Ex Machina | Uma vitória histórica nos Óscares

 

A vitória de Ex Machina, na categoria de Efeitos Visuais nos Óscares deste ano, foi uma das grandes surpresas da noite, assim como uma escolha atípica na história desta categoria.

Apesar de não ser a categoria mais jovem na história dos prémios da Academia, o Óscar de Melhores Efeitos Visuais foi uma das honras que mais sofreu constantes mudanças durante as várias décadas de existência destes prémios de cinema. A primeira vez que um galardão foi entregue em honra dos efeitos especiais de um filme foi em 1928, na edição de génese de toda a instituição dos Óscares. Nesse primeiro ano o título do prémio era Melhores Efeitos de Engenharia.

Depois dessa inicial honra, apenas em 1938 se voltou a entregar um prémio referente à excelência do trabalho de efeitos especiais em cinema. Nas décadas seguintes, o galardão viria a mudar várias vezes de nome, incluindo ocasionalmente os efeitos sonoros, ou só a parte visual. Também durante várias décadas a categoria iria oscilar entre uma categoria com vários nomeados em competição ou uma honra especial, um prémio honorário. Demorou, aliás até 1995 para a categoria ser completamente regularizada como parte integrante dos Óscares, sendo que o último prémio honorário foi entregue a Total Recall de 1990.

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Ao contrário de outras categorias mais técnicas, Melhores Efeitos Visuais sempre esteve muito dependente de sucesso comercial e aceitação generalizada da Academia, sendo que usualmente os nomeados são escolhidos de entre alguns dos filmes mais dispendiosos e bem-sucedidos dos estúdios americanos. Os blockbusters dominam a categoria, portanto, e quanto mais vistosos melhor. Para além disso, os nomeados a Melhor Filme que têm uma vantagem sem igual nesta categoria.

Ex Machina Oscares 2016

Com tudo isto em conta, Ex Machina ser a escolha da Academia é algo quase miraculoso, não sendo difícil perceber porque é que esta foi talvez a maior surpresa de toda a edição deste ano dos Óscares. Este filme retrata os jogos de manipulação, sedução e poder entre um megalómano e genial milionário, um ingénuo programador e uma androide sedutora e mantida sob a clausura de uma escrava. Uma obra de ficção-científica que se preocupa mais com dissecações psicológicas do que com explosões ou visões fantasiosas que é, essencialmente, um filme independente inglês, é uma das escolhas mais atípicas que esta categoria já teve.

O trabalho de efeitos visuais é subtil e completamente criado com o propósito de dar vida aos conceitos e imagens mais importantes da narrativa, sendo que Ex Machina nunca se torna um simples espetáculo de virtuosismo técnico. O resultado final é primoroso mas é o menos vistoso de entre os restantes nomeados, The Revenant, Mad Max: Estrada da Fúria, Perdido em Marte e Star Wars: O Despertar da Força. Apenas filmes como Babe ou A Morte Fica-vos Tão Bem são verdadeiramente comparáveis na sua economia estilística por entre os vencedores desta categoria e nenhum deles é o tipo de cinema de autor que este acaba por abertamente ser.

ex machina filmes mais antecipados 2015

Em termos mais monetários também se deve dizer que é preciso recuar até 1982 para se encontrar um filme vencedor deste Óscar com um orçamento igual ou inferior aos 15 milhões de dólares de Ex Machina, e isso nem sequer toma em conta a inflação. Mesmo no que diz respeito a lucros, o filme de Alex Garland é o vencedor com menos receitas desde Para Além do Horizonte de 1998. Seria, portanto, fácil afirmar que Ex Machina será o filme menos dispendioso a alguma vez ganhar este galardão. Uma vitória clara para o cinema independente contemporâneo e sua aceitação por Hollywood e suas instituições.

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Outro fator que revela Ex Machina como uma escolha estranhíssima é que o filme estava em direta competição com nomeados ao Óscar de Melhor Filme. Desde 1970 que nenhum filme conseguia ganhar este galardão se estivesse em competição com outras obras nomeadas à maior honra da noite.

Ex Machina

Com tudo isto junto, Ex Machina acaba por se revelar como uma escolha tão atípica que quase atinge proporções de importância histórica. Será que os Óscares estão a começar a valorizar efeitos mais discretos e artisticamente relevantes que simplesmente vistosos? Será que a Academia está a renunciar a se seguir simplesmente pelo sucesso económico dos filmes nesta categoria? Será que acabou o reino dos blockbusters nos Óscares?

Apenas os próximos anos irão revelar se Ex Machina vai ser para sempre uma anomalia ou se, pelo contrário se irá revelar como o início de uma nova era na história dos Óscares.

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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