Efrim Menuck | Um murmúrio a si mesmo

Interrogámos Efrim Manuel Menuck sobre o álbum Pissing Stars e descobrimos o homem por detrás da distorção: a vida é paradoxal e o amor um facto elementar complicado.

Um número de telefone com o indicativo de Montreal (Quebeque), Canadá. São seis da tarde, hora combinada. Olho para o ecrã do telemóvel, o gravador ao lado já ligado, e vejo o nome: Efrim Manuel Menuck. Vou mesmo falar com uma das almas, se não a alma, dos Godspeed You! Black Emperor, com o fundador da Constellation Records? Correrá bem a chamada? Do outro lado pode atender outra pessoa (aconteceu com Rob Rubsam que combinara uma entrevista com ele por telefone). O som do altifalante pode ser péssimo e não se perceber nada na gravação. E, por fim, ele. Conheço-lhe a humildade, das suas entrevistas com outras pessoas que li e a que assisti, mas comigo nunca falara. Comigo podia ser frio, distante, ainda por cima ao telefone, sem se verem caras.

Carrego no botão. Do outro lado, alguns toques e o atendedor de chamadas. Desligo e vou a correr reler o email. Não, o número está certo, a hora também. Tento de novo. Desta vez, do outro lado, a voz dele. Simpática, cordial, claro que se lembra da entrevista, a única coisa é que está na autoestrada, mas podemos conversar na mesma. Pergunto-lhe, no entanto, se não prefere que lhe volte a telefonar daí a uma hora. Agradece e, com vários até jás, os meus muito atrapalhados e os dele sempre amáveis, desligo. Já mais aliviada, por tão cordial, terra-a-terra que fora este desencontro, às sete volto à carga. Já estava em casa e, todo calma simpatia e acolhedora paciência, teve a bondade de me fazer crer que cada pergunta que lhe colocava era uma grande questão. Se sim ou não, vejam vocês. Quanto a mim, só vos posso garantir a grandeza das respostas.

Efrim Manuel Menuck
Efrim Manuel Menuck (© Louise Michel Jackson)

MHD – O som deste álbum parece mais ambiental do que os restantes, talvez porque usaste menos guitarra e experimentaste com sintetizadores modulares. Deste-te conta, ao recorrer a este novo instrumento, que se adequava mais ao que querias exprimir, em termos de conteúdo pessoal?

Menuck – De que maneira é que a forma se relaciona com o conteúdo, é essa a questão?

MHD – Sim, porque este disco é diferente em termos de sonoridade, parece-me.

Menuck – Por onde começar? Eu comecei a experimentar com sintetizadores modulares há uns anos atrás e há qualquer coisa nessa prática que permite quebrar com as constrições da estrutura normal de uma canção. De certa maneira, conseguem-se estabelecer ligações que se movem, deslocam e mudam. Por isso fiquei interessado na ideia de fazer coisas mais informes do que o que normalmente faço. E parecia um enquadramento melhor para falar do que queria falar neste disco. Ao mesmo tempo, há canções no disco que são, de facto, canções. Mas uma grande parte do álbum é informe.

MHD – Em todo o álbum há esta constante criação de tensão que nunca chega a explodir, apenas se desvanece. Também me parece que, no interior de todos os drones, distorção e melodias até ameaçadoras, há sempre um elemento que contrasta com isso. Por exemplo, em “Black Flag Ov Thee Holy Sonne”, há uma espécie de sussurro cantado ao longo de toda a canção, como o som de alguém a adormecer uma criança. É como se estivesses a tentar sossegar aquele caos e preocupação que estás, ao mesmo tempo, a criar com os restantes elementos da música. De onde vem, o que está a tentar expressar esta forma paradoxal de composição?

Menuck – Uhh, essa é realmente uma boa questão. Eu compus o disco em diversos estádios de isolamento, sozinho em casa ou no estúdio. A maior parte do disco foi escrita e gravada durante um inverno muito infeliz também, por isso penso que muitos dos sons, grande parte do processo foi criar sons que se adequavam a mim. Grande parte do disco soa a mim a murmurar comigo próprio. Resultou tudo um pouco de estar no meio do meu apartamento, com o cabelo por pentear e a comer qualquer coisa rápido, só a tentar fazer sentido de uma série de coisas. Foi uma decisão mais emocional ou intuitiva do que intelectual.

Efrim Manuel Menuck
Efrim Manuel Menuck (© Louise Michel Jackson)

MHD – A infância parece ser um motivo central neste disco. Também reparei que a tua biografia no site da Constellation Records termina com a frase “pai do Ezra”. Parece-te que seres agora pai determina o que és, mesmo como artista?

Menuck – Define uma grande parte do que sou, transforma decididamente toda a minha visão do mundo. Passo enormes bocados da minha vida só na companhia de crianças, porque tenho um filho pequeno. E há qualquer coisa em passar muito tempo em espaços como esse que te faz olhar para o mundo com mais ira ainda, sinto-me mais zangado do que quando era novo. Porque há estes pequenos refúgios de criaturas perfeitas, com boas intenções, bons corações e cabeças inteligentes, e montámos tudo para serem trazidas a um mundo que há muito foi destruído. Há qualquer coisa nisso, (qual será a palavra?) de viver nessa economia, de viver nesse paradoxo de passar tempo num lugar seguro com crianças, o que é bom e está bem, tendo ao mesmo a cabeça preocupada com o resto do mundo. Há qualquer coisa nisso que determina profundamente tudo o que faço.

MHD – O outro grande motivo é o amor, como tens já dito. A canção “Hart-Kashoggi”, que aparece precisamente no meio do álbum, é o único instrumental e só o título a relaciona verbalmente com o amor. Porque te chegas atrás e escondes tanto naquela canção que deveria precisamente ser o centro do álbum?

Menuck – Oh, essa é uma muito boa questão e a resposta é um pouco complicada. É porque esta coisa de cantar sobre romances falhados, como Mary Hart e Mohammed Khashoggi, é muito complicada, super-eterna e teve a ver com ouvir acerca do romance deles quando era muito novo, num período da minha vida em que estava a tomar muitas drogas e a viver uma alegre mentira. De algum modo essa anedota entrou na minha cabeça e tenho-a carregado comigo desde há décadas. Não estava à vontade com a ideia de fazer um álbum pessoal, em que a primeira pessoa do singular estivesse espalhada por todo o lado, que fosse um disco “eu-eu-eu”. Mas queria mesmo fazer um disco que fosse sobre o amor, a maneira como o amor muda, a maneira como o amor nos deixa, a maneira como o amor chegou, a maneira como o amor é um facto elementar complicado e precisava, por isso, intelectualmente, de uma espécie de filtro para cantar sobre essas ideias. Por isso pensei nessa coisa Hart-Khashoggi. O facto de a canção intitulada “Hart-Kashoggi” ser um instrumental foi intencional, porque, de certa maneira, não há história nenhuma para contar para além dos seus dois nomes juntos e a história triste por detrás disso.

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MHD – Gostava agora de falar de política, até porque esta se torna o grande enquadramento para a tua própria, pequena e existencial aventura humana. Acreditas de facto que a política é capaz de resolver o imenso problema que levantas na última canção, “Pissing Stars”, quando dizes “All of mystery, and all of divinity, and all of misery, and all of these sad, and all of malaise”?

Menuck – Essa é uma grande questão! Acho que é importante diferenciar entre uma inquietação existencial e uma inquietação material. Isso faz algum sentido. Há decididamente uma política que se dirige a uma injustiça material deste mundo e não, não acho que haja alguma política que leve a uma espécie de utopia, porque o mundo natural é um sítio duro. Posso dizer que as políticas de direita estão sempre a lembrar-nos de que o mundo é um sítio cruel, que as criaturas são, por natureza, competitivas, que é matar ou ser morto, que precisamos de sistemas para manter tudo em ordem e isso é uma mentira auto-justificativa. O facto é que vivemos num sistema económico que recompensa os membros da nossa espécie mais cruéis e mais psicoticamente competitivos. E essas são as pessoas que ascendem, essas são as pessoas que elaboram leis, essas são as pessoas que constroem estruturas financeiras que trazem ao de cima o pior em nós, destruindo-nos. É um assunto complicado, mas acredito que parte da porcaria em que vivemos vem de um sistema que recompensa o comportamento psicótico. Estamos habituados a isso, foi tornado normal. É uma longa resposta, suponho. Não acredito que haja política alguma que vá tirar toda a dor e sofrimento do mundo, mas acredito que há uma política que pode aliviar o caos material em que vivemos.

MHD – Numa entrevista disseste que é heróico, um milagre que, no fim de contas, a maior parte de nós consiga viver. De algum modo, pareceu-me que a amostra sonora do sopro da respiração, ritmicamente repetida ao longo desta canção, significava isso mesmo.

Menuck – Ah, isso é engraçado. Acho que não o tinha em mente, quando fiz o disco. Houve uma série de coisas abstractas que aconteceram fazendo uso de ideias materiais muito concretas que tinha e uma delas era construir um ritmo que fosse apenas uma rápida respiração. Mais uma vez, foi porque não estava realmente num bom lugar, emocionalmente e fisicamente. Enquanto falava nestas canções, estava a trabalhar imenso só em tomar consciência da minha própria respiração. Apenas uma data de estratégias focadas no manter-me estável, com os pés bem assentes no chão.

Efrim Manuel Menuck
Efrim Manuel Menuck (© Timothy Herzog)

MHD – O álbum está cheio de imagética bíblica. Que retiras da tua tradição religiosa?

Menuck – Sou judeu, mas não acredito num Deus-Todo-Poderoso, no Céu, na Bíblia e em nada disso. Fui, contudo, educado dessa maneira, por isso seguramente que essas histórias me colonizaram e há beleza nessas histórias, há beleza nessa imagética que é tão poderosa. Gosto da ideia de pegar nessas palavras e imagens de uma maneira não religiosa, de uma maneira moral, talvez? Tudo isso está em mim. Tem estado comigo já há tanto tempo que me é difícil reconhecer que está em mim. Mas tento ter cuidado, não quero estar a direccionar irresponsavelmente as pessoas para a Bíblia.

MHD – Pareces apreciar muito a ideia de comunidade, mesmo se muitas vezes passas por um solitário. Quão diferente é para ti trabalhar com outras pessoas, no contexto de uma banda, e trabalhar a solo?

Menuck – Essa é uma boa questão. Eu aprecio muito a música como uma actividade social. Sinto-me um sortudo por poder passar tanto do meu tempo estando com as pessoas que amo só à conversa, como também é belo ir para o mundo, tocar música e ter conversas com estranhos. Mas é verdade que passo uma enorme quantidade de tempo sozinho, suponho que seja tudo uma questão de equilíbrio. Sou seguramente uma pessoa pouco social. Mas, como toda a gente, também aprecio a companhia de outras pessoas.

MHD – De que maneira a música exprime e contribui para uma vida de liberdade?

Menuck – Penso que todas as acções contribuem para uma vida de liberdade. Sou músico de profissão e tenho vários ideais. Como cidadão do mundo, há maneiras como eu gostaria que o mundo mudasse. Por isso, tento concentrar as minhas energias, sempre que faço alguma coisa, no sentido de articular um bocadinho dessa visão e acho que todos nós, seres humanos, deveríamos estar a fazer isso. A mudança acontece por causa de um milhão de pequenas acções. É preciso muita gente a conversar entre si para que mude a maneira como falamos do mundo e uns dos outros e como olhamos para o mundo e uns para os outros. E essa é a coisa engraçada de lidar com construções e ideias. São precisas muitas conversas para mudar os filtros através dos quais vemos o mundo. E a música definitivamente tem um papel nisso.

Efrim Manuel Menuck
Efrim Manuel Menuck (© Louise Michel Jackson)

Só resta mesmo ir ouvir em canção e ao vivo o que aqui foi dito por palavras, ora aquém ora além mas nunca lá naquele lugar que é a obra de arte em si. Oportunidades não faltam, porque Efrim Manuel Menuck estreia-se a solo em Portugal, para apresentar o seu novo álbum, Pissing Stars, em dois concertos.

Começa por tocar dia 1 de Julho, no Porto, no Auditório Passos Manuel, às 22h00, acompanhado por Kevin Doria, dos Growing e Hiss Tracts. Os bilhetes têm o custo de 10€ e encontram-se à venda na Amplistore (online), bem como nas lojas Louie Louie, Bunker Store e Piranha. E, no dia a seguir, 2 de Julho, em Lisboa, na Galeria Zé dos Bois, às 22h00. Os bilhetes têm o preço de 10€ e encontram-se disponíveis na Flur Discos, Tabacaria Martins e ZDB (segunda a sábado, das 22h às 02h; reservas@zedosbois.org).

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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