La Terra dell'Abbastanza

12ª Festa do Cinema Italiano | La Terra dell’Abbastanza, em análise

La Terra dell’Abbastanza” é um conto moral sobre dois amigos que vendem a alma ao Diabo na Itália contemporânea. Trata-se também de uma das longas-metragens em competição na 12ª Festa do Cinema Italiano.

Todos os anos, é impossível ver mais de meia dúzia de filmes na Festa do Cinema Italiano sem nos depararmos com uma história da máfia, mafiosos, crime organizado, homicídio e grandes refeições onde se discutem assassinatos de encomenda com a mesma casualidade com que se pede para passar o saleiro. Compreende-se que o crime organizado seja uma componente incontornável da sociedade italiana, mas já era altura de estes filmes demonstrarem alguma variedade. Com muito raras exceções, os contos da máfia que chegam ao grande ecrã são circos de sangue e violência que usam uma fachada de moralismo caucionário para venderem às massas glorificações indisciplinadas do mundo do crime.

A uma certa altura, é quase possível um espectador atento prever não só os desenvolvimentos narrativos, como também a execução formal da história. Nem é muito difícil. Basta pensarmos nas versões americanas de Scorsese e De Palma, na “Gamorra” de Matteo Garrone e em meia dúzia de séries italianas e temos, basicamente, todas as fórmulas com que máfia é dramatizada na cultura popular. Este subgénero do cinema italiano está tão calcificado em convenções repetitivas, que esses mesmos mecanismos são o alvo perfeito para exercícios de subversão crítica. Afinal, são códigos que praticamente todos conhecem e que a maioria das audiências aceita de modo passivo e anticrítico.

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Um conto faustiano sobre dois jovens que vendem a alma ao Diabo.

Em “La Terra Dell’Abbastanza” os irmãos Damiano e Fabio D’Innocenzo pegam nesse modelo clássico, completado até com os prototípicos anti-heróis masculinos, e tentam escoriar as camadas de idealização popular, revelando a podridão da máfia e da cultura que indiretamente a valida.  Este é o seu primeiro esforço enquanto realizadores, sendo que os irmãos eram antes principalmente conhecidos como argumentistas. Seu anterior crédito mais vistoso foi o argumento de “Dogman”, mais uma narrativa sobre máfia e violência masculina que, no ano passado, ganhou o Prémio de Melhor Interpretação Masculina em Cannes.

O filme realizado pelos D’Innocenzo pode não chegar aos cinemas com o mesmo tipo de pedigree de “Dogman”, mas não devemos, por isso, subestimar seus méritos. Aliás, no que diz respeito a grandes prestações masculinas, “La Terra Dell’Abbastanza” é uma verdadeira mina de ouro. No centro do drama, estão dois desempenhos titânicos por dois atores italianos em promissor início de carreira. Eles são Matteo Olivetti como Mirko e Andrea Carpenzano como Manolo, dois jovens no último ano da escola secundária cujas grandes ambições são desfrutar uma vida pacífica como empregados de mesa em Roma.

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Pelo menos, esse é o futuro que os dois discutem na noite em que os conhecemos. Os realizadores colocam a câmara dentro de um carro com os dois amigos de longa data e deixam que Olivetti e Carpenzano nos vão embalando nos ritmos naturalistas do seu diálogo corriqueiro. Ainda pouco tempo passámos com os dois adolescentes e já quase sentimos que os conhecemos. Conhecemos, no mínimo, o tipo de juventude sem rumo que a parelha representa. Não que suas vidas continuem desamparadas e sem caminho pois, pelo meio da negrura noturna, o carro atropela um pedestre. De um momento para o outro, Mirko e Manolo vêem traçado um novo caminho nas suas vidas. Infelizmente, para eles, é um caminho que só pode acabar em desgraça.

O que separa este filme de tantos outros, é o modo como os realizadores ancoram o arco narrativo na deterioração moral e espiritual dos dois amigos que, devido aos conselhos do pai de Manolo, usam o acidente como bilhete de entrada para uma vida de crime. No caso de Manolo, é algo subtil e venenoso, sua confiança juvenil a gradualmente transfigurar-se numa apatia desumana. Para Mirko, em contraste, a transformação é radical e hedionda. Para ele, a violência é como uma infeção que vai consumindo cada elemento da sua vida. Veja-se, por exemplo, como a constante exacerbação de valores tóxicos de masculinidade e exaltação de subjugação sexual feminina, leva a que ele vá começando a encarar a mãe e a namorada como pessoas inferiores.

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Matteo Oliveti é sublime num papel difícil, feio e quase repugnante pela sua amoralidade.

Através do simples ato de terminarem confrontações com planos de reação prolongada das mulheres, os cineastas garantem que o espectador entenda como nada disto é positivo. Não há nada de positivo na altivez machista de Mirko e também não há nada de fixe ou atraente. Se ainda houvesse alguma dúvida, a linguagem formal do filme vai-se abatendo sobre as personagens, com diálogos filmados em grandes planos estranhos, espacialmente desconexos, e uso de iluminação amarela e verde que dá a todos os atores um ar doente. Tudo isto, emparelhado com o histerismo animalesco que Olivetti trás ao papel, faz de Mirko uma figura repugnante, da qual temos pena e nojo, medo e até alguma raiva.

O pior, ou melhor, desta espiral descontrolada, é que Mirko parece estar ciente do monstro em que se está a tornar, mas é incapaz de por travão ao processo. A partir do momento em que se vende a alma ao Satã do crime organizado, não há modo de voltar atrás. Não há esperança, ela foi morta, e não há futuro também. A narrativa, de forma geral, não é muito original, especialmente quando “La Terra Dell’Abbastanza” se deixa afogar em niilismos desesperantes, mas estes irmãos realizadores sabem como dissecar o cliché do modo mais doloroso possível. No final, o coup de grace dos irmãos D’Innocenzo é um tiro certeiro de humor negro e angustiante. Um pai que vê a tragédia do filho como algo normal e uma mãe que fica paralisada face ao horror de tal conformidade.

La terra dell'abbastanza, em análise
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Movie title: La terra dell'abbastanza

Date published: 2019-04-10

Director(s): Damiano D'Innocenzo , Fabio D'Innocenzo

Actor(s): Matteo Olivetti, Andrea Carpenzano, Milena Mancini, Luca Zingaretti, Michela De Rossi, Massimiliano Tortora, Giordano Di Plano, Yan Lovga, Nicole Centanni, Andrea Di Casa, Walter Toschi

Genre: Crime , Drama, 2018, 95 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

“La Terra dell’Abbastanza” tena subverter e dissecar alguns dos mais perniciosos clichés do cinema sobre a máfia italiana. A sua narrativa é dependente de fórmulas aborrecidas, mas uma equipa de realizadores estreantes sabe minar as convenções para delas extrair um poderoso melodrama de masculinidade tóxica e autodestrutiva. Performances exemplares e um formalismo opressivo dão valor a um filme sólido e eficiente, mas que está ainda longe de ser extraordinário. Talvez o próximo filme dos irmãos D’Innocenzo seja melhor. Talvez eles fizessem bem em por de parte, por momentos, o seu aparente interesse na máfia.

O MELHOR: A banda-sonora é gloriosa, jogando com sonoridades jazz e uma desfragmentação que vai acompanhando a queda em desgraça dos protagonistas.

O PIOR: Apesar de Manolo ser muito posto de lado em prol da tragédia de Mirko, sua transformação é tão ou mais interessante que a do seu amigo e cúmplice.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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