Entrevista | Leonor Teles estreia finalmente ‘Terra Franca’ nas salas

‘Terra Franca’, o primeiro documentário em longa-metragem realizado por Leonor Teles (Urso de Ouro na Berlinale 2016 com ‘Balada de um Batráquio’), estreia agora nos cinemas nacionais. 

Rodado inteiramente em Vila Franca de Xira ao longo de dois anos, este filme ‘Terra Franca’(2018), que estreia agora em várias salas do país, acompanha a vida de Albertino Lobo e da sua família. Ele retrata a vida de um pescador do Tejo, que atravessa as quatro estações do ano, a renovação dos ciclos da natureza e acompanha as contingências dessa vida dura da pesca artesanal. É à beira do Tejo, numa antiga comunidade piscatória que vive este homem, entre a tranquilidade solitária do rio e as relações que o ligam à terra e à família. 

Terra Franca
Alberto Lobo é um pescador do Rio Tejo da zona de Vila Franca de Xira.

Para a realizadora, que já conhecia a família Lobo, filmar na sua terra natal foi um regresso às suas vivências, e para trás ficaram as suas inquietações com as suas origens ciganas, como nos diz nesta conversa com a MHD. Albertino Lobo, é revelado na sua essência simultaneamente como uma figura simples e enigmática. É um homem com uma vida que se encontra em pleno ciclo de mudança ou quase em vias de extinção. Quantas pessoas no futuro se vão dedicar a este tipo de pesca artesanal e sobreviver daquilo que o Rio Tejo oferece a montante de Lisboa? Por isso, mais do que fazer um filme etnográfico sobre a tradição piscatória e ribeirinha, Leonor Teles mostra-nos a realidade e o dia-a-dia dessas ‘pessoas francas’ — Albertino Lobo e a sua família — sempre com uma sensibilidade única que marca talento desta jovem realizadora, que concluiu este filme aos 25 anos e que em 2016 foi premiada com o Urso de Ouro na Berlinale, com a curta ‘Balada de um Batráquio’.

Terra Franca

Magazine HD: A questão da identidade ainda é uma coisa que a preocupe muito como nos filmes anteriores a ‘Terra Franca’?

Leonor Teles: É uma coisa que está profundamente enraizada em mim, não só por causa dos filmes mas também em todos os aspectos da minha vida. Mas já não tanto…

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MHD: ’Terra Franca’ além de se passar em Vila Franca de Xira a sua terra, parte também das suas vivências…

LT: Sim mas ‘Terra Franca’ é um bocadinho diferente. Os meus filmes anteriores eram mais pessoais, pois têm a ver com as minhas raízes, do meu pai (ciganas), especialmente no ‘Roma Acans’. Em ‘Balada de um Batráquio’, acaba também por ser sobre a comunidade cigana, mas com outra visão. Em ‘Terra Franca’, senti necessidade de fazer um filme completamente diferente. Acho que já não tinha mais nada para contar, encerrei aquele capítulo sobre as minhas raízes. Ou antes, as minhas inquietações acalmaram-se com os meus dois primeiros filmes. O ‘Terra Franca’, foi feito no Rio Tejo e tem mais a ver com a comunidade varina, embora na verdade o Albertino — o personagem principal — seja descendente de avieiros. Mas o meu avô andava de barco no Tejo, eu andava com ele quando era pequena e sempre tive vontade de explorar um bocadinho esse território junto ao rio. Queria filmar algo sobre a minha terra mas não sabia muito bem o quê. Depois andei de barco com o Albertino pela primeira vez, assim muito por acaso porque fui filmar uma outra situação, e pensei que o personagem para esse tal filme que queria fazer podia ser ele. Mas no final o mais importante foram as pessoas e a relação que estabeleci com com elas e a que elas estabeleceram comigo. Portanto, este ‘Terra Franca’, tem mais a ver com as pessoas, do que com a vontade de procurar novamente as minhas raízes. Pouco a pouco, o meu trabalho vai caminhando mais para esse lado das relações humanas, do que para a forma de responder às minhas origens.

TRAILER DE ‘TERRA FRANCA’

MHD: Apesar de viver em Lisboa, continua com fortes ligações à sua terra natal, a Vila Franca de Xira. Como lhe surgiu esta figura do Albertino?

LT: Toda a minha família e os meus amigos do secundário continuam a viver em Vila Franca, portanto quero continuar com essa ligação. Tenho imenso orgulho em ter nascido, crescido e vivido lá. Quanto ao ‘Terra Franca’, este começou com um personagem, um lugar e a minha ligação. O Albertino surge porque fui filmar à Praia Fluvial dos Cavalos, que fica a norte de Vila Franca e só é acessível por barco e ele deu-me uma boleia. Quando ia no barco fiquei com aquela imagem na cabeça deste herói, deste ‘cowboy’, do Tejo, mas sobretudo com a imagem de uma pessoa que estava no seu elemento, isto é onde devia estar, e onde eu própria sentia que ele devia estar, que era o Rio Tejo. Esta imagem daquele pescador no seu habitat natural inspirou-me para o filme que eu queria fazer ali no Rio Tejo. Como andei com a filha mais nova do Albertino na escola, falei com ela se o pai estaria interessado em filmar comigo. Ela abordou-o eu depois falei com ele, tivemos umas conversas e depois começamos a filmar. 

Terra Franca
‘Terra Franca’ é um filme sobre uma família e os resquícios da pesca artesanal.

MHD: O Albertino é uma figura muito carismática…

LT: Sim, e a partir do momento que tive essa imagem do Albertino na minha cabeça percebi logo que era ele a figura central desse tal filme que sempre pensei fazer sobre Vila Franca. Porque na verdade não é um filme sobre Vila Franca no seu todo, é só sobre aquele bairro, sobre aquela zona ribeirinha e sobre aquelas pessoas que têm essa ligação muito forte com o Rio Tejo. Por isso tive uma enorme vontade de filmar o Albertino, de conhecê-lo melhor e viver isso com ele e com a família dele…

MHD: É por isso que o filme se chama ‘Terra Franca’?

LT: Sim porque é um filme sobre essa família, sobre essas pessoas que vivem nessa zona junto ao Rio Tejo e que são muito francas, genuínas e directas e por isso é uma terra franca.

MHD: A história do Albertino e da família dele parecem que pouco a pouco vai deixando o registo documental para se tornar quase uma ficção?

LT: Absolutamente.

Terra Franca

Sobre ‘Terra Franca’:

‘Terra Franca’ fez um percurso extraordinário no circuito de festivais nacionais e internacionais: no Festival Cinema du Réel, recebeu o SCAM International Award, um dos mais conceituados prémios da sociedade francesa de autores, e em Portugal foi apresentado pela primeira vez no DocLisboa, onde ganhou o Prémio Escolas da Competição Portuguesa, no Porto/Post/Doc e no Caminhos do Cinema Português, recebeu os Prémios de Melhor Longa-Metragem de Ficção e D. Quixote do júri FICC. O filme tem sido exibido em festivais de todo o mundo e recebido vários prémios, como o Prémio de Melhor Primeira Obra da Competição Internacional (Prémio de la Crítica Jovén) no Mar de la Plata (Argentina) ou o Prix de La Ville d’Amiensno do Festival International du Film d’Amiens (França).

Terra Franca

Sobre a realizadora:

Leonor Teles nasceu em Vila Franca de Xira (Portugal, 1992). Licenciou-se na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa (2013), especialização em Direção de Fotografia e Realização, e fez o Mestrado em Audiovisual e Multimédia (2015). ‘Rhoma Acans’ (2013) foi o seu filme de fim de curso, selecionado e premiado em vários festivais internacionais. A ‘Balada de um Batráquio’, foi o seu primeiro filme e ganhou Urso de Ouro para Melhor Curta-Metragem na Berlinale de 2016. Além de outros prémios que incluem o Prémio Firebird para Melhor Curta-Metragem no Hong Kong IFF em 2016, Melhor Curta-Metragem no Belo Horizonte ISFF 2016, Prémio Cervantes para Curta Metragem Mais Inovadora no Festival Medfilm em 2016. Actualmente, Leonor trabalha principalmente nos seus projectos de ficção e documentário e como directora de fotografia para televisão e publicidade. ‘Terra Franca’ é a sua primeira longa-metragem documentário e teve a sua estreia oficial num circuito mais restrito de festivais em Março de 2018.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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