"102 Dálmatas" | © Disney

Cruellas do Passado | 102 Dálmatas (2000)

No virar do milénio, a Disney estreou os “102 Dálmatas”, uma sequela tresloucada com figurinos nomeados para o Óscar. Glenn Close regressa ao papel de Cruella De Vil, cheia de energia e uma abordagem ainda mais cartoonista que na película original. Tal como as outras produções da Disney sobre esta vilã e suas vítimas caninas, “102 Dálmatas” encontra-se disponível na plataforma de streaming Disney+.

A sequela dos “101 Dálmatas” de 1996, propõe uma questão interessante. Será que inconsistência, incoerência, excesso e desastroso humor podem ser a receita para bom cinema? Pode o mau ser bom? Acontece que, divorciados de qualquer noção de fidelidade ao clássico de 1961 ou aos livros de Dodie Smith, os cineastas de “102 Dálmatas” deram asas à imaginação e conceberam um filme nos limites da loucura. Objetivamente, é uma fita pejada de problemas. Contudo, é também uma experiência extremamente divertida e fabulosa, tão doida que transcende noções vulgares de qualidade. Afinal, ser-se loucamente mau é bem melhor do que ser aborrecidamente medíocre. Pelo menos, essa é a nossa opinião.

Enfim, como “102 Dálmatas” é uma história original, convém estabelecer os paradigmas da narrativa antes de analisarmos o filme. Depois de ser presa no fim de “101 Dálmatas”, a estilista milionária Cruella De Vil tornou-se na cobaia de um psiquiatra experimental, o Dr. Pavlov. Não nos referimos ao verdadeiro Ivan Pavlov que morreu em 1936, mas a uma espécie de paródia fantasiosa que vive nos dias de hoje. Através de psicotrópicos e alguma magia Disney, ele curou a criminosa. Tal foi o seu sucesso que Cruella deixou de odiar cães e amar pele, a sentir imenso amor pelos companheiros caninos e a ter nojo pelas modas em pelo.

102 dalmatas cruella
© Disney

Autonomeando-se Ella De Vil, a maluca curada é liberta e depressa começa a trabalhar com o intuito de ajudar a população canina de Londres. Ela doa dinheiro ao abrigo animal de Kevin Sheperd, mas há quem tenha dúvidas em relação aos seus motivos. Chloe Simon é a agente da fiança de Cruella assim como a dona de um dos dálmatas que haviam sido vitimados pela estilista no filme anterior. Apesar das boas ações da vilã redimida, Chloe jamais confia nela, especialmente quando os seus cães têm filhotes e os olhos da antiga presidiária se colam aos cachorros. Certo dia, quando os pequenos cãezinhos estão de visita aos escritórios da dona, Cruella é chocada pelos sinos ribombantes do Big Ben.

Como que por feitiçaria infernal, o som destrói a cura de Pavlov e Ella metamorfoseia-se em Cruella, ainda mais doida que da última vez e decidida a vingar-se da raça canina. Com a ajuda de outro estilista, o francês Jean-Pierre Le Pelt, a malvada recomeça o plano para roubar cachorros dálmatas e os converter num rico casaco. Desta vez, contudo, ela planeia matar ainda mais animais e quer que os bebés caninos de Chloe, os filhos da geração do filme anterior, sejam um capuz de pele. Fingindo e manipulando, ela consegue incriminar Shepherd e viaja rumo a Paris para completar seu pérfido esquema. Contudo, uma destemida dálmata sem pintas consegue salvar os irmãos de quatro patas e, mais uma vez, derrotar a vilã.

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Pelo meio temos papagaios falantes com complexos psicológicos, paródias da alta-costura, um romance sensabor e até um banquete inter espécies. “102 Dálmatas” é um filme sem contenção alguma, uma orgiástica celebração do excesso que entretém muito, mas também desconcerta. Tal como no filme anterior, há problemas inerentes à estrutura que são inescapáveis. De novo, os bonzinhos são banais e aborrecidos, heróis desinteressantes que nunca chegam aos calcanhares dos maus da fita. A dálmata sem pintas é adorável e, apesar de coberta em efeitos digitais, consegue projetar mais personalidade que seus donos humanos. Tudo isso e os novos heróis animais são um tanto ou quanto irritantes, especialmente o pássaro que julga ser cão.

Mas esqueçamos os protagonistas benignos. O que interessa é Cruella, não as suas vítimas. De regresso ao papel icónico, Glenn Close é ainda mais exagerada que da última vez, aproveitando as dicotomias morais da vilã (tornada santa tornada vilã outra vez) para levar a caracterização aos extremos. Como Ella, a atriz é um pesadelo de otimismo sacarino, tão meiga e bondosa que quase nos faz estremecer. Ninguém devia ser tão solarengo como essa versão da estilista viciada em peles. Depois da transformação despoletada pelo Big Ben, ela converte-se numa delirante expressão de malvadez, um retrato de quem faz mal, sabe que faz mal, e delicia-se com sua mesma vilania. Não há aqui sombra de humanidade, é tudo caricatura demoníaca.

cruella 102 dalmatas
© Disney

Isso traz-nos à principal diferença entre “101 Dálmatas” e esta sequela. Apesar de os cães continuaram a não ter o poder da fala, “102 Dálmatas” está completamente separado de qualquer ideia de realismo. Isto é uma fantasia e, de todos os cineastas em ação, Glenn Close é quem melhor sabe como usar isso para seu proveito, para seu belo prazer. Ela e o figurinista Anthony Powell que colaborou com a atriz para criar um guarda-roupa ainda mais espampanante que a primeira desventura desta Cruella de carne e osso. Primeiro, ela veste-se quase como uma freira. Depois do relógio lhe ressuscitar a maldade, regressam as peles e os padrões animais, os vermelhos sanguíneos e o ouro brilhante.

O realizador Kevin Lima não é um realizador particularmente inspirado, mas ele sabe quando se render e deixar que Close e Powell dominem o grande ecrã. A sua principal contribuição para os “102 Dálmatas” é a injeção de júbilo nas muitas sequências de ação, assim como um certo gosto pela fantasia animada. Basta vermos a cena em que Cruella é finalmente derrotada e cozinhada num bolo para confirmarmos esse afeto pelo estrambólico e gozão. Chegado o momento da conclusão, resta-nos dizer que, apesar de darmos nota inferior à sequela, mais rapidamente recomendaríamos os “102 Dálmatas” que o primeiro filme. É mais divertido, mais doido, mais predisposto a ser brincalhão e a entreter o espetador.

Os 102 Dálmatas, em análise
102 dalmatas cruella

Movie title: 102 Dalmatians

Date published: 27 de May de 2021

Director(s): Kevin Lima

Actor(s): Glenn Close, Gérard Depardieu, Ioan Gruffudd, Alice Evans, Tim McInnerny, Eric Idle, Ben Crompton, Carol MacReady, Jim Carter, Ian Richardson

Genre: Aventura, Comédia, Família, 2000, 100 min

  • Cláudio Alves - 55
55

CONCLUSÃO:

“102 Dálmatas” é uma sequela que supera o original em termos de loucura criativa. É mais inconsistente e o humor mais forçado, mas Glenn Close arrasa e o guarda-roupa de Cruella é um insuperável festim para os olhos.

O MELHOR: Como sempre, Cruella é o ponto alto do filme. Seus extremos de humor, a performance miraculosa de Glenn Close e os seus figurinos dignos de Óscar.

O PIOR: Há uma ideia que o filme promulga de como os criminosos não podem ter reabilitação que nos deixa muito desconfortáveis.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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