Continuamos a acompanhar a 24.ª edição do Doclisboa que decorre de 15 a 25 de outubro na capital portuguesa. A Magazine.HD traz-te, agora, a análise a “The Land That Wouldn’t Die” (2025, Andreas Goldstein), filme exibido na secção “Da Terra à Lua” esta sexta-feira 16 e sábado 17, ambas as sessões no Cinema São Jorge.
“The Land That Wouldn’t Die” chega até ao Doclisboa com a sua estreia internacional. Ou seja, a longa-metragem apenas foi exibida na Alemanha. A saber, este documentário reflete sobre a divisão da Alemanha, consequência do final da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria. Através de várias imagens de arquivo e da narração, acompanhamos as esperanças e deceções do povo alemão na segunda metade do século XX.
The Land That Wouldn’t Die – A História de duas Alemanhas divididas por um muro
“The Land That Wouldn’t Die” é um documentário feito para a televisão pública alemã ARD que teve a possibilidade de estrear em sala de cinema em Portugal, através do Doclisboa.
Este é um documentário de reflexão histórica sobre a vivência nas duas Alemanhas do pós-II Guerra Mundial. Sobretudo construído a partir de arquivos televisivos, “The Land That Wouldn’t Die” traz-nos uma vasta panóplia de imagens (bastante enérgicas e coloridas, diga-se de passagem) misturadas com uma narração pessoal do realizador. A saber, Andreas Goldstein nasceu na República Federal Alemã e reflete, por isso, sobre a sua vivência neste país bipartido.
Dar luz e significado a diferentes arquivos

“The Land That Wouldn’t Die” não é um típico filme de arquivos como normalmente se vê. Ou seja, a partir de fotografias ou de registos cinematográficos de época. Neste caso, o documentário é, quase na íntegra, construído a partir de imagens de televisão, mais concretamente a partir de noticiários e reportagens. Nesse ponto de vista, o filme acaba por nos mostrar uma grande pluralidade de opiniões sobre a vivência dos habitantes na República Federal Alemã e na República Democrática Alemã. Isto porque o documentário mostra-nos vários depoimentos de diferentes habitantes. Além disso, o facto mais curioso é que o realizador do filme não só nasceu na Alemanha de Leste como é filho de um funcionário da Alemanha de Este. Ou seja, Andreas Goldstein teve uma educação realmente bipartida e onde pôde vivenciar as duas realidades. E isso nota-se ao longo deste filme…
O documentário acontece de forma razoavelmente cronológica e demonstra como inicialmente a República Federal Alemã era bastante mais próspera do que a República Democrática Alemã. No entanto, passados uns anos, a tendência inverteu-se e deu lugar à ilusão…
A esperança e a desilusão
A partir dos diferentes arquivos, percebemos como a República Federal Alemã protegia os seus habitantes e a República Democrática Alemã os deixava completamente sós. A vida era, portanto, melhor na República Federal Alemã.
Sem nunca nos mostrar as imagens históricas da queda do muro de Berlim – e nem precisa -, “The Land That Wouldn’t Die” demonstra como a reunificação alemã estava à beira de acontecer. O povo da RFA protestava pelo abandono, enquanto na RDA tudo parecia prosperar. As aberturas momentâneas do muro demonstravam uma mudança por vir.
Contudo, a reunificação alemã trouxe dúvidas para a população. Como seriam as primeiras eleições livres? Confesso que a sequência dos debates eleitorais é, provavelmente, uma das melhores partes do filme. O silêncio e a indecisão impera na campanha eleitoral. Ninguém sabia o que fazer…
The Land That Wouldn’t Die – Um filme pessoal mas algo aquém na sua análise

“The Land That Wouldn’t Die” usa e abusa dos arquivos televisivos mas mostra-nos também algumas fotografias e alguns arquivos pessoais, bem como algumas filmagens contemporâneas que demonstram uma Alemanha calma mas que ainda sente os resquícios da sua divisão. Há, inclusive, um plano ‘brutal’ onde vemos marcada no chão a antiga fronteira do muro berlinense.
A narração em voz ‘off’ é, quase a tempo inteiro, meramente ilustrativa. Só já muito mais perto do desfecho é que se sente uma narração mais opinativa, na primeira pessoa. Algo que não deveria ser assim quanto a realidade analisada é tão querida ao realizador… Sente-se, por isso, a falta de alguma visão pessoal por parte de Andreas Goldstein, o que é pena. Ainda assim, este continua a ser um filme importante para tentar perceber o que significou a divisão alemã do pós-II Guerra Mundial.
Por fim, se não conseguiste acompanhar o documentário no Doclisboa, o mesmo está disponível gratuitamente no site da televisão pública alemã ARD (infelizmente, sem quaisquer legendas).
The Land That Wouldn’t Die
Conclusão
- “The Land That Wouldn’t Die” é um documentário construído maioritariamente a partir de registos televisivos de telejornais e reportagens alemãs durante o tempo em que o país esteve dividido por um muro.
- Um filme algo pessoal para o realizador. No entanto, sente-se alguma distância entre os sentimentos do realizador e as imagens que vemos (a pluralidade de opiniões nos arquivos não facilita). Além disso, a narração só se torna ativa e não passiva já numa fase muito avançada da longa-metragem.



