Martin Parr: O Santo Padroeiro do Mau Gosto Britânico
Em “Eu Sou Martin Parr“, Lee Shulman filma um homem que passou meio século a fotografar praias de cimento, comida plastificada, turistas ao sol e a estranha miséria alegre do consumo. O resultado é um documentário leve, inteligente e bastante mais profundo do que parece, que chega às salas de cinema.
“Eu Sou Martin Parr”, de Lee Shulman (Londres, Inglaterra, RU, 1973), é um filme que tem a rara inteligência de perceber que, para filmar o fotógrafo britânico Martin Parr (Epsom, 1952-Bristol, 2025, RU) não vale a pena inventar profundidades pomposas nem tratar a fotografia como se fosse uma aparição mariana. O melhor caminho é outro: olhar para o mundo como Parr o olhou durante décadas.
Ou seja, com curiosidade, ironia, frontalidade e aquela mistura muito britânica de ternura e embaraço que transforma um piquenique numa tragédia cómica e uma bola de gelado num tratado visual sobre a decadência do Ocidente. O documentário, realizado por Lee Shulman e lançado nos cinemas do Reino Unido em fevereiro de 2025, — Parr veio a falecer em Dezembro passado — acompanha o fotógrafo no regresso a lugares e obsessões antigas, revisitando imagens, séries e paisagens que ajudaram a redefinir a fotografia documental contemporânea.

- Parr o olhou e fotografou a Grã-Bretanha durante décadas. ©Lee Shulman
O grande mérito do filme está precisamente em não tentar “explicar” Martin Parr como se ele fosse um enigma metafísico. Não é. Ou melhor: é, mas de uma forma muito mais interessante. Parr não era um artista do discurso; era um artista do olhar. Enquanto muitos fotógrafos parecem querer salvar o mundo, ele preferiu observá-lo a mastigar, a bronzear-se mal, a posar de forma ridícula, a consumir lixo visual e material com uma espécie de alegria desesperada.
Desde os anos 70 que construiu um arquivo ferozmente singular da vida contemporânea, tornando-se um dos mais conhecidos fotógrafos documentais da sua geração, com mais de uma centena de livros publicados, entrada para a Magnum em 1994 e presidência da agência entre 2013 e 2017. O que Lee Shulman percebe muito bem é que Parr nunca fotografou apenas pessoas. Fotografou sistemas de comportamento.
Fotografou classes sociais sem a retórica professoral com que tantas vezes se fala delas. Fotografou a vulgaridade do lazer, a agressividade das cores, a teatralidade involuntária do quotidiano, o ridículo organizado das férias, da comida, do turismo e do consumo. E fez tudo isso sem a preocupação de encontrar beleza no artificial, graça no grotesco e verdade naquilo que a cultura respeitável costuma chamar “mau gosto”. É por isso que as suas imagens saturadas continuam a parecer tão vivas: não porque embalsamem o real, mas porque o ferem ligeiramente.
O país visto da praia, do buffet e da montra
Se há uma série que se tornou central para perceber Martin Parr — e, por arrasto, este documentário — é The Last Resort, realizada em New Brighton entre 1983 e 1985. Aquelas imagens da costa britânica, com o seu flash duro, as suas cores agressivas e a sua atmosfera de prazer barato em cenário de decadência, continuam a ser um dos mais brilhantes retratos da Inglaterra thatcheriana.
Não porque façam sociologia de manual, mas porque mostram um país em decomposição material e simbólica ainda assim agarrado ao prazer possível: uma criança a chorar, um corpo queimado do sol, um pacote de batatas fritas, um betão que substitui a areia e uma classe trabalhadora a tentar divertir-se no meio dos destroços. Foi precisamente essa frontalidade que gerou polémica quando a série foi exibida em 1986: houve quem a visse como crueldade, voyeurismo ou condescendência. Hoje parece mais evidente que Parr estava a fazer o que os grandes artistas fazem: mostrar aquilo que todos viam mas quase ninguém queria realmente encarar.
É essa tensão que faz dele um caso tão fascinante. Martin Parr foi um fotógrafo popular sem ser populista, político sem ser panfletário, humanista sem sentimentalismo. A acusação que o perseguiu durante anos — a de ridicularizar a classe trabalhadora — diz talvez mais sobre a culpa cultural da classe média do que sobre as imagens dele. Porque o que Parr mostra não é uma classe “de cima para baixo”; é uma sociedade inteira apanhada no seu teatro involuntário.
A prova disso é simples: os seus ricos, os seus conservadores, os seus turistas, os seus convidados de vernissages e os seus consumidores cosmopolitas nunca saem mais bonitos do que os veraneantes de New Brighton. Na lente dele, toda a gente é igualmente absurda. E isso, convenhamos, é uma forma bastante democrática de olhar para o mundo.
A comédia humana sem filtro como os do Instagram
Há um momento decisivo na forma como o documentário se constrói: a câmara de Shulman não entra em confronto com Parr, não o dramatiza, não o transforma num génio excêntrico para consumo de festival. Em vez disso, cola-se ao seu ombro e segue-o. Vêmo-lo a circular discretamente agarrado ao seu andarilho-cadeira e de máquina pesada com uma grande objetiva, pendurada ao pescoço, entre multidões, festas de rua, passeios marítimos, feiras e pequenas coreografias do quotidiano britânico. O filme entende que a grande arte de Parr depende da sua aparência de homem absolutamente normal.
Não tem o ar ameaçador do caçador de imagens, nem o exibicionismo narcísico de tanto fotógrafo convertido em influencer de si próprio. Tem, pelo contrário, aquilo a que o multifacetado artista britânico Grayson Perry chamou, com perspicácia, uma espécie de “camuflagem”: ele entra na paisagem humana quase sem perturbar a temperatura ambiente. E isso é bonito de ver porque desmonta uma ideia errada sobre a fotografia documental: a de que basta estar lá. Não basta. Parr não “encontra” as imagens; constrói-as com enquadramento, paciência, instinto e uma atenção quase doentia ao detalhe.
O banal, nas suas mãos, não aparece por magia. É depurado. Escolhido. Organizado visualmente. O documentário insiste, e bem, nessa dimensão editorial do trabalho dele: fotografar é apenas metade do gesto; a outra metade é saber reconhecer, entre centenas de momentos triviais, aquele em que a realidade parece gozar connosco. É por isso que “Eu Sou Martin Parr” é mais do que um documentário simpático sobre um fotógrafo célebre. É também um filme sobre a importância de olhar. Num tempo em que toda a gente tira fotografias com o telemóvel para colocar no Instagram e no fundo quase ninguém vê nada, Parr aparece como uma espécie de antídoto.
Não porque seja puro ou inocente — não é, felizmente —, mas porque continua a acreditar que o mundo comum merece atenção estética. Que um brinco excêntrico, uma sandes fluorescente, um prato de plástico, um fato de banho demasiado apertado ou um sorriso errado podem conter mais verdade sobre uma época do que mil editoriais indignados. Lee Shulman, que já vinha do universo do The Anonymous Project e do qual é fundador — o arquivo que reúne fotografias privadas que ficaram perdidas no mundo e no tempo, desde os anos 1940 até ao advento do digital — e colaborou com Parr no livro Déjà View, percebe afinidades profundas entre o seu próprio fascínio pela memória cromática e o olhar do fotógrafo britânico sobre o presente.
Entre a ternura e a lasca de gelo
Convém, no entanto, não cair na beatificação. O filme é assumidamente afetuoso, por vezes até demais. Defende Parr, acarinha Parr, protege Parr. Não é um retrato de acusação e também não quer ser. Mas isso não invalida a parte mais interessante da personagem: a sua ligeira dureza moral, a tal “lasca de gelo no coração” que certos artistas possuem e sem a qual talvez não houvesse grande arte, apenas boa educação.
Martin Parr não é cruel, mas também não é um consolador social. Não fotografa para lisonjear. Fotografa para revelar. E revelar é sempre, de alguma maneira, trair a imagem que as pessoas têm de si próprias. Talvez seja essa a razão pela qual as suas fotografias continuam a despertar polémica. Porque mostram que o ridículo não é um acidente; é uma condição humana. Somos todos um pouco grotescos quando comemos, quando viajamos, quando nos exibimos, quando tentamos ser felizes em público.
Parr entendeu isso antes de muitos e sem precisar de discursos grandiosos sobre o colapso da civilização. Bastou-lhe apontar a câmara ao sítio certo. O seu génio está aí: não na invenção de mundos, mas na capacidade de ver o mundo já inventado pela sociedade de consumo como um teatro visual de excessos, frustrações, pequenos prazeres e vergonhas coletivas.
Um filme leve sobre um assunto sério
A leveza do documentário é, afinal, uma forma de rigor. Shulman não quer esmagar as imagens com teoria nem com reverência museológica. Quer que elas respirem, que nos ataquem, que nos façam rir e pensar ao mesmo tempo. E nisso acerta em cheio. “Eu Sou Martin Parr” não é uma tese universitária sobre fotografia contemporânea, felizmente. É antes um retrato vivo, colorido e cúmplice de um artista que transformou a trivialidade em linguagem e a sociedade britânica num espelho onde o resto da Europa também acaba por se rever. Porque a Grã-Bretanha de Parr, com os seus buffets, filas, souvenirs, chapéus ridículos, gordura feliz e turismo massificado, não é apenas a Grã-Bretanha. É o Ocidente inteiro em versão ligeiramente mais honesta.
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Um fotografia da Praça de São Marcos em Veneza uma das mais conhecidas de Martin Parr. © Martin Parr
No fundo, o documentário de Lee Shulman lembra-nos uma coisa simples e importante: Martin Parr não fotografou só um país, fotografou uma era. E fê-lo sem nostalgia, sem moralismo e sem a falsa compaixão de quem quer parecer melhor do que os seus retratados.
Talvez por isso o seu trabalho tenha entrado, como alguém diz no filme, no “inconsciente visual” contemporâneo: hoje vemos certas cenas e pensamos automaticamente que parecem uma fotografia de Martin Parr. Isso é o sinal mais óbvio de influência, mas também de vitória artística. Quando um autor muda a maneira como o mundo é visto, já não está apenas a documentar a realidade; está a reorganizá-la.
“Eu Sou Martin Parr” vale, por isso, muito mais do que como simples introdução a um grande fotógrafo. É um pequeno e lúcido filme sobre olhar, classe, consumo, humor e melancolia. Um documentário que não tem medo de ser agradável — qualidade hoje quase revolucionária — e que percebe que a inteligência não precisa de vir embalada em gravidade. Martin Parr continua a ser isso mesmo: um cronista visual do mundo contemporâneo, meio antropólogo, meio turista-acidental, meio cómico involuntário da civilização neoliberal.
E talvez ninguém tenha fotografado melhor a nossa estranha capacidade para parecermos simultaneamente livres, ridículos, solitários e perfeitamente integrados na feira global do mau gosto. No fim, sai-se deste filme com uma suspeita: Martin Parr não estava apenas a fotografá-los a eles. Estava, como os melhores artistas, a fotografar-nos a todos.
JVM

