerir um fausto menos enlutado e pesado que aquele da primeira história. De salientar, são os vestidos envergados por Stacy Martin e Shirley Henderson durante a sequência mais exuberante do conto, quando duas irmãs, separadas pela juventude obtida com um feitiço, se encontram no palácio. Uma delas veste dourado, uma gola feita de metal moldado na forma de renda, enquanto a outra, envelhecida, usa um vestido semelhante, mas azul e desapertado atrás, pois, sem a ajuda de servas reais, tais peças são impossíveis de envergar corretamente. A sua doentia diferença de estatuto é ilustrada pela sua roupa de um modo quase cruel.

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Finalmente, o terceiro conto vai buscar ideias às modas da corte inglesa seiscentista e suas cores são exponencialmente mais frias, pelo menos inicialmente. A trama de um rei e sua filha, que o pai promete em casamento a um ogre, começa por ser marcada pela indiferença antes de reviravoltas violentas darem azo a um final curiosamente esperançoso e pintado nos calorosos doirados que sugerem um futuro áureo. Nesta parte, o requinte e brio de Parrini é particularmente evidente nas roupas dos figurantes, tão bem vestidos como os atores principais, o que é essencial para a criação de uma estética unificada para O Conto dos Contos.

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Em conclusão, este filme é o exemplo de uma obra onde o fausto e a exuberância são efetivamente indicadores de um guarda-roupa tão deslumbrante como concetualmente sagaz. Apesar disso, alguns dos figurinos mais interessantes nem são os envergados por reis e rainhas de mundos irreais, mas sim os andrajos de uma trupe de circo que trespassa todos os reinos e narrativas. Nessas figuras divertidas, a fantasia grotesca dos contos barrocos entra em matrimónio fabulosos com sua componente histórica, resultando num visual que pareceria vindo de um sonho, caso não fosse tão estranhamente verosímil.

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Do fausto barroco de um mundo alternativo onde ogres e dragões habitam em montanhas e lagoas misteriosas, vamos passar para a realidade histórica da América do pós-guerra, onde um romance desabrocha e sua intensidade reverbera por todos os aspetos técnicos do filme, incluindo o seu magnífico guarda-roupa.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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