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Têm de Vir Vê-la, em análise

‘Têm de Vir Vê-la’, o novo filme do cineasta espanhol Jonás Trueba, estreou no IndieLisboa 2023 fora das competições e chega agora às salas de cinema. Trata-se de uma brilhante, leve e inesperada crónica filosófica pós-pandemia, no fundo uma pequena lição, de como é (sobre) viver neste ‘novo normal’, inspirada nas ideias do filósofo alemão Peter Sloterdij.  

Com ‘Têm de Vir Vê-la’, o ainda jovem realizador Jonás Trueba (n.1981) parece consolidar definitivamente um lugar privilegiado, no contexto do cinema de arte & ensaio espanhol. Primeiro, como testemunho da passagem do tempo de uma geração que ele representa; depois graças à sua estética única, assente na intimidade e na proximidade do seu cinema com a sua própria vida e com o ambiente que o rodeia. O resultado é na verdade, um misto de universalidade e subjectividade narrativa. Têm de Vir Vê-la’ é mais um ensaio cinematográfico que vai nesse sentido da reflexão sobre o tempo presente pós-pandemia — no início mesmo durante o período das limitações sanitárias, porque as personagens usam máscara excepto à mesa do bar-restaurante — cujo título começa, de certa maneira, a brincar com a cada vez mais rara frequência do público da sua geração (e dos seus amigos em geral) às salas de cinema, —  vale a pena ver o trailer abaixo, porque é muito original e apelativo — que assenta também na mais pura das simplicidades de um argumento sem um grande enredo dramático: a visita de um casal à nova casa de uns amigos que vivem nos arredores de Madrid. E curiosamente tudo está relacionado com as questões do nosso tempo, como poderão ver ao longo do filme.

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VÊ TRAILER DE ‘TENS DE VIR VÊ-LA’

Já há dez anos em ‘Os Iludidos’, Trueba filho (o pai é o veterano Fernando Trueba), mostrava-nos um grupo de pessoas na casa dos trinta anos em busca do seu lugar na cidade e a inquietação de um jovem aprendiz de cineasta, à procura de si mesmo; ou em ‘Quién lo impide’ (2021) com uma duração de mais de três horas e meia, um retrato geracional da juventude misturando documentário e ficção. Agora em ‘Têm de Vir Vê-la’, são quatro personagens, dois casais amigos (Irene Escolar, Vito Sanz, Itsaso Arana e Francesco Carril, em maravilhosas interpretações, apesar de pródigas no discurso): uns vivem na cidade, os outros mudaram-se entretanto para uma casa no campo nos arredores da grande cidade, onde planearam ter um filho. A amizade entre eles foi-se desgastando com os tempos, mas o afastamento deu-se principalmente por causa da pandemia. No entanto, esta aparente leveza mínima do argumento, carrega muitas intenções filosóficas e reflexões existenciais, como a alienação da realidade, a busca pelo sentido da vida nas sociedades ocidentais contemporâneas, o papel da arte, ou seja questões que se vão expressando num filme que, ao mesmo tempo, olha para dentro de si mesmo e do seu realizador: uma espécie de quatro personagens à procura do seu realizador, o cinema dentro do cinema ou as personagens como espelho do realizador e do que o rodeia ou melhor um filme que é uma radiografia do momento. A pandemia mesmo que tenha praticamente desaparecido do nosso dia-a-dia, (substituída pela guerra e pela inflação) continua a ser inevitavelmente um motivo de reflexão e de questionamentos profundos, até quanto mais não seja porque esperávamos que mudasse muita coisa e está tudo praticamente na mesma ou até com maiores riscos. 

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Têm de Vir vê-la
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São uns versos (Viver é Irreal), da poetisa Olvido García Valdés que começam por dar o mote a este filme: uma sensação de crise de identidade, de irrealidade; depois são os suaves personagens a dialogarem naturalmente entre si e sobre as suas vidas, com a ideia de que ‘tens de mudar de vida’, lendo aliás excertos do livro do filósofo alemão Peter Sloterdijk (n.1947), (está editado em português pela Relógio de Água). O livro fala sobretudo de como somos estranhos no mundo e, que para tentar lidar com a incerteza da morte, agimos e fazemos coisas. Na verdade, ficamos com uma sensação da nossa fragilidade e finitude, de nos sentirmos formiguinhas neste universo intemporal. A arte é uma dessas coisas, que serve como uma espécie de fuga para a frente, de forma a ultrapassarmos, essa angústia existencial e humana. E o cinema é também uma dessas coisas. Porém, o livro-ensaio de Sloterdijk fala igualmente de uma certa perda de importância da arte na actualidade, da sua desvalorização como disciplina que explica o sentido da vida, substituída de certo modo pelo efémero. 

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Têm de Vir Vê-la
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Voltando directamente ao filme ‘Têm de Vir Vê-la’, assenta num dialogo sobre as premissas acima, porém é uma obra enganosamente austera, que dura pouco mais de uma hora, apesar dos seus (apenas) 50 planos ordenados, quase todos com a assinatura autêntica do realizador. Foi rodado em oito dias (e editado em dezasseis) e apesar de parecer um filme muito básico, quase como um mudo ou uma peça de teatro, tem um registo muito preciso, enriquecido com uma montagem muito limpa e objectiva e umas interpretações de tal forma naturais que os actores parecem alguns dos nossos amigos ou conhecidos. A música também é muito importante nesta narrativa: o filme abre com ‘You Have to Come to See It’ interpretada Chano Domínguez, num café-concerto madrileno, onde os protagonistas bebem um copo; depois vem o som do guitarrista Bill Frisell para pontuar a estranheza da existência humana ou as canções de Bill Callahan como um sublinhado quase cómico e lúdico. A amizade, a natureza e a cultura são as respostas do filme às crises vitais: existe por vezes uma tensão entre cultura e natureza e não deveria existir em circunstância alguma. O filme tem também ainda um lado de comédia escondida, sobre a ideia de uma experiência individual de um urbano, que decide optar por ir viver no campo e pensar que aí é que vai ser feliz. Ir viver para a periferia ou para o campo, não é desculpa para não ir ao bairro vizinho, o que além disso obriga por vezes a fazer a vida praticamente toda de carro, quando de facto estamos perante uma crise climática, o que não deixa de ser uma contradição. Por fim, o filme fala ainda daquela preocupante questão, das pessoas instaladas ou melhor aburguesadas e com acesso fácil tudo graças à internet, terem preguiça de sair de casa, como por exemplo até para irem ao cinema.

JVM


Têm de Vir Vê-la, em análise
Têm de Vir Vê-la

Movie title: Tenéis que venir a verla

Movie description: Elena e Daniel têm que vir ver a nova casa de Guillermo e Susana na periferia. É o que acontece num filme que precisa de pouco mais do que uma hora para nos deliciar pela sua fresca e espirituosa simplicidade.

Date published: 4 de May de 2023

Country: Espanha

Duration: 64 minutos

Director(s): Jonás Trueba

Actor(s): Itsaso Arana, Francesco Carril, Irene Escolar, Vito Sanz

Genre: Drama, 2022,

  • José Vieira Mendes - 85
85

CONCLUSÃO:

‘Têm que Vir Vê-la’ é um filme com a habitual simplicidade estrutural e narrativa do realizador espanhol Jonás Trueba. Contudo, é uma obra excepcional concisa, elevada nos seus diálogos e nas suas pretensões intelectuais, mas que ao mesmo tempo consegue ser, sonora, bela, livre, altamente personalizada e universal. Sem ser um filme abertamente político, é um filme de resistência, franco, direto, fluido, um bocadinho triste e existencialista sobre a vida, a arte, o cinema e a natureza, mas muito bem construído em torno dos seus maravilhosos quatro intérpretes, culmina numa bela nota experimental, dos filmes dentro dos filmes. 

JVM

Pros

O filme mais do que uma nota ou esboço, parte de uma história banal um dia no campo com os amigos depois de muito tempo sem s verem. Pura diversão, mas sobretudo, inteligência.

Cons

Necessita que o espectador observe, preste atenção, esteja muito atento pois é um filme que funciona como disparador de reflexões e como ponto de encontro com o mundo e com as pessoas.

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