"Cyrano" | © MGM

Cyrano, em análise

Em “Cyrano,” Peter Dinklage protagoniza uma versão musical do clássico do teatro francês e assim se coloca na corrida para o Óscar de Melhor Ator. Mesmo que o ator mais conhecido por “Game of Thrones” não consiga confirmar a nomeação, o filme é capaz de ser celebrado pela Academia noutras categorias. Trata-se de um festim visual além de um sonho sinfónico.

Hector Savinien de Cyrano de Bergerac foi um famoso autor e duelista que ganhou fama na França do século XVII. Passados mais de 200 anos após a sua morte, o dramaturgo Edmond Rostand fez ficção da sua biografia, assinando um dos grandes clássicos do teatro francês. “Cyrano de Bergerac” conta a história de Bergerac, amaldiçoado com um nariz disforme e apaixonado pela bela Roxane. Infelizmente ela ama outro, Christian. Esse homem charmoso prima pela aparência, mas faltam-lhe as palavras do amor, pelo que Cyrano o ajuda, compondo versos em seu nome, escrevendo cartas a Roxane e assim conquistando o seu coração.

Mais não diremos, mas trata-se de um clássico e com razão, cheio de fabulosos jogos de palavras, trocadilhos e longas passagens poéticas que se vieram a tornar em ambrósia para o ator ambicioso. Tão amado é o texto que, nascendo o cinema, rapidamente vieram artistas do grande ecrã buscar inspiração ao texto de Rostand. Algumas das versões mais famosas incluem o filme que valeu a José Ferrer o Óscar de Melhor Ator em 1950, a comédia americana “Roxanne” e a fita francesa com que Gérard Depardieu se confirmou como um dos grandes talentos da sua geração. Chega-nos agora nova interpretação, nascida nos palcos e agora transposta para cinema.

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De facto, já foram feitos vários musicais inspirados em “Cyrano de Bergerac,” até uma ópera. Contudo, o filme de Joe Wright baseia-se somente na mais recente criação, um musical de 2018 escrito por Erica Schmidt com canções de Aaron e Bryce Dessner, Matt Berninger e Carin Besser. Na génese, trata-se de uma carta de amor, escrita pela dramaturga para o seu marido, Peter Dinklage. O espetáculo foi composto à sua medida, transformando a história de um homem com nariz comprido em um anão que vê o romance com Roxane como uma impossibilidade devido à estatura. Muitas outras mudanças foram feitas, desde uma ênfase na paixão acima do intelecto, uma vilificação acrescida de alguns antagonistas e reformatação de relações.

Na transposição para o cinema, junta-se ao amor de Schmidt e Dinklage outra união de artistas. No grande ecrã, Roxane é interpretada por Haley Bennett, a companheira do realizador Joe Wright, afigurando-se o filme como dupla prova de devoção. Essa exuberância de sentimento regista-se tanto na narrativa e drama, como nas tonalidades mais inefáveis da peça. Assim se designa este “Cyrano” como um hino ao próprio conceito do amor romântico, uma celebração lunática que troca a frieza irónica tão comum nos nossos dias pela sinceridade trágica. Há quem se possa rir da lamechice, mas há muito a amar neste filme apaixonado.

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Em primeiro lugar, há que louvar a raison d’être de todo o aparato. Peter Dinklage pode não ser um cantor prodigioso, mas suas qualidades enquanto ator são inquestionáveis. Projetar paixão é um tipo de performance muitas vezes menosprezado, mas é difícil de dominar, algo que Dinklage consegue sem sinais de esforço. A sua expressividade em grande plano faz reverberar ardor por todo o filme, emoção sublime que nos enfeitiça e inebria. Nas suas mãos, a personagem titular transcende as ações manipuladores, tornando-se num idealista melancólico, um homem subjugado pela sua mesma paixão. É trabalho comovente e visceral.

Se Dinklage é o expectável triunfo de “Cyrano,” Bennett é a sua revelação. Há anos que a atriz almeja sucesso no mainstream, mas, até agora, todos os seus sucessos críticos haviam-se concentrado na esfera indie. O papel de Roxane assenta-lhe que nem uma luva, contudo, proporcionando um daqueles momentos em que o espetador pensa “assim nasce uma estrela.” Explodindo com carisma e insolência romântica, sede de prazer e fome de viver, Bennett é magnífica, assim como a melhor cantora da fita. Kelvin Harrison não lhe fica muito atrás, trazendo uma sinceridade amorosa à figura de Christian.

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Além do trio principal, Wright desencanta grandes desempenhos do elenco secundário, mesmo que somente os principais tenham direito a multidimensionalidade textual. Infelizmente, na musicalização de “Cyrano de Bergerac,” as personagens menores foram meio esquecidas. É claro que, como acontece em todas as obras deste realizador, as maiores qualidades de Wright revelam-se num paradigma estilístico, relativamente divorciado de quaisquer considerações interpretativas. Aqui, contudo, existe uma continuidade entre a sinceridade dos atores e o formalismo apaixonante. Ao invés de resistir à natureza absurda do género musical, Wright celebra-a.

Isso é óbvio desde o primeiro número, quando Roxane canta sobre o verdadeiro amor que tanto quer, desfilando por um cenário setecentista em que bailarinos rodopiam em tafetá e voam quando beijados pelos seus enamorados parceiros. Longe de se apegarem a um registo estritamente barroco, os designers desviaram a história de Cyrano para uma época ligeiramente mais tardia, enfatizando sensualidade e a harmonia visual. Não há verismo, mas também não precisa haver. A maquilhagem mais isso revela, enquanto a fotografia captura o mundo através de uma pátina brilhante, luz difusa e cores esbatidas em pastéis quentes.

Por entre estes maravilhosos atores e esplendorosa encenação, os parcos problemas do argumento quase se esquecem. A música ajuda ao deslumbramento, ofuscando as máculas e apelando anda mais ao coração sentimental do espetador. As melodias de Aaron e Bryce Dressner e letras dos The National variam em primor, mas são consistentes no que se refere ao tenor emocional. A repetição de “Someone to Say,” “Overcome” e “Wherever I Fall” impressionam especialmente pela rejeição de masculinidade estoica. A vulnerabilidade é elevada ao patamar de ordem moral, e o absurdo faz-se regra da vida. O que é importante é amar e ser amado.

Cyrano, em análise
Cyrano

Movie title: Cyrano

Date published: 22 de January de 2022

Director(s): Joe Wright

Actor(s): Peter Dinklage, Haley Bennett, Kelvin Harrison Jr., Ben Mendelsohn, Monica Dole, Bashir Salahuddin, Ruth Sheen, Glen Hansard, Scott Folan, Sam Amidon, Mark Benton, Peter Wright

Genre: Drama, Musical, Romance, 2021, 124 min

  • Cláudio Alves - 77
77

CONCLUSÃO:

“Cyrano” é filme para todos aqueles que se querem apaixonar. Se não tiverem alguém para amar, pelo menos terão este musical de Joe Wright, carta de amor do realizador para com Bennett, e da dramaturga para com Dinklage. Acima de tudo, é um festim para os sentidos e o sentimento, um circo de prazeres rococós e elegâncias sinfónicas. Trata-se de um exercício em híper-sinceridade que não fará o gosto de todos aqueles que franzam o nariz contra a exuberância anti naturalista do musical e do amor à primeira vista.

O MELHOR: Os figurinos de Jacqueline Durran e Massimo Cantini Parrini, as coreografias adocicadas e as maquilhagens poeirentas. “Cyrano” é um musical, mas o seu primor estético merece aplausos muito além das músicas.

O PIOR: A lamechice da proposta narrativa vai irritar muita gente. Além disso, existe uma clara falta de fidelidade para com as complexidades textuais do original “Cyrano de Bergerac.” O final, em particular, sente-se muito apressado.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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