Howard Ashman | O herói do Renascimento Disney

A nova versão de A Bela e o Monstro está quase a chegar aos cinemas mundiais, mas não convém esquecer a magia da obra-prima de animação original de 1991. Considerado a joia da coroa da Disney nos seus anos de renascimento artístico, A Bela e o Monstro foi marcado pelo trabalho do genial Howard Ashman, um dos grandes heróis esquecidos da Disney.

Para quem se interesse pela história do cinema de animação em geral ou da Walt Disney Company em particular, o termo “Disney Renaissance” já será familiar. Essa expressão é normalmente usada para descrever os anos que englobaram o final da década de 80 e se estenderam até 1999, uma época de revitalização criativa e comercial que foi, em parte, propulsionada pelo desespero de um estúdio de animação à beira da sua possível morte. Para contextualizar tais afirmações, há que recuar até ao princípio dos anos 80, quando a Disney, longe de ser a instituição quase mítica que é agora, se encontrava perdida num mercado que olhava para o seu produto como entretenimento menor e sem grande importância, exclusivamente para crianças.

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Tal atitude pública apenas era reforçada pela crise criativa que se abatia sobre os estúdios que, após a morte de Walt Disney nos anos 60, estavam a ser geridos por familiares do antigo fundador da companhia que, infelizmente, pouco ou nada sabiam de animação. Desde filmes cheios de trabalho reciclado de outras obras (Robin dos Bosques) a desastres críticos (Papuça e Dentuça), o clima de mediocridade e descontentamento era tão intenso que levou muitos dos melhores animadores a se demitirem, entre eles Don Bluth, que veio a fundar o seu próprio estúdio, e o jovem Tim Burton. Então veio Taran e o Caldeirão Mágico, uma produção dispendiosa que foi interrompida a meio por um insano jogo de poder que levou a que Ron Miller, o genro de Walt Disney, fosse finalmente deposto da liderança da companhia e à ascensão de Michael Eisner e Frank Wells, dois executivos que tinham revitalizado a popularidade da Paramount e da Warner Brothers respetivamente.

 

Howard Ashman e Alan menken
Howard Ashman e Alan Menken

 

Em cargo de chefiar a componente de animação da Disney, estes homens puseram Jeffrey Katzenberg, um executivo sem experiência neste particular tipo de cinema. Ele fez os possíveis para acelerar a finalização de Taran, o que apenas resultou numa produção repleta de estúpidas condensações narrativas e catastróficas incoerências tonais. As perdas financeiras foram tão grandes que se começou a falar de uma possível dissolução dos estúdios de animação, mas, apesar da sua inaptidão artística e asquerosa atitude (ele viria a fundar a animação da DreamWorks como forma de se vingar da Disney após a sua saída da companhia), Katzenberg estava empenhado em dar nova vida à Disney Animation e edificou um plano que envolveria a produção anual de obras originais.

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Depois de terminar os seus estúdios universitários em 1974, Howard Ashman mudou-se para Nova Iorque, onde começou logo a trabalhar na criação de novos espetáculos musicais. Talentoso em vários ramos da arte teatral, como escrita, atuação, produção, encenação e composição musical, Ashman viria a provar-se como uma das novas grandes vozes da Broadway no início dos anos 80, após ter provado o seu virtuosismo com a fundação do WPA Theatre e consequente produção de God Bless You Mr. Rosewater, um musical que marcou a primeira colaboração de Ashman com o compositor Alan Menken. Os dois voltariam a trabalhar juntos em 1982, quando Ashman escreveu, produziu e encenou A Lojinha dos Horrores. O sucesso desta comédia negra musical sobre uma planta carnívora alienígena foi tão popular que levou os seus criadores ao mundo do cinema.

 

 

A versão cinematográfica de A Lojinha dos Horrores estreou em 1986 e foi um sucesso crítico e popular, resultando mesmo na primeira indicação para os Óscares de Howard Ashman e Alan Menken, pela sua nova canção “Mean Green Mother from Outer Space”. Outro resultado deste sucesso foi o interesse da Disney em trabalhar com os dois criativos, que deu azo à escrita de uma canção original para Oliver e Companhia em 1988. Todos os envolvidos pareceram apreciar a colaboração criativa e Ashman e Menken acabaram por se envolver ainda mais com os estúdios Disney.

 

 

Foi Howard Ashman, por exemplo, que teve a ideia de incluir um caranguejo cantor de calipso na história de A Pequena Sereia e foi também ele que escreveu todas as canções do filme cuja banda-sonora instrumental foi composta por Menken. Um astronómico sucesso de bilheteiras, três nomeações aos Óscares e duas estatuetas depois, Ashman e Menken tornaram-se em duas das maiores estrelas dentro dos estúdios Disney e não demoraram muito a usar a sua influência para propor um novo projeto, uma versão musical do conto de Aladdin para o qual os dois tinham já composto uma história base e escrito 16 canções originais. A proposta impressionou a chefia da Disney mas, face ao sucesso de A Pequena Sereia, Katzenberg pediu que Ashman ajudasse outro projeto em desenvolvimento antes de se aventurar na fantasia árabe de Aladdin.

 

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Esse projeto foi A Bela e o Monstro e Howard Ashman ficou tão envolvido na sua concretização que se tornou diretor criativo e produtor do filme, para além do escritor de todas as suas canções. Entre as suas ideias, veio o conceito de pegar nos servos invisíveis do conto francês original e os tornar em mobília viva, e foi também Ashman que contextualizou a narrativa, não como a história de uma jovem a apaixonar-se pelo seu carcereiro sobrenatural, mas como a redenção de um monstro amaldiçoado que, como máximo ato de amor, deixa que Bela o abandone para ir salvar o pai. Além de tudo isso, Ashman escolheu todo o elenco vocal e foi ele mesmo a dirigir as sessões de gravação, mesmo quando já estava acamado no hospital e tinha de dirigir os atores por telefone. Como muitos homens homossexuais a viver nos EUA durante os anos 80, Howard Ashman foi afetado pelo vírus da SIDA, algo que escondeu de quase todos, tendo decidido trabalhar até aos seus últimos dias.

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Foi isso que, efetivamente, aconteceu e Ashman passou os seus últimos anos num frenesim de trabalho que envolveu, para além da criação de A Bela e o Monstro, o desenvolvimento de Aladdin, que acabou por ainda incluir muito texto de Ashman na sua versão final. O seu estado de saúde estava tão deteriorado que, em março de 1991, quando uma versão não acabada de A Bela e o Monstro foi mostrada aos críticos de cinema de Nova Iorque, Ashman não pode assistir ao fruto do seu trabalho. Mesmo assim, quando os seus colegas o vieram visitar, no mesmo dia, para lhe relatarem a inesperada reação apaixonada que o filme recebeu, Ashman não se mostrou surpreendido pois sempre tinha estado ciente da obra-prima que tinha em mãos. Quatro dias depois, Howard Ashman morreu e nunca chegou a experienciar a estreia do filme, sua louca popularidade e o modo como se tornou no primeiro filme de animação de sempre a ser indicado para o Óscar de Melhor Filme. Mesmo assim, quer seja pelas suas letras de canções cheias de inteligentes trocadilhos e hábeis jogos rítmicos ou pela sua sagacidade narrativa, Howard Ashman nunca foi esquecido pelas pessoas que, ao seu lado, deram nova vida à animação da Disney e a tornaram novamente na fábrica de clássicos e sonhos que conhecemos hoje em dia. O próprio Jeffrey Katzenberg chegou a dizer que, no Renascimento Disney e subsequentes anos, havia sempre dois anjos a abençoarem os estúdios Disney: Walt Disney e Howard Ashman.

 

“Para o nosso amigo Howard, que deu voz a uma sereia e a alma a um monstro.”

-dedicatória final de A Bela e o Monstro (1991)

 


 

Não percas a estreia da nova versão de A Bela e o Monstro nos cinemas, dia 16 deste mês. Para o filme foram escritas novas canções e adaptadas as letras originais de Ashman mas pode ser que o génio deste anjo protetor da Disney ainda marque a sua presença nesta nova aventura cinematográfica. Vai descobrir!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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