Deus Existe e Vive no Cinema

 

Com a iminente estreia de Deus Existe e Vive em Bruxelas, é bom relembrar algumas das mais originais, irreverentes e icónicas representações divinas que já agraciaram os cinemas.

Recentemente saímos da Awards Season, meses em que os cinéfilos do mundo se juntam em adoração do falso ídolo que é o Óscar da Academia e todo o seu pressuposto prestígio. Depois desta torrente de galardões e honras douradas se ter extinguido, parece que o cinema internacional se decidiu voltar para temas mais focados em divindades creditadas pelas igrejas do mundo e não pelo glamour de Hollywood. Os irmãos Coen, por exemplo, acabaram de estrear mundialmente Salve, César!, um filme que, por detrás da sua pátina de sátira de Hollywood, é essencialmente um acídico e sincero estudo sobre fé cristã que termina com a luz divina a agraciar um estúdio fictício.

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No entanto, outro filme está prestes a ser exibido nas salas nacionais em que Deus, longe de ser uma presença abstrata ou um mero raio de luz divina, é apresentado como um cretino e cruel homem que vive num apartamento onde maltrata a sua mulher e filha e controla a vida humana como meio de afastar as névoas sufocantes do aborrecimento, escrevendo as irritantes Leis do “Massacre Universal”. Esta visão maldosa de Deus no filme Deus Existe e Vive em Bruxelas está longe de ser a primeira versão irreverente desta entidade, sendo que o retrato de um Deus cristão tem sido uma constante desde os primeiros anos do cinema.

Deus Existe e Vive em Bruxelas

Deus Existe e Vive em Bruxelas

deus existe e vive em bruxelas

No tempo do cinema mudo, a presença divina era usualmente manifesta em intertítulos que indicavam a sua voz e palavra. Com o advento do cinema sonoro essa tradição de relegar Deus a uma imponente presença vocal apenas se enraizou mais. Essa ideia de uma voz dos céus é tão comum como a ideia de Deus como um homem velho com longas barbas brancas. Devido precisamente ao seu tradicionalismo, é sempre fascinante ver filmes que pegam nessa mesma convenção e a subvertem como Star Trek V, em que essa mesma imagem divina é tão convencional como os seus comportamentos são curiosamente antagónicos.

Star Trek V: A Última Fronteira deus
Star Trek V: A Última Fronteira

 

As representações de Deus no cinema são imensamente numerosas pelo que só aqui poderemos indicar alguns outros exemplos como os deuses do cinema de cineastas tão severos e interessantes como os mestres Ingmar Bergman e Carl Theodor Dreyer. Ambos os autores criaram filmografias caracterizadas por filmes com grande espiritualidade, sendo que a fé, ainda mais que a existência de Deus se tornou num dos temas principais de ambas as suas obras. Bergman, em particular, articulou uma versão muito mais cruel e monstruosa que a de Star Trek, concebendo uma visão do mundo em que ou Deus está morto ou é uma horrenda aranha cujos longos braços se estendem sobre a humanidade como engenhos de sofrimento e crueldade divina.

Monty Python e o Cálice Sagrado deus
Monty Python e o Cálice Sagrado

 

Seria erróneo pensar que filmes sobre Deus podem apenas ser apelativos ou de interesse a pessoas religiosas, sendo que a comédia, por exemplo, é um fascinante veículo cinematográfico para algumas das mais ousadas, satíricas e até blasfemas ideias da entidade divina. O Deus dos filmes dos Monty Python é um dos melhores exemplos de um Deus cómico, concretizado a partir de grosseira animação e a voz de Graham Chapman, cuja personalidade irritadiça é tão hilariante como ameaçadora. Também de impor respeito é a divindade de Os Ladrões do Tempo, em que Ralph Richardson é um Deus velho, formal, poderoso e magnificamente severo como seria de esperar de um respeitado ator de teatro inglês. Com uma imagem semelhante, mas muito mais descontraída, George Burns em Alguém Lá em Cima Gosta de Mim é outra versão de referência de Deus numa comédia cinematográfica.

Alanis Morissette Dogma deus
Dogma

 

Foi também numa comédia que apareceu uma das mais curiosamente ousadas representações de Deus. Em Dogma de Kevin Smith, grande parte do enredo desenvolve-se em volta da desesperada procura por essa divindade, na esperança de impedir o apocalipse. Quando finalmente a audiência vê a divindade, a sua imagem humana está longe de ser a de um velho homem com longas barbas, sendo que é a cantora Alanis Morrisette que encarna essa entidade toda poderosa. Com flores no cabelo e uma voz poderosa, a Deusa de Dogma é uma das menos tradicionais visões desta personagem a surgir no cinema americano. Também em Deus Existe e Vive em Bruxelas, existe uma versão feminina de Deus, uma dona-de-casa subjugada pelo seu divino marido mas que também é portadora de magníficos poderes, incluindo o de tornar o céu numa espécie de alucinação de bordados e macramé.

deus Whoopi Goldberg kate hudson
Um Pedacinho de Paraíso

 

Outras versões da personagem já brincaram com questões de género, como Switch que criou uma ideia multifacetada de Deus ao representar a divindade a partir de duas vozes ouvidas em conjunto, uma masculina e outra feminina. Whoopi Goldberg também já chegou a interpretar uma ideia bastante cómica de Deus em dois filmes, um deles uma das aventuras cinematográficas dos Marretas e o outro uma comédia romântica com Kate Hudson, em que os cineastas parecem ter confundido a personagem com um génio da garrafa. Goldberg, para além de ser mulher tinha ainda o facto de ser preta, como mostra da ousadia do seu casting, afastando-se imenso desse homem de longas barbas brancas. Já em 1936, no filme The Green Pastures, Deus tinha sido interpretado por um ator afro-americano e é de salientar que talvez a mais famosa versão desta personagem no cinema é a humorística e amigável versão de Morgan Freeman em Bruce, o Todo-Poderoso.

Morgan Freeman deus
Bruce, o todo-poderoso

 

Bem diferente da afável presença de Freeman, está o protagonista de Deus Existe e Vive em Bruxelas, cuja cretinice e mesquinha maldade é apenas relativamente comparável com a versão anã e enfurecida que se pode ver em Citizen Toxie. Mesmo assim, há que dizer que há algo deliciosamente menor e agressivo na acidez do filme belga, que apesar de desperdiçar imensas oportunidades de mover o seu retrato teológico para dimensões mais intrigantes e complexas, tem bastante valor pela sua impetuosa e hilariante versão de Deus e sua divina família. O filme pode ser limitado, mas é precioso na sua criação de imagens de divertida subversão e indisciplinada provocação.

Deus Existe e Vive em Bruxelas
Deus Existe e Vive em Bruxelas

 

Se encararmos a questão desta representação de Deus sob a sombra da Santíssima Trindade, poderíamos ainda referir Jesus Cristo e suas várias representações ao longo da história do cinema. Em Deus Existe e Vive em Bruxelas, Cristo ou JC é maioritariamente visto na improvável aparência de uma miniatura que ganhou vida, por exemplo. Não percas este filme nos cinemas!

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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