George Clooney, Emma Stone e László Nemes em choque de estilos | Festival de Veneza 2025 (Dia 2)
No segundo dia do Festival de Veneza 2025, Hollywood trouxe terapia de grupo em road movie (“Jay Kelly”), Lanthimos trouxe conspiração grotesca (“Bugonia”) e László Nemes lembrou que o cinema também serve para abrir feridas históricas (“Orphan”).
O Festival de Veneza 2025 começou em modo litúrgico e continuou em tom de terapia. Se o primeiro dia nos deu um Presidente ficcional e uma Madre Teresa punk rock, o segundo trouxe uma tríade improvável: George Clooney, Emma Stone e László Nemes. Três filmes em competição, três maneiras distintas de olhar para o mundo, entre a melancolia existencial, a conspiração absurda e a memória traumática.
“Jay Kelly”: Clooney e Sandler num road movie melancólico
Produzido pela Netflix, Noah Baumbach voltou ao Festival de Veneza 2025 em grande estilo e com elenco digno de festival de selfies: George Clooney, Adam Sandler, Laura Dern, Riley Keough, Greta Gerwig, Billy Crudup, Alba Rohrwacher. Em “Jay Kelly”, Clooney interpreta um ator famoso em crise, acompanhado pelo seu manager e amigo (Sandler), numa viagem pela Europa que é menos geográfica e mais interior.
Baumbach mantém a sua veia: diálogos afiados, ironia temperada com melancolia, personagens a caminhar entre a confissão e a comédia. Clooney, sempre polido, joga aqui com a sua própria persona de estrela mundial, a revisitar escolhas, erros e legados. Ao lado, Sandler surpreende: já não é o palhaço cansado da Netflix, mas um homem triste que segura o outro pela mão. É um filme sobre amizade, fama e envelhecimento, o tipo de coisa que em Veneza soa logo a ‘obra maior’.
“Bugonia”: Emma Stone sequestra o futuro
Se Baumbach olha para dentro, Yorgos Lanthimos continua a rir-se do mundo e de nós todos, aqui em particular no Festival de Veneza 2025. “Bugonia” é o remake de um filme de culto sul-coreano (“Save The Green Planet!”, realizado por realizado por Jang Joon-hwan, em 2003), mas na verdade trata-se de Lanthimos a regressar ao que melhor sabe fazer: parábolas absurdas onde o grotesco e a sátira se tornam inseparáveis.
Emma Stone, agora oficialmente musa a tempo inteiro, interpreta Michelle Fuller, CEO de uma multinacional farmacêutica sequestrada por dois tipos convencidos de que ela é…veja-se um alienígena. Jesse Plemons é um apicultor paranóico, e o resto é claustrofobia filmada em 35 mm, entre caves húmidas e planos sufocantes. Há Green Day na banda sonora, uma mala Saint Laurent a fazer de adereço alienígena e diálogos que alternam entre a tragédia e o ridículo.
Lanthimos não ri dos teóricos da conspiração: usa-os como espelho de um mundo que já vive na bolha paranoica do absurdo. É um cinema que provoca gargalhadas desconfortáveis, o tipo de riso que arranha a garganta, num filme produzido aliás por Ari Aster (“Eddington”).
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“Orphan”: Nemes devolve-nos ao peso da História
E depois também na Competição do Festival de Veneza 2025 veio László Nemes, a lembrar-nos que nem tudo pode ser ironia. “Orphan” é o contrário dos jogos pós-modernos: um mergulho nas feridas da Europa de Leste. Passado em Budapeste, em 1957, acompanha Andor, um rapaz judeu criado pela mãe com uma história idealizada sobre o pai morto, até ao dia em que um homem brutal aparece e afirma ser o verdadeiro progenitor.
Nemes filma a infância como campo de batalha, entre fantasmas do Holocausto e a repressão do regime comunista. A sua câmara, colada aos rostos, devolve-nos a sensação de claustrofobia e terror íntimo que já tínhamos visto em “O Filho de Saul”. Mas aqui o foco não é o campo de concentração: é o pós-trauma, o silêncio pesado, a herança impossível. É um filme duro, íntimo e devastador e talvez o primeiro grande momento sério do festival. Porque Veneza também precisa disto: de um cinema que não se consome em hashtags ou selfies, mas que nos obriga a olhar para trás, mesmo quando dói.
O Dia 2 do Festival de Veneza 2025 mostrou na verdade um contraste total: Clooney a repensar a vida, Stone a desconstruir conspirações com humor negro, Nemes a cavar fundo na memória coletiva. Três filmes, três pesos distintos. O glamour esteve em “Jay Kelly”, a sátira em “Bugonia”, a seriedade em “Orphan”. Entre terapia, paranoia e trauma, o Lido percebeu que o cinema ainda sabe ser tudo ao mesmo tempo.
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