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Crónicas de França, em análise

Primeiro gostava de avançar com uma daquelas perguntas retóricas que nestas alturas fazemos quando, perante um filme que no original dá pelo nome de THE FRENCH DISPATCH, ou seja, O CORREIO DE FRANÇA, ou então, CRÓNICAS DE FRANÇA, passa em Portugal a ser distribuído e exibido com a designação, quase diria proto-poética, de CRÓNICAS DE FRANÇA DO LIBERTY, KANSAS EVENING SUN. Eu sei que essa lengalenga está lá no cartaz, e por isso alguns dirão, porque não? Como disse, não passa de uma pergunta retórica, mas aqui e nesta crítica vou passar simplesmente a usar a versão original e curta, que me parece mais directa e adequada a um filme que de directo possui pouco e de adequado possui muito.

OS CÓDIGOS DE WES ANDERSON E O MEIO CAMINHO ANDADO.

crónicas de frança
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Na filmografia de Wes Anderson, que alguns apelidam de visionário, seja lá o que isso for, THE FRENCH DISPATCH não será o melhor exemplo da sua arte e engenho. Há quem use elogios ou insultos mais acutilantes. Na verdade, importa aqui sim salientar que o realizador, ao decidir optar por uma estrutura fílmica com mil e uma referências de gosto muito pessoal, para além de outras de natureza histórica, pictórica, geográfica, arquitectónica, gráfica, literária, e o que mais se quiser, algumas a precisar mesmo de um fôlego suplementar para serem acompanhadas e assimiladas sem nos perdermos na parafernália de situações geradas diante dos nossos olhos, demonstra que isto de ser autor não é para qualquer um no actual panorama cinematográfico, e que a indústria que sustenta os filmes popcórnicos possui, aqui e além, a sabedoria de investir em projectos onde a única coisa que faz POP são mesmo as garrafas de champanhe que, ou não estivéssemos voltados para o imaginário francês, celebram a arte do cinema e os artistas que a ela se dedicam com alma e coração. E neste filme há múltiplas razões para nos embebedarmos com o delicioso néctar porque, minuto a minuto, somos levados a recordar e utilizar os códigos que nos apoiam na leitura dos filmes assinados com o nome Wes Anderson, numa espécie de exercício similar ao uso do código postal, o do meio caminho andado para, neste caso, receber a mensagem no destino, ou seja, no nosso cantinho de espectadores, ou seja, aqueles que antes de mais precisam estar sentados confortavelmente no melhor destino, leia-se, numa sala com um grande ecrã, para que as crónicas “publicadas” nessa grande superfície, onde luz e sombras se encontram, sejam apreciadas nas condições mais adequadas. Trata-se no fundo de estabelecer, ao longo das diversas sequências que pontuam THE FRENCH DISPATCH, uma inequívoca cumplicidade com as idiossincrasias plásticas e ideológicas do realizador, assim como das restantes autorias presentes no filme, de que a Direcção Artística se destaca de forma exemplar e sem a qual o exercício de visionamento de THE FRENCH DISPATCH não pode resultar com a necessária e desejada eficácia.

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Daqui para a frente daremos conta dos pressupostos narrativos do filme já que, dos estéticos, este que vos escreve prefere dizer “ não o deixem para depois e vão vê-lo, agora”. Sabe sempre melhor ver do que ler, sobretudo se for visto na amplitude de um grande ecrã.

crónicas de frança
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THE FRENCH DISPATCH, uma revista americana de grande circulação possui sede na cidade francesa de Ennui-sur-Blasé, e quem souber francês já pode adivinhar pelo nome fictício da cidade o que o filme promete. Recentemente, perdeu o seu bem amado editor, Arthur Howitzer Jr., nascido no Kansas (EUA). Pois bem, será em França que a equipa responsável pela revista e, naturalmente, pela escrita e publicação das crónicas, decide realizar um obituário sob a forma de mais um conjunto de histórias, cada uma introduzindo um imaginário rico e complexo de pormenores, que irão sendo acumulados uns atrás dos outros, numa nítida vontade de estabelecer uma montanha russa de sequências cujo significado mais profundo somos convidados a descobrir naquilo que se poderia chamar o desafio maior, a saber, deslindar o que se diz e não diz, aquilo que se passa verdadeiramente entre as imagens. Daqui resultam as crónicas referidas, sendo a primeira THE CYCLING REPORTER, uma visita guiada e nada “aborrecida” a Ennui-sur-Blasé com frequentes paragens no café Le Sans Blague. Depois vem THE CONCRETE MASTERPIECE, crítica mordaz ao corrupto mundo da arte e ao mecanismo mental de um pintor que a partir da prisão vai construindo um universo plástico demasiado particular e, sem qualquer sombra de dúvida, demasiado controverso. Magnífica interpretação de Benicio del Toro. De seguida, serão publicadas REVISIONS TO A MANIFESTO, ou os ecos do Maio de 68, vistos sob a luz do cinismo contemporâneo e, finalmente, THE PRIVATE DINING ROOM OF THE POLICE COMMISSION, ou como o rapto do filho do chefe da polícia gera uma ficção sobre os maus e, digamos, os menos maus no quadro de um policial que bem podia integrar uma colecção de bolso. Tudo polvilhado por um humor cáustico e aquela saudável loucura inerente a outras aventuras do realizador, próximas da banda desenhada ou das novelas gráficas para adultos que no mercado Franco-Belga e nos Estados Unidos podíamos situar na obra de um TARDI, de um FRANÇOIS SCHUITEN ou de um CHRIS WARE. E muitos outros podiam ser citados, sobretudo os que contribuíram e ainda contribuem para a definição gráfica de uma revista bem real, a notável e sempre apetecida The New Yorker.

Destaque especial para uma fabulosa e numerosa galeria de actores, que parece rejubilar com a semi-anarquia controlada da narrativa, e para uma banda sonora onde a partitura de Alexandre Desplat e Randall Poster, habituais colaboradores de Wes Anderson, acaba integrada num exercício de correspondências imagem-som-movimento que faz deste filme um dos mais frenéticos de entre as estreias alinhadas para este final de ano. E, para o ser, nem precisa de super-heróis. Glória, aleluia.

João Garção Borges

Crónicas de França do Liberty, Kansas Evening Sun, em análise
French Dispatch Poster cronicas de franca

Movie title: The French Dispatch

Date published: 10 de November de 2021

Director(s): Wes Anderson

Actor(s): Benicio Del Toro, Adrien Brody, Tilda Swinton, Léa Seydoux, Frances McDormand, Timothée Chalamet, Lyna Khoudri, Jeffrey Wright, Mathieu Amalric, Stephen Park, Bill Murray, Owen Wilson, Christoph Waltz, Edward Norton, Jason Schwartzman, Liev Schreiber, Elisabeth Moss, Willem Dafoe, Lois Smith, Saoirse Ronan, Cécile de France, Guillaume Gallienne, Jason Schwartzman, Tony Revolori, Rupert Friend, Henry Winkler, Bob Balaban, Anjelica Huston.

Genre: Comédia, Drama, Romance, 2021, 108 min

  • João Garção Borges - 80
  • Manuel São Bento - 55
  • Maggie Silva - 90
75

CONCLUSÃO:

Filme literalmente concebido com imagens, sons e grafismos de múltiplas origens, onde o rigor da produção se cruza com o lirismo exuberante da linguagem cinematográfica. Filme apoiado ainda por actores de primeira água, que aqui dão corpo e alma a um projecto fílmico absolutamente imperdível.

Pros

Mil e uma referências. Mil e uma leituras.

Cons

Podia, aqui e além, ser mais económico nas citações ou inserções gráficas. Mas, que se dane, antes a mais do que a menos.

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