A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas, em análise

Afinal o género western ainda não está completamente esgotado. ‘A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas’, vem provar (e bem) o contrário, pois mistura os filmes de cowboys e índios com terror canibal no oeste americano.

Além dos nomeados aos Óscares há mais cinema que vai estreando nas salas e que não deve de maneira nenhuma passar despercebido aos espectadores. É o caso desta preciosidade intitulada, A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas, de S. Craig Zahler, um filme que combina os canones do western com o terror.

A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas

A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas (Bone Tomahawk) começa com dois pistoleiros mal-encarados a degolarem as suas vítimas em plena paisagem seca e desértica do oeste americano. E desenvolve-se centrado numa missão de resgate, num grupo de cowboys que procuram uma bela enfermeira raptada por uma pequena tribo de índios-trogloditas — antropófagos — que vive numa caverna na montanha. Os índios mostram a sua fúria e desejo de vingança por terem violado o seu território, túmulos e rituais fúnebres. É esta mesma tribo de índios que vai acabar por rachar um homem ao meio e esquartejá-lo, depois de lhe ter cortado o escalpe.

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Estas duas excitantes cenas certamente deliciosas para os amantes de um filme de terror, revelam no mínimo algo de diferente neste western improvável, inesperado e surpreendente. No entanto, A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas é algo mais do que uma combinação ou um confronto dos dois géneros e daí a sua inegável qualidade artística e de entretenimento. Essa aparente mistela de géneros proposta por S. Craig Zahler — um primeiro filme de um realizador que assina igualmente o argumento — surge como uma lufada de ar fresco, pois é uma obra que vai além das fronteiras e das tradicionais  características tanto do western, como dos filmes de terror série B.

A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas

Estamos perante uma história protagonizada por personagens emblemáticos e arquétipos dos filmes de cowboys: um honrado xerife (Kurt Russell), — mas curiosamente muito parecido com o seu ranger de Os Oito Odiados —; o vaqueiro apaixonado pela sua bela musa (Patrick Wilson) e pelas suas vacas; o elegante e frio jogador de cartas de salão (Matthew Fox, da série Perdidos); e o velho bêbado, interpretado pelo sempre grande Richard Jenkins, que é excelente mesmo quando o seu papel é secundário. À partida, A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas pode ser só um interessantíssimo western desenhado no laboratório dos clássicos, com referências diretas— até pelo curioso e longo título em português — a obras-primas como A Desaparecida, de John Ford ou Rio Bravo, de Howard Hawks.

A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas

No entanto, A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas — muito feliz igualmente no título original de Bone Tomahawk, que logo dá uma certa ideia de misturar índios, escalpes, ossadas e deserto — é um filme de aventuras e suspense que coloca os personagens a desafiar com engenho e heroísmo as circunstâncias em que estão envolvidos e a fazerem tudo para saírem vivos da alhada em que se meteram. No fundo, trata-se de uma perseguição no deserto — primeiro a cavalo e depois a pé — à procura desses índios-trogloditas que entraram na sua cidade e raptaram alguns dos seus amigos e familiares.

Depois há o tal terror com as referências directas aos clássicos como Holocausto Canibal, de Ruggero Deodato (1981) ou Terror nas Montanhas, de Alexandre Aja (2006). E além do terror e do western, há um certo sentido de jogo que remete — e não é por acaso — para o cinema dos Irmãos Coen ou de Quentin Tarantino.

A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas

Consulta : Guia das Estreias de Cinema | janeiro 2017

Além das excelentes interpretações do elenco em geral, — que inclui ainda Lili Simmons, David Arquett e Evan Jonigkeit, nos principais protagonistas desta louca história — em A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas destacam-se ainda um engenhoso argumento com diálogos inesperados e desconcertantes; e uma brilhante fotografia de Benji Bakshi, que é um elemento importantíssimo na condução da narrativa e na criação dos momentos de tensão. O diretor de fotografia explora muito bem as sombras dos interiores (da caverna), e a luminosidade da paisagem desértica ao mesmo tempo que intercala os planos fixos com os movimentos de câmera à mão, para melhor acompanhar o percurso das personagens, sobretudo quando se aproxima o confronto entre os dois grupos.

A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas é definitivamente uma divertida paródia imbuída de uma falsa e estilizada violência, de uma ironia muito própria e de um desaforo criativo, que merecem os maiores aplausos. É muito bom!

O MELHOR: O argumento, a ironia, os actores, tudo numa perfeita sintonia;

O PIOR: Tudo bem quando tudo acaba bem, mesmo depois dos esquartejamentos e as tripas de fora.

 


Título Original: Bone Tomahwak
Realizador:   S. Craig Zahler
Elenco: Kurt Russel, Patrick Wilson, Matthew Fox, Richard Jenkins 
Alambique | Western | 2015 | 132 min

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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