O Culpado, em análise

‘O Culpado’, do sueco Gustav Möller é um excelente ‘thriller’ psicológico que provoca angústia, desespero e uma constante inquietação graças a uma tremenda interpretação do actor principal e de uma magnífica ideia de argumento. É um dos melhores filmes europeus do ano 2018.

O jovem realizador, jornalista e argumentista sueco Gustav Möller (n. Gotemburgo, Suécia, 1988) estreia finalmente nas salas portuguesas o seu primeiro filme ‘O Culpado’, um thriller intenso produzido na Dinamarca, — onde o realizador vive actualmente — que se desenvolve na sua totalidade numa única localização. O filme, Prémio do Público do Festival de Sundance 2018, segue mais ou menos o conceito de outras excelentes obras minimalistas como ‘Enterrado’ (2010) ou ‘Locke’ (2013), em que o espectador é limitado a um espaço único, praticamente a um só actor em cena, e com a tensão narrativa vinda de conversas e diálogos telefónicos.

O Culpado
Um agente de segurança relegado para o serviço de emergências do 112.

Este ‘O Culpado’, envolve-nos numa extraordinária trama policial, protagonizada por Asger (Jakob Cedergren) um agente de segurança, que foi relegado para o serviço de chamadas de emergência do 112. Filmes com este tipo de dispositivo dramático, aproxima-se ainda e bem dos desafios da literatura, obrigando o espectador a preencher visualmente essas ‘histórias ao telefone’ com a sua imaginação, tornando a experiência de cinema mais participativa, criativa e envolvente. E é efectivamente o que acontece com este filme de excelência.

‘O Culpado’, — inspirado também segundo Gustav Möller, no clássico ‘Um Dia de Cão’, de Sidney Lumet  (1975) —  não foge a esta regra pois através das várias conversas telefónicas do inicialmente inexpressivo Asger (Jakob Cedergren), com os vários utentes do 112, conseguimos pouco a pouco ir descobrindo a sua estranha personalidade; até chegarmos à complexidade de um enredo principal, que se concentra numa mãe de família que telefona para o serviço de emergência, para se queixar que foi (aparentemente) sequestrada.

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O Culpado
Nas conversas de Asger (Jakob Cedergren), no 112, vamos descobrindo a sua personalidade.

Contudo, o desenvolvimento imprimido pelo realizador Gustav Möller, não se limita a tornar ‘O Culpado’ um filme imersivo e repleto de tensão. O filme coloca-nos perante uma curiosa situação em que o protagonista envolve-se tanto no caso e vai interpretando as coisas à sua maneira, sem mesmo ter um quadro completo do ‘drama telefónico’, que lhe é ao poucos exposto do outro lado e de um telemóvel. O que torna Asger igualmente um espectador do que está a acontecer. Depois de muitas e inteligentes reviravoltas, a descoberta final é tão perturbadora para ele como para os espectadores. E para isso contribuí sem dúvida o extraordinário desempenho do actor Jakob Cedergren, que carrega às costas todo o peso dramático do filme. Embora as vozes dos diálogos telefónicos sejam igualmente muito bem interpretadas, verosímeis e contribuam para reforçar as fortes emoções do espectador. No entanto, ‘O Culpado’, apesar de ser um  excelente filme tem algumas questões que lhe tiram uma certa plausibilidade e realismo, num argumento que nem por isso deixa de ser uma grande ideia. Nas situações de emergência, todos os segundos contam, e Asger passa muito tempo a falar com as vítimas, em vez de ser conciso e decidir passar a informação para seus colegas de rua, para que estes possam agir com rapidez e clareza. Esta sua hesitação pode ser vista como um traço da sua complexa personalidade e do seu trauma anterior. Mas tem algo de improvável no que diz respeito por exemplo, à aparente dificuldade em certas situações de as chamadas serem geo-localizadas. No início, vemos como um dos utentes é facilmente localizado no ‘red light’; na chamada da mulher, ela revela imediatamente onde está, mas não depois para onde segue e não se localiza o telefone do ‘homem-sequestrador’. O comportamento de Asger também não é completamente coerente. Há uma certa contradição entre seu lado instável, conflituoso e frio, e um desejo de ajudar a mulher e sobretudo as crianças.

O Culpado
Quando Asger no final pousa o auscultadores é uma enorme sensação de alívio.

Contudo isto pode ser interpretado igualmente como que a resolução deste caso para Asger, possa funcionar como uma espécie de redenção para os seus ‘pecados anteriores’, já que além de problemas familiares, tem um julgamento marcado para o dia seguinte. Gustav Möller reforça essa ideia e essa é talvez a maior força do filme e a mais forte sensação para o espectador, pois quando termina ou dir-se-ia quando Asger pousa os auscultadores, ficamos todos com uma enorme sensação de alívio. No fundo, o que sugerem todas as cenas de ‘O Culpado’, através dos diálogos, da fotografia cinzenta e anódina e da luz vermelha e, sobretudo de um fabuloso desenho de som,  é tornar este filme num dos melhores e mais surpreendentes thrillers psicológicos de 2018. Não estava nos finalistas aos Golden Globes 2019 na categoria de Melhor Filme de Língua Estrangeira. No entanto, sem qualquer dúvida e independentemente do acontecer com as nomeações aos Óscares de Hollywood, é sem dúvida um dos Melhores Filmes Europeus de 2018. Aliás foi um dos candidatos aos Prémios do Cinema Europeu (Melhor Actor e Melhor Argumento). Justo!

O Culpado, em análise

Movie title: The Guilty

Date published: 2019-01-11

Director(s): Gustav Möller

Actor(s): Jakob Cedergren, Jessica Dinnage, Omar Shargawi, Johan Olsen

Genre: Thriller, 2018, 85 min

  • José Vieira Mendes - 85
85

CONCLUSÃO

‘O Culpado’ para além de todas as emoções fortes que nos provoca e, de um extraordinário actor e grande argumento, é mais uma surpresa da alta qualidade da produção europeia e nórdica, que não fica nada atrás de Hollywood, e principalmente é uma primeira obra, que pode abrir portas para mais um jovem realizador de 31 anos, que pode dar muito que falar no futuro.

O MELHOR: A intensidade do drama a interpretação do actor Jakob Cedergren faz com não passe um segundo sequer pela cabeça do espectador, abandonar a sala sem chegar ao final.

O PIOR: Algumas pequenas incoerências no argumento que não tiram de forma nenhuma o mérito de ser um filme muito bem escrito e realizado.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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