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Isabelle Huppert | Quando a atriz se torna autora

A FILMIN.PT tem, de momento, uma coleção de 11 filmes da atriz francesa Isabelle Huppert, que inclui alguns dos seus melhores trabalhos como “Ela” e “A Pianista”. A partir dessas obras e das prestações de Huppert nelas contidas, ponderamos se uma atriz pode ser autora de um filme, na mesma medida que normalmente associamos a um realizador.

A popularidade generalizada da teoria de autor entre a cinefilia contemporânea tem vindo a levar a um progressivo esquecimento de que, na sua essência, o cinema é das artes mais intrinsecamente colaborativas que existem. Ao privilegiar de tal modo a figura do realizador, essa teoria tende a apagar as outras vozes criativas que contribuem para a edificação do objeto cinematográfico. Vendo um filme como “Ela” de Paul Verhoeven, por exemplo, há uma tendência a descartar as contribuições dos outros cineastas que não o realizador, mas, neste caso, é inequívoca blasfémia descartar a força autoral da sua atriz principal, Isabelle Huppert.

A atriz francesa, cujo trabalho é celebrado pela FILMIN com uma seleção de 11 dos seus filmes, é tão central para o funcionamento desse projeto realizado por Verhoeven que não seria difícil argumentar que ela sim é a autora principal da obra. Afinal, já testemunhámos como, nas mãos do realizador holandês, narrativas semelhantes resultam em projetos lúridos e sensacionalistas, cheios de choques sedutores e uma pátina de misoginia difícil de ignorar. A história de uma mulher a reagir imprevisivelmente ao rescaldo de uma violação certamente propõe-se a tal abordagem e resultado final, não fosse a atriz responsável por interpretar essa figura.

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“Ela” valeu a Isabelle Huppert a sua primeira e única nomeação para o Óscar.

Hoje em dia, depois da ascensão do realismo enquanto estilo standard do cinema, pelo menos no que diz respeito à valorização de trabalho de ator, é raro o intérprete que não trabalhe no sentido de dar à audiência acesso à interioridade da sua personagem. Huppert, desde o início da sua carreira, tem seguido o seu próprio caminho e contra intuitivamente tende a fechar-se, preferindo a opacidade psicológica à transparência, assim confrontando a audiência com severidade minimalista. No vazio dos seus retratos, o espectador consegue encontrar algumas das caracterizações mais calcinantes do cinema moderno, mas é forçado pela atriz a projetar as suas ideias nas realidades que está a observar e a negociar com a intérprete em cena a pouca informação que esta está disposta a ceder.

Em “Ela”, Huppert leva tais mecanismos a extremos, consumindo o filme com a impermeabilidade do seu olhar e como que desafiando as sugestões tonais do argumento. Relembremos que muitos foram os críticos que celebraram o filme como uma comédia negra, mesmo que a mise-en-scène de Verhoeven e o guião de David Birke não pareçam indicar tais tons humorísticos. Essa qualidade provém principalmente da colisão entre as provocações lascivas do texto com a imperiosidade de Huppert, que drena o veneno da personagem, mas não atenua a sua crueldade ou força, conjurando reações que nos chocam, não pelo seu dramatismo gritado, mas pelo desinteresse com que são manifestas.

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Face a tais escolhas de ator, o espectador tem poucas opções que não o reconhecimento de humor na bizarria humana posta em cena. Com isso em conta, “Ela” é um projeto que Huppert subjuga à sua interpretação da personagem, narrativa, temas e tom, mas não é a única mostra da voz autoral da atriz ou do modo como o seu minimalismo é uma das ferramentas mais poderosas no seu arsenal. “Ensurdecedor” de Joachim Trier é outra boa referência e mais um dos 11 títulos na coleção da FILMIN. Aqui, o papel de Huppert é pequeno e subordinado a ser apresentado mais como a ideia de uma pessoa que uma pessoa em si, mas ela não deixa por isso de brilhar ou injetar no organismo do filme a sua patente voz criativa.

No filme, Huppert interpreta uma fotógrafa especializada na cobertura de zonas de conflito e, desde o início da narrativa, que morreu e apenas vive na memória do seu marido e dois filhos. Através de flashbacks, descobrimos a personagem, mas esta está quase sempre filtrada pela perspetiva daqueles que a amavam e dela necessitavam do mesmo afeto. Como que ilustrando a efemeridade e indefinição humana da personagem espectral, Huppert faz de “Ensurdecedor” um exercício em absoluta autoanulação. Ela é de tal modo inescrutável que a sua face inexpressiva se torna no símbolo máximo das disfunções da dinâmica familiar.

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Uma expressão vazia pode conter todo um universo.

Huppert dá assim vida a uma mulher incompreendida pelos seus entes queridos, alguém que não consegue mesclar a realidade do que vive no seu trabalho e a domesticidade pacata do lar. Essa incompreensão é palpável, mas Huppert consegue tornar-se também numa tela sobre a qual o espectador pode projetar a sua opinião da personagem. Não é por acaso que, na imagem mais memorável deste filme, Trier simplesmente apresenta um grande plano de Huppert a fitar diretamente a objetiva, sem nenhum tipo de emoção reconhecível na sua expressão. Ela transforma-se numa tela branca e, assim, consegue conter todo um universo de possibilidades e realidades humanas num olhar.

Leves variações nestas técnicas e no modo como é filmada podem levar a prestações monumentalmente distintas e paradoxalmente semelhantes. Veja-se a monstruosidade que a câmara de Haneke vê na prestação que Huppert lhe oferece em “A Pianista”, um desempenho esvaziado de juízos morais, não obstante os extremos de desejo e crueldade que ela expressa em cena. Face a magnificência abrasiva desse retrato, é fácil entender por que razão essa prestação de Huppert como uma professora de piano com desejos sexuais fora da norma se tem vindo a destacar como o seu trabalho mais aclamado, tanto ao nível crítico como popular.

No entanto, ver Huppert conceber uma caracterização diametralmente oposta a essa monstruosa abrasão também consegue ser um gesto de extrema maravilha, tal como se vê em “O Que Está Por Vir” de Mia Hansen-Løve. Como uma professora de Filosofia recentemente deixada pelo marido e com uma mãe idosa em estado frágil, Huppert usa a sua abordagem minimalista do costume. Aqui, contudo, a tela imaculada da sua opacidade psicológica funciona não tanto como uma máquina criadora de mistério e antagonismo concetual, mas como um gesto anti sentimentalista.

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Isabelle Huppert merece ser tratada como uma autora cinematográfica.

Seria fácil imaginar outra atriz sucumbir às tragédias da personagem e evocar o melodrama. Huppert, felizmente, vai mais uma vez contra a corrente e, do potencial melodramático, faz florescer um acutilante retrato humanista, onde as ideias expressas pela sua personagem têm tanto valor como as mágoas que a atormentam. Trata-se da caracterização de uma mulher que se apoia no intelecto para viver através da dor e, numa mostra de incrível entendimento e respeito pela sua personagem, Huppert privilegia sempre esse intelecto e raramente permite que o sofrimento consuma a imagem que a câmara captura.

Tal como “Ela”, “O Que Está Por Vir” é um filme que deve tanto a Huppert como aos indivíduos sentados na cadeira de realizador. Talvez por essa intensidade autoral, a atriz também acabe por colidir com realizadores cujo discurso não coere com o seu. “Madame Hyde” é um bom exemplo, onde o minimalismo de Huppert acaba por se tornar numa fragilidade, friccionando de modo distrativo com a estilização humorística que outros intérpretes como Roman Duris trazem ao obedecerem aos ditames do texto e seu realizador.

Enfim, quer seja a tomar as rédeas de um projeto e assim elevar o seu discurso ideológico e tonal, ou a colidir com cineastas cujas escolhas nunca se submetem à atriz enquanto autora, Isabelle Huppert mais do que provou que a sua voz criativa é tão ou mais marcante que a dos realizadores que a filmam. O que é certo é que, na mesma medida em que falamos do cinema de Paul Verhoeven ou Brillante Mendoza, também devíamos falar do cinema de Isabelle Huppert e sua oeuvre. Ela é uma autora cinematográfica e merece ser tratada como tal.

Para além dos títulos mencionados neste artigo que se encontram disponíveis na plataforma online FILMIN, está nos cinemas o filme “Eva”, onde Huppert interpreta uma misteriosa femme fatalle. Não percas!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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