Decorreu no último fim de semana no Cinema São Jorge a primeira edição da “Polska Mostra de Cinema Polaco”. Analisamos, agora, um dos filmes exibidos: “Man of Iron” (1981, Andrzej Wadja).
Durante esta Mostra, além de filmes contemporâneos, estiveram também em exibição dois clássicos em homenagem a Andrzej Wadja, pelo seu centenário, como este “Man of Iron”, vencedor da Palma de Ouro e o Prémio do Júri Ecuménico no Festival de Cinema de Cannes.
De referir que “Man of Iron” terá nova sessão no contexto desta Mostra numa extensão em Vila Nova de Gaia esta sexta-feira 10 de julho às 16h. Se não estiveres perto da cidade, podes sempre comprar o blu-ray do filme na Amazon (legendado em inglês).
Vale a pena ver Man of Iron?
“Man of Iron” – estreado comercialmente em Portugal em 1984 sob o título “O Homem de Ferro” – é a sequela da longa-metragem de 1977 “Man of Marble” (“O Homem de Mármore”, em Portugal). Neste caso, assistimos à história de Maciek Tomczyk (interpretado por Jerzy Radziwilowicz), filho de Mateusz Birkut, o protagonista do primeiro filme (interpretado pelo mesmo ator) que nos foi apresentado no desfecho do mesmo.
A longa-metragem de Andrzej Wadja segue a mesma estrutura do filme de 1977 com a história contada em dois tempos. Assim, assistimos ao ‘direto’ vivido por Winkel (Marian Opania) em 1980, enquanto lhes são contados os acontecimentos ao longo dos anos 1970 por diferentes pessoas que conheceram Maciek (e também Mateusz).
Esta sequela é, contudo, algo diferente da sua antecessora. Por um lado, o uso dos (falsos) arquivos é menos significativo. Por outro lado, a história de Maciek é bastante mais politicamente ativa do que a do seu pai, considerando, inclusive, a época mais tardia da narrativa.
Pessoalmente, achei “Man of Iron” inferior a “Man of Marble”. No entanto, é um filme que (ainda) vale a pena ver pela sua análise histórica e política novamente bastante lúcida e pormenorizada, dando um retrato relativamente fiel da época.
Um filme politicamente ativo

A principal diferença em “Man of Iron” face ao seu antecessor é, efetivamente, a visão política do protagonista. Se Mateusz Birkut foi uma personagem mais ingénua e tornou-se símbolo de propaganda do regime de forma inesperada, clamando por justiça sobre os reprimidos, Maciek Tomczyk é uma personagem bastante mais ‘violenta’. O contexto histórico também ajudará a justificar essa razão. Não é por acaso que uma das figurantes do filme se refere à maior alfabetização e educação universitária dos polacos. O regime já não conseguia enganar as pessoas tão facilmente…
Deste modo, Maciek envolve-se logo com os protestos estudantis de março de 1968, apesar da recusa do seu pai. Mais tarde, já adulto, trabalha nos estaleiros onde é o responsável pelo início de uma greve dos trabalhadores. É também nestes estaleiros que a protagonista de “O Homem de Mármore” Agnieszka (Krystyna Janda) o conheceu e, desta forma, surgem os primeiros cruzamentos diretos entre os dois filmes.
Em termos de intensidade dramática, “O Homem de Mármore” centra-se mais no humano. Já “O Homem de Ferro” traz-nos uma luta mais acérrima e politizada. O espírito dos filmes é semelhante. Contudo, sinto que o primeiro cativa muito mais o espectador que o segundo onde tudo é mais ‘dialético’. Inclusive, o risco de Agnieszka foi bem mais sentido do que o risco de Winkel.
História novamente em flashback, como em Man of Marble

Em “Man of Iron” há algumas inversões de papéis. Contudo, no que toca à construção da narrativa, ela é semelhante a “Man of Marble”.
Assim, quatro anos depois, a jovem realizadora Agnieszka é ‘substituída’ pelo jornalista de rádio Winkel. Enquanto no primeiro filme Agnieszka quer saber mais sobre Mateusz Birkut, no segundo filme Winkel é obrigado a investigar sobre Maciek Tomczyk. Além disso, se Agnieszka utilizava, por vezes, métodos pouco ortodoxos para saber mais sobre Birkut, neste caso, Winkel tem (apenas) conversas informais. No entanto, está sob vigilância constante e claramente teme pela sua vida.
Ao longo do filme, a estrutura de “Man of Iron” repete a estrutura de “Man of Marble”. Desse modo, Winkel vai conhecendo a história de Maciek em ‘flashback’ por pessoas que o conhecem. Ainda assim, desta vez, Winkel também acompanha Maciek à distância. Algo que Agnieska não pôde fazer já que Mateusz Birkut havia morrido. A morte de Birkut é aliás um assunto analisado com detalhe nesta sequela.
Algumas conclusões sobre Man of Iron

Em “Man of Iron” estamos, novamente, perante uma grande obra do cinema polaco. No entanto, não posso deixar de sentir este filme um pouco inferior face ao seu antecessor. Parece haver alguma falta de maior relação mais próxima com a realidade. Em certa medida, falta o ‘apelo documental’ que referi a propósito de “Man of Marble”… Curiosamente, enquanto no primeiro podemos ser enganados com a história, no segundo, é-nos logo dito textualmente que as personagens são ficção, embora os acontecimentos sejam inspirados na realidade. Além disso, senti-o como um filme bastante mais datado e pouco contemporâneo no tratamento estético, ainda que a narrativa seja posterior.
“Man of Iron” é muito mais um filme de suspense e tensão do que apenas um filme de análise histórica e política. Ainda assim, está de acordo com o sentimento de lenta transição que se vivia na Polónia.
O momento da morte de Mateusz Birkut é fundamental na narrativa do filme já que causa no novo protagonista Maciek Tomczyk um sentimento de revolta acrescido. O filme ganha alguma intensidade e interesse a partir do momento que Winkel – que, depois, se revela ser um colega de Agnieska quando ela e Maciek vão à produtora no final de “O Homem de Mármore” – visita Agnieska na prisão e a sua participação na narrativa torna-se ativa até culminar com o final esperançoso da longa-metragem.
Por fim, destacar novamente o bom trabalho dos atores de “O Homem de Ferro” que voltam a revelar-se completos, tal como em “O Homem de Mármore”. Neste “Man of Iron”, há ainda que louvar o importante trabalho com a figuração (sobretudo, nas cenas do estaleiro) e a música que harmoniza e completa bastante o filme.
Man of Iron
Conclusão
- “Man of Iron” é a sequela direta de “Man of Iron” que, agora, se centra em Maciek Tomczyk, o filho do protagonista do primeiro filme.
- Trata-se de uma longa-metragem que nos remete para a luta dos estudantes e trabalhadores contra a repressão e perseguição sentida.
- É um filme algo mais frágil do que o seu antecessor – talvez por ter uma estrutura semelhante, mas com um olhar mais impessoal – que, ainda assim, demonstra ser uma importante obra do cinema polaco.

