"101 Dálmatas" | © Disney

Cruellas do Passado | 101 Dálmatas (1996)

Muito antes de os remakes de clássicos de animação se tornarem moda, a Disney refez “101 Dálmatas” com um elenco liderado pela fabulosa Glenn Close no papel de Cruella de Vil. O filme foi um sucesso e ajudou a estabelecer o mesmo modelo que viria a ser seguidos pelos cineastas de “Cinderela”, “A Bela e o Monstro” e tantos outros remakes. A maquilhagem exuberante de Cruella valeu uma nomeação para os prémios BAFTA e Close conquistou indicação para os Globos de Ouro de 1996. A obra está disponível na Disney+.

É interessante ponderar uma época em que não era tido como inevitável que qualquer clássico animado da Disney estivesse destinado a ser refeito em formato live-action. Nos anos 90, décadas antes desta febre do remake, os estúdios fundados por Walt Disney começarem a produzir essas reencarnações cinematográficas em quantidades industriais, a ideia de voltar a contar a história dos “101 Dálmatas” surgiu, em grande parte, como uma resposta ao sucesso de outra produtora. Depois de “Beethoven” ter ceifado uma pequena fortuna à Universal Pictures.

A relação entre os dois filmes é ainda mais óbvia quando nos lembramos que a Disney chegou ao ponto de contratar o mesmo argumentista que havia assinado “Beethoven”. John Hughes, célebre criador de algumas das mais amadas comédias sobre a adolescência dos anos 80 e pai da saga “Sozinho em Casa”, foi encarregue de adaptar o cartoon de 1961 a um novo mundo feito para atores de carne e osso e miúdos modernos. Não se tratou de um dos projetos mais criativos na carreira de Hughes. Afinal, ele praticamente reciclou o clímax de “Sozinho em Casa”, substituindo Kevin McAllister por um exército de pequenos cachorros.

101 dalmatas cruella
© Disney

Não que essa seja a única decisão textual que nos faz torcer o nariz. Talvez a metamorfose mais significativa entre o filme de 61 e o de 96 é um afeto meio inconsistente pelo realismo. Nesta nova versão, os cães não podem falar. Contudo, podem continuar a comportar-se com os trejeitos antropomórficos da fita animada, incluindo a ideia de casamento canino. Essa escolha cria um certo desequilíbrio entre protagonistas animais e elenco humano. Se, na história original, tudo gira em volta dos cães, nesta nova versão são os humanos que dominam a cena.

Pena então que alguns desses seres de duas patas sejam tão mal caracterizados. Roger passou do economista do livro e compositor do cartoon, a um criador de videojogos 2D. O humor intemporal do clássico desapareceu então, substituído por piadas que deixaram de ser relevantes nem uma década depois do filme estrear. Enfim, mau argumento facilmente se resolve com boa realização e atores capazes. Com Stephen Herek na cadeira de realizador, “101 Dálmatas” pode não cumprir uma dessas alternativas, mas sucede na outra. O elenco é bem impressionante.

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Nem Jeff Daniels nem Joely Richardson, por muito excelentes atores que sejam, acrescentam muito aos papéis de Roger e Anita, donos dos dálmatas. Felizmente, os outros intérpretes são mais capazes. Joan Plowright traz um belo calor maternal ao papel de Nanny e sua aflição depois do roubo dos cachorros parte-nos o coração. Sem dizer uma única palavra, John Shrapnel traz portentosa ameaça ao papel de Skinner, enquanto Tim McInnerny é um brilhante Alonzo, o mordomo da vilã. Há ainda o duo de Hugh Laurie e Mark Williams, atores britânicos consagrados que dão o corpo ao manifesto, interpretando os ladrões que roubam os cachorros antes de serem mortificados pelos mesmos animais.

A estrela, contudo, não é nenhum desses atores. A verdadeira estrela de “101 Dálmatas” é a espetacular Glenn Close no papel de Cruella De Vil. Em primeiro lugar, falemos do visual. Nesta versão da aventura, a vilã já não é uma antiga amiga de Anita, mas sua patroa, dona de uma casa de alta-costura que parece ser especializada na moda da pele e do pelo. Como tal, sua aparência não é tanto a de uma socialite vaidosa como a de uma estilista endoidecida, tão opulente quão é malvada. De facto, muito antes de vermos a cara de Cruella, vemos o seu figurino espampanante. Sapatos polidos, capa peluda e cigarrilha vermelha formam os paradigmas do seu estilo e a entrada da figura foi até homenageada em “O Diabo Veste Prada”.

cruella 101 dalmatas
© Disney

Para conceber tal personagem, os produtores do filme contrataram o figurinista Anthony Powell, um genial artista que, ao longo de uma comprida carreira, ganhou três Óscares. Para Cruella, ele concebeu um guarda-roupa totalmente feito de peles (falsas) e padrões animais, um desperdício de recursos que tanto remete para a riqueza da mulher como para sua voracidade. Há umas quantas referências à figura animada, desde falas específicas ao figurino final, mas esta nova Cruella é muito original na sua configuração. Tão sublime é o guarda-roupa que a atriz exigiu ficar com ele, tendo no contrato que os figurinos fariam parte do seu ganho.

Os trajes exuberantes também refletem um aspeto importante de Cruella. Ao contrário do restante filme, a antagonista não deve nada ao realismo ou à pretensão do mesmo. Na verdade, Close é mais exagerada que a vilã animada, devorando o guião com um abandono tão completo que quase mete medo. Queremos fugir da sua imagem, mas também somos atraídos pela folia malevolente que ela transmite. Close é uma grande atriz e, perante a parvoíce da premissa, parece ter feito aquilo que quase mais ninguém envolvido com “101 Dálmatas” teve coragem de fazer. Ela interpreta Cruella como uma drag queen, rendendo-se ao camp.

A atriz é tão majestosa que faz com que este “101 Dálmatas” dos anos 90 se torne num visionamento essencial para todos aqueles que gostem de grandes performances. Trata-se de um trabalho tão poderoso que modifica a realidade em seu redor, dando valor às fragilidades do filme, reconfigurando-as como uma perfeita moldura para o grotesco de Cruella. Tudo isso e ela tem um dos melhores risos maléficos já capturados por câmaras. Que lenda ela é. Que diva. Que Cruella!

101 Dálmatas, em análise
cruella 101 dalmatas

Movie title: 101 Dalmatians

Date published: 26 de May de 2021

Director(s): Stephen Herek

Actor(s): Glenn Close, Jeff Daniels, Joely Richardson, Joan Plowright, Hugh Laurie, Mark Williams, John Shrapnel, Tim McInnerny, Hugh Fraser, Zohren Weiss

Genre: Aventura, Comédia, Crime, 1996, 103 min

  • Cláudio Alves - 60
  • Virgílio Jesus - 70
65

CONCLUSÃO:

No papel da antagonista, Glenn Close é tão extraordinária que redime a restante película. A trama carece de originalidade, mas há muito valor nostálgico a ser descoberto na sua recriação de um clássico animado. Só graças à atriz e seu figurinista, este não é um desses remakes desnecessários que tanto se tornaram na imagem de marca da Disney do século XXI.

O MELHOR: Cruella, a prestação da estrondosa Glenn Close e os opulentes figurinos de Anthony Powell.

O PIOR: Quão anémicas todas as caracterizações são, com singular exceção de Cruella. Roger e Anita são tão sensabor que quase torcemos contra o seu final feliz. Isso e o humor forçado.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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