Venice Sala Web | Dark Night, em análise

Em Dark Night, o cineasta Tim Sutton observa uma comunidade dos subúrbios americanos durante o dia que precede um horrendo tiroteio num cinema. Tal como todos os filmes presentes no Venice Sala Web, esta obra foi exibida no Festival Internacional de Veneza e está, de momento, disponível no Festival Scope.

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Nos passados anos, a crise de violência à mão armada nos EUA tem-se tornado uma epidemia tão mediática que chegámos a uma conjuntura em que um tiroteio num local público é mais rotina que choque. Faz sentido, portanto, que os pensadores e artistas tenham algo a dizer sobre este problema, mas o cinema raramente se mostra disponível para tais explorações, pelo menos de forma direta. Uma dessas raridades é Dark Night, a terceira longa-metragem de Tim Sutton, que, tanto pela sua história como pela sua abordagem minimalista, tem sido muito comparado a Elephant de Gus van Sant.

Tal como esse filme que, em 2003, arrecadou a tão desejada Palma de Ouro em Cannes, a nova obra de Sutton foca-se principalmente no prelúdio de um massacre claramente inspirado numa tragédia real. No filme de van Sant foi Columbine e no de Sutton temos o tiroteio que ocorreu há quatro anos num cinema em Aurora, durante uma sessão de The Dark Knight Rises. Apesar do título e de outros irritantes piscares do olho a uma audiência informada, Dark Night não especifica que está a retratar o massacre de Aurora, sendo que até chegamos a ver na televisão o julgamento do atirador responsável por esse horror da vida real. O que essa indefinição e uso de televisões, rádio e conversas sobre outros tiroteios, fazem, é tornar o filme num híbrido entre o prelúdio e o rescaldo de uma tragédia. As personagens que Sutton observa, num registo que lembra um puzzle fragmentado cheio de pequenas narrativas individuais, parecem estar destinadas a fazer parte de um desses pesadelos de balas e morte, mas nunca vemos o desfecho da sua história e há uma grotesca natureza cíclica da violência implícita à sua existência.

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A recusa em retratar o espetáculo de sangue final não é a única grande diferença entre este filme e Elephant, sendo que, na mesma medida em que van Sant tentou focar a sua câmara lírica num retrato apolítico e humanista, Sutton está muito mais interessado em procurar as sementes de onde nasce este tipo de violência sem sentido. Por consequência, o filme está cheio de imagética que remete para a carnificina, como videogames de guerra, jogos de tiro no centro comercial, confissões de veteranos da guerra no Iraque e os já mencionados vislumbres de noticiários. A um nível mais formal, o realizador também constrói um ambiente que parece estar sempre pronto a rebentar em explosões de violência. Isso consegue-se tanto pelo seu uso de técnicas e apresentações reminiscentes do cinema documental, como através de uma sonoplastia monstruosa, onde longas passagens de silêncio ou burburinho miúdo são repentinamente violados por facadas sónicas de uma intensidade ensurdecedora. Neste panorama, os gritos inocentes de um grupo de adolescentes são tão desconcertantes como um tiro.

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Esse contraste entre a violência e o ambiente sereno de onde ela emerge é um balanço fulcral para o funcionamento deste filme. Sutton enfatiza a anestesiada existência das suas personagens, e a sua exploração do autoisolamento moderno é de particular destaque. Este é um filme cheio de ecrãs dentro de ecrãs, para onde as pessoas direcionam a sua atenção. Desde computadores, a telemóveis, a câmaras e, é claro, à tela de cinema que reúne as vítimas do futuro massacre como gado a ir para o matadouro. De certa forma, Sutton reduziu as suas personagens a zombies apáticos e isso tem um claro papel a cumprir na construção formal de Dark Night, mas temos de admitir que o resultado dramático é bastante alienante.

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Tão alienada destas vidas como nós está a câmara de Sutton e da diretora de fotografia Hélène Louvart, que se mantém sempre removida da realidade das personagens, mesmo quando as captura em grande plano. Para melhor se entender essa distanciação entre o olho que vê e os corpos observados, destacamos dois planos. O primeiro ocorre no início do filme e acaba por se tornar numa imagem recorrente entre transições, onde a câmara assume uma perspetiva aérea, quase divina, e observa os subúrbios, onde a maior parte das personagens vive, como um mapa de cores e formas geométricas desprovidas de especificidade humana. O segundo exemplo aparece-nos mais tarde no desenvolvimento de Dark Night, quando a câmara vai acompanhando uma jovem a percorrer um enorme parque de estacionamento, e continua no seu caminho mesmo quando a jovem sai do enquadramento.

O primor formal de Sutton e da sua abordagem minimalista é, como já demos a entender, perfeitamente inegável, mas a estrutura fragmentada e esse mesmo primor acabam por se revelar como uma grande fragilidade. A alienação acima mencionada ajuda a despir o filme de sensacionalismos lúridos, mas também acaba por retirar força às pessoas, algumas delas tão indefinidas que são mais figuras que personagens. Inadvertidamente, ao esvaziar um massacre da humanidade dolorosa que lhe é latente, Sutton acabou por trair a sua própria tese e tentativa de retratar uma comunidade de várias vidas entrelaçadas pela tragédia. É possível argumentar que, talvez, o cineasta nos esteja a pedir para valorizarmos a vida humana independentemente da nossa proximidade para com as possíveis vítimas, só que em termos dramáticos esta abordagem e a totalidade de Dark Night deixam muito a desejar.

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O MELHOR: A genial abertura do filme que começa com um singelo grande plano a um olho, que é rapidamente iluminado pelas luzes de um carro da polícia. Do inócuo, Sutton encontra a sugestão de terrível horror, sem nunca contextualizar esse dito horror em qualquer realidade humana. Depois, quando a câmara se afasta e a imagem corta, vemos uma nova perspetiva, mais contextualizada em que uma jovem está abraçada aos seus joelhos, traumatizada e observada por uma multidão, enquanto uma bandeira americana faz vigília a uma cena sangrenta.  

O PIOR: Os piscares do olho ao massacre de Aurora. Não nos referimos tanto ao uso dos noticiários, mas sim a uma máscara ade Batman que aparece, ao título do filme e do filme dentro do filme e mesmo ao cabelo cor-de-laranja de um skater.


 

Título Original: Dark Night
Realizador:  Tim Sutton
Elenco: Robert Jumper, Anna Rose, Rosie Rodriguez, Karina Macias, Aaron Purvis
Festival Scope | Drama | 2016 |85 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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