Divertida-Mente, em análise

 

DIVERTIDA

 FICHA TÉCNICA

  • Título Original: Inside Out
  • Realizador: Peter Docter e Ronaldo Del Carmen
  • Vozes originais: Amy Poehler, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kaling
  • Vozes dobradas: João Baião, Diogo Infante, Custódia Galego, Nuno Pardal, Bárbara Lurenço, Carla Garcia, Nuno Markl
  • Género: Animação, Comédia, Drama
  • NOS | 2015 | 94 min

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Com uma entrada na segunda década do séc. XXI que nos deixou de pé atrás, o estúdio de animação que ganhou o nosso coração e não mais o largou em 1995 quando criou o ícone de “Toy Story” está finalmente de volta à melhor forma com a criatividade e ternura de “Divertida-Mente”.

Decorria o ano de 2013 quando o presidente da Pixar tomou uma posição crucial para o futuro do estúdio – financeiro, criativo e sobretudo, no nosso coração. Depois de quatro filmes dos quais três eram sequelas/prequelas, o estúdio anunciou a intenção de retornar às raízes da originalidade, sublinhando a importância de lançar, pelo menos, um original por ano.

Foi uma jogada de mestre rara, só possível com uma origem onde a nobreza da satisfação por um trabalho bem feito – e feito com amor e inventividade – é a peça mais importante.

Dentro desse prisma, e depois de um ano de paragem sem o lançamento de um único filme, a Disney Pixar chega a 2015 com duas poderosas cartadas na manga. “The Good Dinosaur”, que nos fará delícias mais para o final do ano, e “Divertida-Mente”, o corajoso e criativo filme que tem lugar dentro da nossa cabeça e onde as protagonistas são as nossas emoções.

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O resultado de uma decisão como aquela que a Pixar levou a cabo é apenas um, para já: o regresso definitivo de uma idade de Ouro que a nova década ainda não tinha visto (desde “Toy Story 3”).

Com “Divertida-Mente” a Pixar – a nossa Pixar – está de regresso.

Depois de bonecos, monstros, carros e animais terem demonstrado a capacidade de sentir, é a vez das próprias emoções mostrarem que também têm sentimentos. Apresentamo-vos a Riley, uma menina de 11 anos que terá que dizer adeus a uma vida feliz no estado americano do Minnesota e começar uma nova vida, bastante do seu desagrado, em São Francisco. Numa viagem ao interior do seu cérebro, percebe-se como se formam as memórias e como da ação conjunta de cinco emoções – alegria, nojo, raiva, tristeza e medo – se definem experiências fundamentais, como fazer novos amigos.

Vê aqui o que as Emoções de “Divertida-Mente” pensam da Disney.Pixar

Não obstante o facto de ser praticamente uma verdade objetiva que já tenham existido personagens mais ricos ou uma coerência narrativa mais sólida, “Divertida-Mente” segue sem igual ou paralelo no âmbito da ambição do conceito que apresenta, com uma metáfora adorável mas afetante que pretende “trocar por miúdos” as nossas emoções.

Pete Docter é o maestro da ousadia (juntamente com Ronaldo Del Carmen), e é curioso explorar como tentou extrair o melhor das suas duas experiências anteriores no estúdio para criar um híbrido que vale apenas por si. É verdade que “Divertida-mente” não é tão simultaneamente coeso e inventivo como “Monstros e Cia”, nem tão emocionalmente carregado (sem ser manipulador) como “Up – Altamente”, mas a metamorfização de experiências de Docter foi muito mais do que uma cautela vencedora.

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A mente é representada como uma pequena Disneyland onde vários “bairros” diferentes representam o inconsciente, a imaginação, a memória e muito mais – no que à construção estética e estilística diz respeito, o novo filme da Pixar é absolutamente de cortar a respiração. Animação é brilhante, colorida e surpreendentemente inspirada para um estúdio que tanto faz.

Mas não é apenas do ponto de vista técnico de “Divertida-Mente” é um redondo triunfo do ponto de vista temático e de abordagem. Este é admitidamente o filme mais “negro” do estúdio – no fundo, e apesar de já termos sido suficientemente traumatizados com a emocional sequência inicial de “Up” ou a confrontação com a morte certa em “Toy Story 3”, “Divertida-Mente” é essencialmente um ensaio sobre a depressão e a necessidade crucial da tristeza no enquadramento e desenvolvimento da psique humana. Isolar e alienar a possibilidade de tristeza ocasional, avisa-nos o filme, só poderá conduzir a um estado ainda mais profundo de infelicidade. E embutir uma mensagem como estas num filme primariamente destinado a crianças denota uma coragem e respeito pela inteligência do público tremendas.

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Docter e Del Carmen criam um universo único no seu elemento fantástico, mas, ao mesmo tempo, incrivelmente convincente que reflete de forma sensível e delicada as complexidades e fragilidades da mente humana.

Divertido, emocionante e emocional, “Divertida-Mente” é um retumbante triunfo de Docter (uma das mentes mais brilhantes do cinema de animação atual) e um ansiado regresso a casa da Pixar.

Bem-vinda de volta.

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Catarina Oliveira

Licenciada em Ciências da Comunicação e com formação complementar em Design Gráfico, além de editora e diretora criativa da MHD é também uma das sócias fundadoras da mais recente face da empresa. Colaboradora de Cinema na Vogue Portugal. Gestora de conteúdo na Lava Surf Culture e NOS Empresas - Criar uma Empresa. Autora do blog de Cinema Close-Up.

One thought on “Divertida-Mente, em análise

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