É difícil expressar o quão importante William Greaves foi sem cair na falsa impressão de exagero. Num contexto cinematográfico americano em que o cinema documental e o avant-garde ainda estavam na sua infância, e quase sempre feitos por gente branca, Greaves foi um pioneiro afro-americano que trouxe a sua perspetiva particular a esse tipo de projetos. Entre ativismo e esforço artístico, entre a convenção e as antípodas do experimental, ele assinou obras tão díspares quanto os dois capítulos de “Symbiopsychotaxiplasm”, separados por décadas, e uma série de projetos televisivos mais próximos da cinebiografia tradicional.
William Greaves documentou a vida da comunidade afro-americana de um jeito único e multifacetado, sua filmografia formada como rejeição àquelas ideias nocivas de um monólito cultural. Mas, como é evidente, o cineasta estava limitado pelo seu tempo nesta Terra e, apesar de ter vivido e filmado a luta pelos direitos civis nos anos 60, não pôde fazer o mesmo com outros movimentos importantes na História da minoria preta no século XX. Isso não colmatou o seu fascínio pelo passado recente. Tanto assim foi que, em 1972, num agosto quente bem à moda nova-iorquina, Greaves organizou uma festa exclusiva nos apartamentos de Duke Ellington.
A lista de convidados consistiu em grandes nomes do Renascimento do Harlem, um período de auge entre os anos 20 e 30 que viu esse bairro, em Nova Iorque, tornar-se um centro de inovação artística para criativos afro-americanos. Ou, pelo menos, nos nomes daqueles que ainda estavam vivos, nos esposos dos que já haviam morrido e uma coletânea de críticos e historiadores culturais para lembrar os ausentes e preencher lacunas. Pessoas como Josephine Baker, Langston Hughes e James Baldwin são memórias ou miragens. Mas a maioria da gente está presente, pronta para partilhar suas ideias sobre o passado, o presente e o futuro. E acreditem que têm muito a dizer.
Como será evidente, Greaves não reuniu essa gente toda para um mero cocktail e convívio ligeiro. Toda a festa foi organizada para ser filmada, com o próprio realizador a intervir, a dirigir a conversa, e o seu filho, David, entre os operadores de câmara. Dessa tarde estival resultaram horas e horas de matéria-prima, incluindo momentos em que Greaves isolou seus sujeitos em partes do casarão e conduziu entrevistas mais diretas. Dito isso, depois de acumular todo este material, o cineasta nada fez com ele. Ficou tudo em arquivo, com ocasionais tentativas de iniciar uma edição que se mantinha incompleta até a morte de Greaves em 2014.
Mas então, como é que “Once Upon a Time in Harlem” nos chega ao DocLisboa em 2026, depois de uma passagem pelos grandes festivais de cinema deste mundo – Sundance, Cannes, Toronto, Nova Iorque – e de uma estreia comercial nas salas americanas? Acontece que os descendentes de Greaves continuaram o seu trabalho, com David a assumir-se como corealizador e Liani, neta do cineasta defunto, a tomar as rédeas do projeto enquanto produtora. Com Lynn True e Anne de Mare na montagem e uma equipa milagreira de restauro fotográfico e sonoro, o filme foi finalmente concluído, mais de meio século após a rodagem.
Um filme que está há mais de cinquenta anos em pós-produção.

A chegada do filme ao público nova-iorquino quase coincidiu com as celebrações do centenário de William Greaves, dando ainda mais relevo ao documentário enquanto arquivo e testemunho dos génios do passado. Afinal, Greaves e seu papel na luta pelos direitos civis, ao lado de figuras tão cruciais como Flo Kennedy e Herbert Marcuse, estão tão ou mais distantes de nós do que o cineasta estava do movimento do Renascimento do Harlem. Efetivamente, um projeto concebido como recordação e homenagem aos titãs de uma época, torna-se num tributo duplicado. Não será Greaves uma figura tão digna de recordação quanto aquelas que ele convidou a participar neste serão filmado?
Dito isso, David Greaves não transforma o filme em elegia passiva ao ídolo paterno. De facto, deixa que a voz de William, seu humor e filosofia, definam a estrutura e nosso ponto de entrada no mundo retratado em “Once Upon a Time in Harlem.” Em jeito de brincadeira, a missiva enviada aos titãs do Renascimento de Harlem aparece no ecrã, como se estivesse a estender o convite ao espectador também. Além disso, antes que qualquer artista do passado distante nos apareça em cena, David inclui outras palavras do patriarca “Num esforço de cocriação, proponho-me a conceber uma série de grandes filmes sobre grandes pessoas, todos eles metáforas, criações do divino.”
Surgem estas afirmações em forma de nota, na caligrafia de William Greaves, quase como uma instrução ou talvez como o passar do testemunho de uma geração para a outra neste clã de cineastas. O quer que seja a intenção, o resultado está patente no filme que segue esses rabiscos, pondo-nos no meio destes titãs artísticos, na procura de os entender e ao seu coletivo tanto como um movimento como quanto pessoas e o que isso pode significar para o presente em que Greaves filmou a festa e da realidade dos nossos tão distantes dias. Tal como, através da nota, se promove o diálogo artístico, também o resto de “Once Upon a Time in Harlem” se rende à ideia.
De bebida em mão e uns quantos cigarros também, gente como Arna Bontemps e Regina Andrews pensava na Harlem dos anos 20 e 30 como um movimento desorganizado, mas ao qual era impossível resistir. O magnetismo da criação era imenso, a ideia de que se inovava no momento e a arte nascia tanto da mente do artista como da sua colisão com outros artistas em seu redor. Para Richard Bruce Nugent, persiste a ideia de que o Renascimento do Harlem é uma espécie de revisionismo histórico, uma forma de pôr ordem ao caos que fica para trás no espelho retrovisor. Para quem vivia aquilo, jamais imaginava que estava a fazer História.
Alguns pensadores, inclusive ativistas cuja convicção política se mantém consistente desde que o século XIX virou para o XX insistem na ideia do Renascimento do Harlem como isso mesmo, uma ideia, destinada a inspirar gerações futuras e perdurar além das vidas finitas dos artistas que lhe deram forma. Ida Mae Robertson, na sua posição de viúva de artista, diz algo semelhante e os historiadores presentes agarram-se a essas noções. Afinal, para os estudiosos do passado, a linha que separa o hoje do ontem pode ser muito ténue, e a continuidade entre tempos é-lhes mais evidente do que para muitos. Mas, pois claro, há vozes dissidentes.
A História não é uma morgue, um mausoléu ou um pensamento distante. A História vive em nós!

O ator Leigh Whipper, cuja grandeza ainda conseguimos ver em algumas obras da Velha Hollywood, tem uma perspetiva muito mais entristecida. Para ele, a juventude de 1972, mesmo os artistas pretos, parece-lhe desligada da sua herança cultural, idealizando-se em tal individualismo que se separa da História do Renascimento do Harlem. Para Whipper, todos naquela festa estão condenados ao esquecimento. Talvez por isso, as suas passagens sejam as mais emocionais da fita, como quando recita o monólogo que, em tempos, declamou no filme “Mission to Moscow” ou na recitação de um poema de amor e admiração escrito em sua honra por um amante que morreu há já muito tempo.
Pessimismos destes nascem do luto e da dor de quem se sente ignorado, como seria de esperar de um ator preto e queer rejeitado por Hollywood, num corpo envelhecido para além das normas do desejo e numa época em que a intersecção da sua identidade o tornava vítima de múltiplas ostracizações. Contudo, ao ouvir o génio da sua voz, o brilho nos olhos quando se deixa possuir pelas palavras dramáticas, é difícil não sentir que “Once Upon a Time in Harlem” lhe assegurou uma imortalidade que Whipper jamais teria imaginado possível. Por mais que o documentário conceda espaço a conclusões mais céticas, a sua construção pende para o otimismo e a esperança.
Persiste a ideia de que nós somos invariavelmente frutos da História dos que vieram antes de nós e que qualquer artista afro-americano existe, até os dias de hoje, como herdeiro dos direitos e glórias alcançados por seus antepassados. Negar a História é negarmo-nos a nós mesmos, independentemente da etnia, da raça, da herança cultural. Mas, quando falamos de minorias marginalizadas face ao mainstream, é importante sublinhar, talvez até interiorizar, estas ideias para não cairmos no fado do esquecimento. Porque esquecer corrói, apaga, destrói passado, presente e futuro.
Com todas estas ideias em jogo, “Once Upon a Time in Harlem” é tanto uma festa como uma afirmação de esperança e um filme ensaístico, em que o uso de arquivos para evocar os trabalhos de quem já não estava vivo em 1972 resulta numa tonalidade convidativa. A própria imagem reflete isso mesmo, com as cores calorosas, como se espiássemos a festa através de copos banhados em licores âmbar, espessos do mel e da doçura da nostalgia. As composições raramente isolam pessoas e a montagem muito menos, chegando a usar o split-screen para melhor estudar a dinâmica do grupo na sua plena pluralidade.
Mas, no fim, tudo regressa a William Greaves, que lê um poema de sua autoria, assim posicionado como uma das lendas que o documentário homenageia. Não é um gesto de vaidade ou indulgência filial, mas uma necessária lembrança de que Greaves foi um dos herdeiros do Renascimento do Harlem e que muitos dos jovens criativos a ver este filme poderão vir a tornar-se parte dessa linhagem. Um movimento esmorece, mas uma ideia é eterna, capaz de transcender a mortalidade dos nossos frágeis corpos. Mais do que uma elegia, “Once Upon a Time in Harlem” é um cocktail de esperança e memória, inebriante e inesquecível. Façamos então um brinde e bebamos esta libação cinematográfica. Saúde!
Once Upon a Time in Harlem
Conclusão:
- Assistir a “Once Upon a Time in Harlem” na secção Heart Beat do DocLisboa é sentirmo-nos convidados a uma festa extremamente exclusiva. Efetivamente, na sua documentação de uma festa com titãs do Renascimento do Harlem no fim das suas vidas, o filme solicita a conversa com os seus sujeitos e o diálogo com o espectador sobre o que ocorre no ecrã. A passividade da audiência deve ser obliterada em nome de uma rendição completa, de uma imersão nas reminiscências que tiveram lugar naquela tarde de agosto de 1972.
- Através de tais métodos, da montagem e da restauração dos arquivos, David Greaves completa a visão do pai, William Greaves, mais de meio século após a rodagem. Nesse gesto, acaba por propor uma tese tão sentimental quanto astuta. Que artistas, como o grande patriarca da família Greaves, existem numa continuidade cultural do Renascimento do Harlem. E, por essa mesma lógica, um movimento isolado na História dos anos 20 e 30 pode estender-se eternamente, sentindo-se a sua influência até os dias de hoje.
- Existem algumas capitulações à nostalgia por parte dos cineastas, mas “Once Upon a Time in Harlem” mantém um equilíbrio precioso entre didatismo e lamechice, entre um estudo académico e um poema humanista às gerações que ajudaram a forjar as liberdades do nosso presente. Trata-se de um dos filmes essenciais de 2026. E se isso já não bastasse, os Greaves vão disponibilizar toda a matéria-prima daquelas filmagens, dando acesso público ao arquivo do antigo patriarca como complemento ao documentário.


