Dava Tudo Para Estar Cá, em análise

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  • Título Original: Wish I Was Here
  • Realizador: Zach Braff
  • Elenco: Zach Braff, Joey King, Pierce Gagnon, Kate Hudson, Jim Parsons, Mandy Patinkin, Josh Gad
  • Género: Drama, Comédia
  • NOS | EUA | 120 min

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A sala encontra-se aparentemente vazia. Perfeitamente natural, já que o sol se impõe lá fora e o calor é confrangedor. O tempo não atrai cinéfilos e convida a banhos. Para quem preferir outras aventuras, cá dentro, o banho chama-se nostalgia e o sol é Zach Braff.

Remanescências do inesgotável sorriso de Natalie Portman invadem o pensamento, mesmo antes do plano de abertura. É como se ela estivesse ali novamente, dez anos após “Garden State”, para nos apresentar uma nova música dos The Shins que fosse para sempre mudar as nossas vidas.

Seria um erro grosseiro deixar “Garden State” alheio a esta análise que hoje trazemos, e por variadíssimos motivos. Em primeira instância, porque “Wish I Was Here” (ou, no título nacional, “Dava Tudo Para Estar Cá”) é apenas o segundo filme realizado por Zach Braff. Em segundo lugar, é de todo importante recordar que a sua concretização só foi possível com o contributo de todos os fãs de “Garden State” e de Zach Braff através da plataforma de crowdfunding, o Kickstarter. Por último, as temáticas são de tal forma convergentes e sintomáticas que os tornam tão indissociáveis, como se “Wish I Was Here” fosse uma sequela não assumida desse fenómeno indie (ou hipster, ou lá o que lhe queiram chamar).

WISH I WAS HERE

Zach Braff está mais crescido e mais maduro, já não procura a verdadeira razão para a sua existência neste Universo nem seu o primeiro grande amor. Descobriu uma família, tem um casamento para consolidar e filhos para fazer crescer, mas ainda não concretizou os seus sonhos mais elementares. Dez anos depois, fica a sensação que o Andrew em auto-descoberta de “Garden State” deu lugar ao Aidan em profunda crise de identidade de “Wish I Was Here”.

Ao sonhar em ser um super-herói que salvaria todo o mundo, Aidan arrisca-se a ser o mais comum dos mortais: aquele que precisa de ser salvo. Ele é um ator sem perspetiva de carreira, marido e pai, que aos 35 anos de idade ainda procura o seu verdadeiro lugar na vida. Acaba por ser a metamorfose falhada de Andrew, na forma como observa a sua vida e gere os seus sonhos (que cada vez se tornam menos concretizáveis, face à doença terminal do seu pai – interpretado pelo sempre impecável Mandy Patinkin).

4085_D008_02952_R_CROP Credit Merie Weismiller Wallace, SMPSP  Focus Features

“Wish I Was Here”é uma fábrica de atos de coragem: a mulher (Kate Hudson) que sustenta a família sem pedir mais do que um simples retorno chamado amor, o pai (Zach Braff) que tenta reconciliar os seus sonhos de juventude com a realidade do presente, o avô (Mandy Patinkin) que luta contra a doença e que tenta simultaneamente reaproximar a família, a filha (Joey King) que se vê livre do próprio cabelo como sinal de protesto contra aqueles que a pretendem separar do seu ninho de amizades. Embora Zach Braff nem sempre seja claramente objetivo nas abordagens que encontra para cada cena, é possível descortinar, no interior daquela fonte de espiritualidade e melancolia embebida em humor certeiro, tantos ensinamentos práticos de como ser (mais) feliz.

Religião, fé, família, união, crescimento, amor… perda. Com “Wish I Was Here”, Zach Braff consegue debruçar-se sobre a vida, a morte e tudo o que acontece entre elas de um ponto de vista profundamente íntimo e delicado. Braff, alienado pelo seu próprio cosmos louco que lhe permite viajar entre a mais calorosa emoção e a mais delirante piada, contrói uma pequena obra dotada de simplicidade e harmonia – e para a qual os desempenhos de, sobretudo, Kate Hudson, Joey King e o pequeno diabrete Pierce Gagnon muito contribuem.

WISH I WAS HERE

Não estaríamos a falar de Zach Braff se, num universo recheado de tanta coisa bem feita, houvesse um ou outro apontamento menos conseguido. É um facto que há personagens excedentárias e cenas que deveriam ter ficado na sala de montagem, mas o seu maior defeito surge na sua urgência em comover o espectador e na ausência total de surpresas, naquele que é o rumo habitual dos feel-good movies.

Já não é possível falar de Zach Braff sem referir os artistas que contribuem para as suas bandas sonoras. Só um projeto muito especial (ou alguém tão persuasivo quanto Braff) é capaz de juntar no mesmo alinhamento Bon Iver e The Shins com composições inéditas em muitos anos. Há ainda espaço para Cat Power e Coldplay e, pese embora não haja uma música que vá mudar para sempre as nossas vidas, a harmonia entre o som e a imagem só nos leva a concluir que nenhuma delas está lá colocada por acaso. Aliás, nada em Braff é por acaso.

4085_D015_04699_R Credit Merie Weismiller Wallace, SMPSP  Focus Features

Aidan não era o herói pronto a salvar a humanidade… era apenas um homem que precisava de ser salvo. Somos todos como Aidan: comuns mortais a precisar de um pequeno empurrão nesse caminho tumultuoso com destino a um final feliz. Já Zach Braff, acabou por ser o herói. Não deste mundo, mas daquela tarde quente de Verão passada naquela sala vazia. Vazia de pessoas, inundada de emoções.

Zach, por favor, não demores outros dez anos.

DR

Daniel E.S.Rodrigues

Sonho como se estivesse num filme de Wes Anderson, mas na verdade vivo no universo neurótico de Woody Allen. Sou obcecado pela temporada de prémios, e gostaria de ter seguido a carreira de cartomante para poder acertar em todas as previsões dos Óscares, Globos de Ouro (da SIC), Razzies, Troféus TV7 Dias e Corpo do Ano Men's Health. Mas, nesse universo neurótico e imperfeito em que me insiro, acabei por me tornar engenheiro. Sigam-me no Instagram para mais bitaites sobre Cinema, Música, Fotografia e outras coisas desinteressantes.

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