DocLisboa’16: Lo and Behold, Reveries of the Connected World, em análise

Depois de ‘Cinema Futures’, voltamos olhar as incertezas do futuro próximo em ‘Lo and Behold, Reveries of the Connected World’, do ‘mestre’ alemão Werner Herzog, um documentário sobre o nosso admirável mundo virtual. Um filme que vai estrear em breve nas salas de cinema.

O lendário realizador alemão Werner Herzog (Grizzly Man, A Gruta dos Sonhos Perdidos ou Rainha do Deserto), um homem que revolucionou o cinema, tanto no campo do documentário como da ficção regressou com o filme Lo and Behold: Reveries of the Connected World, uma extraordinária viagem documental que examina o passado, presente e o futuro e a constante evolução da Internet e do mundo virtual.

Lo and Behold, Reveries de Connected World

E é curioso como este Lo and Behold, Reveries of Connected World, dialoga com Cinema Futures, outro dos documentário desta programação do DocLisboa’16, que olha para o futuro das imagens em movimento.

Vê trailer Lo and Behold: Reveries of the Connected World 

A estrutura de Lo and Behold, Reveries of Connected World está dividida em dez capítulos onde o realizador procura definir a internet como uma força do bem ou do mal: mas sobretudo contar a história do mundo virtual desde as suas origens até aos seus limites exteriores através de testemunhos de pessoas que estão relacionadas com os seus diferentes aspectos, desde os pioneiros da internet até aos que se sentem afectados pelas radiações de wifi que andam no ar.

Tudo começou com a NetScout, empresa líder mundial em ciber-segurança e de serviços de proteção de dados em tempo real, a vestir a pele de produtor. E depois a apresentar a Herzog este ‘novo mundo’, levando-o a fazer uma série de entrevistas com pioneiros e profetas do ciberespaço como Elon Musk (co-fundador do PayPal e Tesla), Bob Kahn (o inventor da IP o protocolo de internet) ou mesmo o famoso pirata informático Kevin Mitnick.

Lo and Behold, Reveries de Connected World

Estas provocadoras conversas transformaram-se em filme e revelam-nos agora a forma como o mundo digital transformou a maneira como funciona todo o mundo real, desde a educação, às viagens espaciais, da assistência médica, até à forma como gerimos as nossas relações pessoais. E sobretudo a nossa total dependência em relação a esse mundo virtual.

O dia 29 de outubro de 1969 — e a maioria das pessoas não o sabe — é uma data-chave  na história contemporânea e da Humanidade. Foi nesse dia que pelas 10:30 da noite, dois estudantes da Universidade de Los Angeles, tentaram enviar através Arpanet — a precursora da Internet — uma primeira mensagem ao Centro de Investigações da pequena Universidade de Stanford, de Palo Alto, ambas na Califórnia.

Nesse primeiro ensaio de certa forma falhado, só as duas primeiras letras do termo login (lo), chegaram ao seu destino e daí o título do documentário. E assim nascia a World Wide Web (www), uma imensa rota de comunicação digital que conhecemos e que domina hoje praticamente as nossas vidas. O resto é história pequena.

Lo and Behold, Reveries de Connected World

As palavras o produtor executivo Jim McNiel, definem  de certa forma a complexidade e o desafio de que foi fazer Lo and Behold, Reveries of the Connected World, uma viagem que nem sequer Werner Herzog, com a sua enorme imaginação e a sua curiosa mente talvez esperasse: A menos que tenhamos vivido no espaço tecnológico, é que poderíamos apreciar na totalidade o que ali acontece. E Herzog por sua vez acrescentou: Trata-se de uma das maiores revoluções que está a viver o ser humano.

De facto não foi fácil para Herzog rescrever em imagens meio século de evolução da maior revolução tecnológica dos tempos modernos;  ou mesmo colocar-se no alto de um Monte Sinai em Silicon Valley como um profeta das ‘tecnofobias’ ou com um decálogo de advertências apocalípticas sobre o mundo virtual.

O seu percurso é efectivamente o de uma mente fascinada, temerosa e perplexa — um pouco como o espectador — de quem viu como num tempo relativamente curto, uma inovação tecnológica criou uma sociedade globalmente hiper-conectada, que ameaça transformar a essência da Humanidade. Para o cineasta, e alguns dos cientistas que entrevista, essa última possibilidade já não é em absoluto uma realidade remota, mas uma ficção científica, tornada realidade e que acontece nos nossos dias.

Lo and Behold, Reveries of the Connected World não tem a dimensão quase épica ou a grandiosidade experimental que estão de alguma forma associadas ao mais recente cinema de Werner Herzog (A Gruta dos Sonhos Perdidos ou Grizzly Man) ou em parte do seu percurso como cineasta. O tema não favorece muito esse discurso radical e único.

Lo and Behold, Reveries of the Connected World é um filme muito convencional como um discurso simples, com num ensaio moral ou filosófico, estruturado em 10 capítulos, narrados pelo próprio Herzog, com é habitual, sobre os efeitos da Internet na sociedade actual e os seus efeitos colaterais, alguns positivos, outros negativos. Inclinando-se visivelmente Herzog como autor para uma visão mais pessimista.

Lo and Behold, Reveries de Connected World

O documentário até nem começa muito bem. Os primeiros momentos, são de certo modo anedóticos e até superficiais sobre os primórdios da Internet, não são a parte mais interessante do filme. Aí predominam os testemunhos de alguns cientistas pioneiros, em tom de celebração nostálgica e sensacionalista. O formato escolhido à boa maneira do convencional ‘talking heads’ faz lembrar um documentário realizado para televisão, e um rotineiro trabalho de encomenda, que na realidade o é por causa da NetScout.

No entanto, o talento e a malícia de Herzog, faz com que rapidamente mude o rumo e se encaminhe mais para o que lhe interessa: mostrar a duplicidade perversa desta invenção libertadora, o seu lado mais negro, e percurso que leva de uma suposta libertação a uma dependência absoluta.

A navegação na Internet pode-se tornar num vício, e por isso como é habitual Herzog não hesita igualmente em nos apresentar a sua predileção por uma verdadeira e insólita ‘parada de mostros’ e freaks. Mostra-nos por exemplo o caso de Tom um jovem entrevistado, que passava 16 horas agarrado ao ecrã de videojogos. E que apresenta sinais claros de perturbação mental e incapacidade de comunicar com os outros seres humanos: um autista virtual; ou o de Chloe, que só dorme seis horas para dedicar o resto do seu dia ao ‘texting’, no envio de mensagens através de chats, desligando-se de outro qualquer contacto humano; ou o lamentável caso da familia Catsouras — uma sequência que curiosamente faz lembrar A Família Adams ou As Virgens Suícidas — cuja filha adolescente, Nikki, morreu num acidente de viação e cujo as imagens do corpo decapitado se transformaram num acontecimento viral, que circulou de uma forma sensacionalista pela rede.

Algo que leva a pobre mãe aterrorizada e revoltada a declarar que Internet é uma manifestação do Anti-Cristo. Mas há mais casos perturbadores, como as personagens que vivem virtualmente isolados em Green Bank, na Virginia, numa zona livre de captação de rede de telemóveis que os afecta, para não interferir com as ondas electromagnéticas de um gigantesco telescópio; ou de quem na região de Washington recupere penosamente das suas dependências cibernéticas e ludopatías sem saberem quando irão ultrapassar as suas neuroses e recuperar a saúde mental. Não surpreende por isso que um dos entrevistados declare que internet é o maior inimigo do pensamento crítico.

Lo and Behold, Reveries de Connected World

Para acentuar todo esse cepticismo, Lo and Behold, Reveries of the Connected World refere-se ainda e tenta deslindar a alguns equívocos dos avanços tecnológicos: até que ponto a Internet tem sido uma ferramenta útil, para uma investigação científica mais avançada, para fins terapéuticos? Até que ponto tem facilitado e agilizado a burocracia ou para libertar o indivíduo de outras tarefas pesadas, com a robotização? Pese embora esses equívocos, a ameaça persiste na educação formal que agora se vê empobrecida, eclipsada ou mesmo algo neutralizada, por uma torrente informativa da Wikipedia ou de outros sites semelhantes na Internet.

No entanto, Lo and Behold, Reveries of the Connected World e Werner Herzog passam um pouco lado de algo de muito importante no mundo de hoje: o crescente poder das redes sociais para activar os protestos sociais, denunciar a corrupção política ou a censura, mas também para expandir boatos e rumores e manipular a opinião pública; para exibir os excessos do fundamentalismo religioso ou promover a luta pelos direitos humanos.

Vê também Cinema Futures, em análise 

Lo and Behold, Reveries of the Connected World não é dos melhores documentários do ‘mestre’ Werner Herzog, mas é um dos mais oportunos e eficazes nesta altura de crise para compreender-mos o mundo em que vivemos e estarmos alerta para as dimensões (positivas e negativas) da Internet e dos avanços da tecnologia. Apesar da visão pessimista tem a novidade de o cineasta introduzir neste seu último filme, um certo sentido de humor. E ainda bem!

O MELHOR: A eficácia da mensagem, o sentido de oportunidade e o humor;

O PIOR: O tom algo convencional com muitos ‘talking heads’ e num formato muito televisivo.


Título Original: Lo and Behold, Reveries de Connected World
Realizador: Werner Herzo
Elenco: Elon Musk, Bob Khan, Kevin Mitnick
Alambique | Documentário | 2016 | 99 min

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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