Jeremy Irons

Entrevista a Jeremy Irons – Do Filme à Cidade

Numa tarde solarenga, a entrada da estação do Rossio parece igual a tantas outras. Pessoas apressadas para embarcar, pessoas fascinadas ao desembarcar, seja pelo simples facto de tomarem contacto pela primeira vez com a cidade das 7 colinas, ou então simplesmente consumidas pela indelével felicidade de voltarem ao sítio de onde sentem que nunca partiram. Qualquer uma delas poderia ser Raymund Gregorius (ou pelo menos com uma história similar?), personagem principal do recentemente estreado ‘Comboio Noturno para Lisboa” e interpretado por Jeremy Irons. Mas decerto que o ritmo frenético da estação nem lhes permite saber da presença de tão distinta personalidade da 7ª Arte, que embora a poucos metros acima deles, é como se fosse mais um ilustre desconhecido por quem não paramos uns segundos para indagar a que, ou a quem, se deve a sua presença.

Na Sala Real da estação, onde decorrem as entrevistas, existe um ambiente de ânsia, mas também de cansaço para quem não consegue deixar de se sentir fustigado pela vontade incessante de conversar com figuras como Bille August, Pascal Mercier, Martina Gedeck, Beatriz Batarda, Nicolau Breyner e, claro, Jeremy Irons.

O soar das seis da tarde leva à entrada da Magazine.HD e do Jornal i para a sala das entrevistas (onde mais tarde se realizaria a conferência de imprensa), um exclusivo aos quais se juntaram, breves momentos depois, o Hard Musica e o Arte-Factos. Ao sermos encaminhados para o nosso encontro com Jeremy Irons, o ator não consegue esconder a satisfação de nenhum dos quatro necessitar da luz artificial para efeitos de filmagem, já que câmaras neste último round, só mesmo as fotográficas, algo de muito inofensivo quando comparadas com as televisivas e as exigências técnicas e formais que estas últimas acarretam.

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Com essa satisfação, o homem que outrora habitou “A Casa dos Espíritos” e recentemente veio no “Comboio Noturno para Lisboa”, vindo de Berna, abre repentinamente as janelas e cortinas que dão para o bulício do Rossio e Restauradores. Para terminar um dia intenso de entrevistas na capital lisboeta, Irons parece querer ter uma conversa informal e descontraída connosco, daí que não se demore muito tempo a dispormos as cadeiras em frente à sua, enquanto enrola a sua cigarrilha, de costas para os últimos raios de sol do dia que lhe iluminam a silhueta, já por si clara e brilhante.

Qual mentor a conversar com os seus pupilos, eis que a conversa se inicia com o acender da sua cigarrilha. E é para ela que agora reencaminhamos o leitor, decerto exasperado com esta já longa introdução de alguém que, notoriamente, conversou com Jeremy Irons, não só na condição de entrevistador, mas acima de tudo, na irrefutável condição de fã.

O ator dá por aberta a sessão, sem cerimónias: “Bom, vamos lá. Não é preciso ser nada muito sério, vamos conversando.”

 

Perfeito. Alguma vez impediu que uma mulher se atirasse da ponte, como a sua personagem faz no filme?

Nunca, adorava poder dizer que sim. Mas já salvei a vida de uma pessoa.

Verdade?
Sim, uma amiga minha. Conhece a Lauren Hutton? Estávamos a andar os dois de mota e ela não tinha capacete nem roupa apropriada. Emprestei-lhe o meu capacete e um casaco. Uns quantos quilómetros depois de arrancar teve um acidente terrível. Despistou-se e aterrou com o queixo, que estava protegido porque estava a usar o meu capacete. Portanto, salvei-lhe a vida, apesar de ter partido praticamente todos os ossos do corpo [risos].

Aconteceu-lhe algo a si?
Nada, nem sequer vi o acidente. Estava a uma boa distância.

Não impediu um suicídio mas e encontrar um livro especial em algum lado, que provocasse uma mudança de vida, como no filme?
Uma vez encontrei um diário. Bem, não era bem um diário, era uma espécie de livro com endereços, no banco de trás de um táxi. Foi uma coisa muito interessante porque olhava para as moradas e conhecia muitas daquelas pessoas, muitas figuras públicas. Quem seria a pessoa que sabia todas estas coisas sobre estas pessoas? Como poderia descobrir a quem é que o livro pertencia?

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Talvez um jornalista?
Não faço ideia. Não sei bem o que aconteceu depois mas penso que o guardei ainda durante uns quatro anos [pensativo, “esforçando-se” para reavivar a memória]… Cheguei a pensar em ligar para quem constava da lista, criar uma outra lista com todas as pessoas que elas conheciam e aí, quem sabe, poderia cruzar referências e descobrir o dono.

Também lá estava o seu nome?
Não [ hesitante]… Espere, estava, sim, mas o número de telefone era antigo.

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Que pensa da sua personagem. Ela é um pouco aborrecida…
Muito aborrecida [risos].

Embarcaria numa aventura como a dele, de apanhar um comboio rumo a Lisboa?
Bem, eu embarco numa aventura sempre que vou trabalhar. É verdade. É como apanhar um comboio, conhecer coisas novas, sítios novos. Mas para o Gregorius foi uma coisa em grande. Foi também um daqueles momentos muito breves que acontecem tantas vezes na vida. Pensem na vida como uma estrada. Quando tomamos uma decisão ela parece pequena, mas na verdade ela pode ser imensa. Então tu pensas que foi um grande momento, mas que aconteceu num tempo reduzido. Imaginem que estão sentados num café a fumar um cigarro e a pessoa ao lado pergunta-vos se têm lume e vocês dizem que sim. Acendemos aquele cigarro e quarenta anos depois temos quatro filhos com essa pessoa [risos]. Começam a falar e entretanto apaixonas-te. Pensas que foi um pequeno momento no tempo mas não foi.

Enquanto livro, “Night Train to Lisbon” é bastante filosófico, tal qual é uma jornada psicológica e, em parte, um drama histórico. Pensa que o filme capta totalmente essa essência, ou foca-se mais num aspeto?
Não capta tudo, claro. É um filme sobre relações e sobre o que acontece, dramaticamente, nas mesmas.

O Jeremy também tem um lado muito filosófico.
Sim, é verdade, mas isto não pode ser sobre filosofia, que postula ideias concretas. O que podemos ver é que é uma história sobre um homem cuja vida é mudada por algumas ideias, com as quais tomamos contacto no filme, e por conhecer pessoas cujos percursos são muito distintos do seu. Isso estabelece um confronto com a sua própria vida; fá-lo pensar que mesmo numa idade avançada talvez devesse mudar a sua, nem que seja apenas um bocado. Penso que é uma mensagem fabulosa. Em jovens temos tantas ambições, como ser jornalista, escrever um romance, etc., e depois concretizamos isso e quando chegamos à meia idade pensamos: “Onde estão os filhos que não tive? Porque estou sozinho? Não tenho nenhuma relação séria porque estive concentrado naquilo”. Há alturas em que decidimos mudar. [Dizem-nos que o tempo da entrevista terminou] Não, não, eles são quatro, dê-lhes mais tempo. A conferência de imprensa? Consegui perdê-la? Oh, ainda não foi, que pena [risos].

Há também um lado muito poético, que salienta uma dicotomia entre a repressão da ditadura e uma certa beleza dos espaços e das personagens que lutaram contra mesma. Acha que isso torna o filme mais interessante?
A relação entre a repressão e a beleza? Penso que sim. Lembro-me de estar em Praga ainda durante a ditadura, a rodar um filme, e todo aquele ambiente artístico, com teatro clandestino, era tão vibrante, munido de um sentimento de comunidade tão real e desafiante. Foi uma experiência excitante. Quando regressei cinco anos depois, já em contexto de liberdade, tudo isso tinha acabado. Teremos que sofrer pela nossa arte? Não tenho a certeza que assim seja, mas penso que é em contextos difíceis que o melhor de nós vem à tona. No outro dia conversava com alguns artistas em Budapeste e eles diziam-me que com toda a liberdade que agora tinham as coisas não eram tão excitantes.

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Na conferência de imprensa do ano passado, em Lisboa, disse que iria estudar o período da ditadura em Portugal. Aprendeu alguma coisa?
Não tive tempo [risos]. Lamento. E tenho pena de não ter conhecido ninguém que estivesse directamente envolvido na resistência. Estava aqui todos os dias a rodar e não tive essa sorte. Conhecem alguém?

 [Todos] Sim, claro. Qual a sua opinião acerca do legado histórico de Portugal dessa altura?
Bem, sinto uma profunda melancolia relativamente àquilo que foi permitido ser construído no período imediatamente posterior [à ditadura] na periferia de Lisboa, pois penso que a tornou amorfa, sem vida. [Por outro lado] encanto pelo centro de Lisboa ter “parado no tempo”, porque aí os apartamentos e as casas são habitados por pessoas que sempre lá viveram, ao invés de se terem tornado condomínios ou blocos de apartamentos que as pessoas não têm meios para pagar. Adoro essa qualidade, assim como o facto de não terem modernizado os edifícios em demasia, deixando essa beleza romântica intacta. Tenho pena que Portugal não tenha mais orgulho em si. Sei que há uma espécie de névoa sobre a Europa neste momento, mas espero que o que saia deste período seja uma atividade mais local. Que o poder de gestão de uma área esteja mais nas mãos de quem realmente a habita.

Que vai fazer depois deste filme?
Vai sair mais uma série dos “Borgias”, há um filme chamado “Beautiful Creatures” e agora espero apostar no documentário que fiz sobre o lixo.

Esteve em Bruxelas a semana passada a falar sobre o plástico.
Sim, tenho trabalhado nisso. Mas gostava também de passar uns três ou quatro meses só a viver a minha vida, sem trabalho.

No filme “The Words” interpretou o papel de Old Man, um personagem secundário que é uma importante influência e consciência para as restantes personagens. Existe aqui um curioso contraste e uma ligeira semelhança com o seu protagonista em “Night Train to Lisbon”, que é o  personagem que guia os restantes…
Sim, viram “Reviver o Passado em Brideshead” [mini-série de 1981, onde desempenhou aquele que é considerado o seu breakthrough role]? O papel é parecido. Para mim o importante é sempre encontrar a verdade do personagem e conhecer a sua função no filme. E esse trabalho permite ajudar a audiência a receber e compreender a jornada, neste caso, do Gregorius.

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