DocLisboa ‘16: Cinema Futures, em análise

Numa altura em que a projecção em película praticamente não existe nas salas, ‘Cinema Futures’, o filme-ensaio do realizador austríaco Michael Palm lança novamente o debate sobre o analógico e os avanços da revolução digital.

Cinema Futures

Estreado em Venezia Classici 2016 e premiado nesta secção, Cinema Futures como o nome indica é um filme dedicado ao futuro do cinema. No entanto, não directamente em relação aos modos de ver ou olhar o cinema, mas antes aos modos de preservar as memórias do cinema, num contexto acelerado da revolução digital. Foi assim que para comemorar o seu 50º aniversário e discutir o que está por vir nos filmes, que o Film Museum austríaco entregou em 2014, ao escritor e cineasta Michael Palm, — célebre igualmente pelo seu excelente filme-ensaio Low Definition Control (2011) — a tarefa de realizar este Cinema Futures, um documentário filmado no mundo inteiro, de forma a tentarmos compreender sobre vários pontos de vista o futuro do cinema na era digital.

Cinema Futures

Em Cinema Futures, o realizador Michael Palm coloca em primeiro lugar algumas perguntas cruciais sobre o futuro do cinema. A revolução digital chegou tarde ao cinema e foi vista principalmente como um avanço tecnológico. Hoje em dia e numa época onde as fitas de celulóide analógicas estão a desaparecer, e dada a diversidade de formatos de imagem digital móveis, há muito mais coisas em jogo. Estão os arquivos de filmes do mundo condenados a desaparecer? Poderão realmente os ficheiros substituir as fitas de celulóide? Para onde irão todas as imagens armazenadas em discos rígidos quando estes se tornarem obsoletos daqui a uns anos? A película de celulóide e o analógico irão mesmo desaparecer? Estamos perante uma massiva perda colectiva da memória audiovisual? O cinema tal como o conhecemos vai morrer de uma forma tão comovente ou estaremos apenas a assistir a uma mudança?

Vê trailer de Cinema Futures

Estas resposta são dadas por cineastas como Apichatpong Weerasethakul, Martin Scorsese, Christopher Nolan e por teóricos e filósofos como Nicole Brenez e Jacques Rancière, por arquivistas (Paul Klamer, da Biblioteca do Congresso do EUA), por restauradores (da Sony Pictures), historiadores do cinema (Tom Gunning e David Bordwell) e artistas (Tacita Dean), curadores de museus da imagem, que desta forma procuram orientar os espectadores numa viagem sobre as memórias do cinema, ao mesmo tempo sobre o futuro do cinema na era da imagens digitais em movimento.

Cinema Futures

Devemos aceitar que um filme é transitório, não pode durar para sempre, é como um sonho. Como a nossa vida não é eterna, é uma das frases-chave de Cinema Futures, esta do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul. Cinema Futures explora sobretudo a mutação dos formatos dos filmes rodados em película para o digital, e das consequências que esta mudança pode ter ao nível artístico, de produção, distribuição e conservação.

Podemos profetizar a morte de filmes rodados em película, mas na verdade, aos media digital e analógicos — ou mesmo as nossas memórias pessoais, fotografias e videos de família, DVD e CD com os filmes e músicas que gostamos mais —, coloca-se agora a questão do armazenamento, reprodução e migração dos meios de comunicação. Para Palm, os filmes digitais são como simulacros do presente como em Blade Runner, de Ridley Scott, (1982), onde os replicants estavam destinados a viver por apenas quatro anos, que é mais ou menos a duração média de uma forma digital até ser substituída por outro processo mais avançado.

Cinema Futures

Os conservadores e arquivistas de filmes estão cientes disto, porque os arquivos filmícos são como museus, ou seja arquivos de memória capazes de recolher a história do cinema e da memória colectiva. Ainda segundo Palm os arquivos não afectam apenas a percepção do passado, mas determinam tambémm o potencial e as possibilidades do futuro.

Por outras palavras, Cinema Futures lida com o futuro da história do cinema, porque a história recolhida nos arquivos permite que façamos novas descobertas ao mesmo tempo que proporcionam novas oportunidades aos filmes anteriores. E é este aspecto da defesa de um arquivo utópico, que permite descobrir e trazer à luz algo que nunca tinha sido visto antes.

Cinema Futures

Cinema Futures é assim um documentário sobre o presente e o futuro do cinema e do cinema na era digital. É narrado em episódios individuais, aforismos cinematográficas, colocando cenários futuros, transmitindo medos culturais e esboçando ao mesmo tempo utopias promissoras, para as imagens em movimento. O filme tenta acompanhar a transição de um tempo e de uma história de fitas de celulóide fotoquímicas e analógicas, com cerca de 120 anos de idade, para esta idade imaterial e radicalmente evanescente e virtual de fluxos de dados da imagem digital.

O foco principal é um amor ao cinema, embora um amor desprovido de nostalgia. O que está em jogo é acima de tudo a técnica cultural específica e a experiência do filme analógico, a preservação do património audiovisual nos arquivos de cinema e televisão, o armazenamento, restauração e conservação de imagens em movimento em fitas de cinema e em magnéticos, e as promessas de salvação dessas imagens, feita através da pseudo-eternidade dos bits e bytes. No início logo substitui ‘um filme de…’ por ‘uma file de…’.

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Cinema Futures é assim um filme que oscila entre as crenças tecnológicas do progresso e as visões apocalípticas do apagamento total de nossa memória audiovisual. Por um lado, há o conceito do digital como uma forma de superar o efémero    e por outras palavras, que pode assegurar o acesso democrático ao nosso património audiovisual. Por outro lado, há a visão do nosso presente como um futuro que remete para uma ‘idade escura’, na qual os filmes não serão mais preservados, porque se tornaram um objeto físico. E o cinema é uma infra-estrutura tecno-social, composta de dados obsoletos e digitais que se vão tornando ilegíveis.

O que será das imagens e das memórias do nosso tempo e de tempos passados, quando eles já não tiverem um análogo, que corresponde evidentemente a uma presença física? À luz das rápidas mutações e da maneira como os filmes são produzidos em geral ninguém pode prever com precisão o que o futuro nos reservará e o que poderá acontecer. Cineastas, arquivos de filmes e arquivos de televisão estão agora a enfrentar este debate urgente. As coleções de arquivos começaram só agora a ser digitalizadas e armazenadas em grandes servidores. Quanto tempo estes dados permanecerão legíveis e acessíveis nesta Arca de Noé digital? O que vamos ganhar e perder com isso? Estas questões vão continuar!

O MELHOR: o extraordinário significado desta verdadeira viagem ao mundo das imagens em movimente, procurando incessantemente responder a questões tão complexas;

O PIOR: a viagem às vezes é um pouco monótona, um bocadinho talking heads, e afasta-se definitivamente nos modos de ver para se centrar unicamente na questão do armazenamento.


Título Original: Cinema Futures
Realizador:  Michael Palm
| Documentário | 2016 | 126 min

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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