O Grande Showman, em análise

Hugh Jackman é um dos grandes pioneiros do circo moderno em “O Grande Showman”, um novo e muito energético musical original realizado por Michael Gracey.

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Apesar de alguns êxitos recentes, desde o seu cataclísmico colapso na década de 70 que o cinema musical é sempre uma aposta precária e arriscada para qualquer estúdio. No início do século XXI, uma série de musicais vanguardistas como “Dancer in the Dark” e “Moulin Rouge!” vieram dar nova vida ao género mais intrinsecamente americano a seguir ao western, mas a evolução estilística do cinema mainstream tinha criado um gosto popular apoiado numa noção estandardizada de pseudo realismo. O que isto quer dizer é que audiências modernas estão muito mais dispostas a suspender a sua incredulidade quando se deparam com um filme sobre super-heróis filmados consoante as convenções meio realistas da Hollywood moderna, do que aceitarem as convenções deliberadamente irrealistas de um musical em que as pessoas se expressam em canção.

Tudo isto para retificar que, não obstante as suas muitas fragilidades, “O Grande Showman” é algo raro que deve ser encarado com apropriada admiração. Afinal, para além de ser um musical, o primeiro filme a ser realizado por Michael Gracey é uma obra original, não tendo qualquer origem no teatro, o que o torna ainda mais incomum. Por muito convencional e cliché que o produto final possa ser, a sua génese revela impetuosidade e, verdade seja dita, esta biografia musicada de P.T. Barnum ainda consegue ocasionalmente transmitir alguma dessa ousadia e bravura criativa. Pelo menos consegue fazer isso quando não está a desavergonhadamente tentar copiar o tom forçosamente inspirador de “Glee” e o tresloucado estilo cinematográfico de Baz Luhrmann.

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De forma muito sumária, “O Grande Showman” tenta contar a história verídica de como P.T. Barnum, na América do século XIX, passou de um humilde filho de alfaiate a um homem de sucesso que é ainda por muitos considerado o principal responsável pela invenção do circo moderno. É evidente que a história faz vários saltos narrativos, omitindo enormes porções da ascensão de Barnum por exemplo, e isso é espectável de um musical de Hollywood. O que é um pouco mais difícil de engolir é o modo como o filme propõe a figura de Barnum como um ícone inspirador que ajudou o mundo a valorizar aqueles que a sociedade ostracizou. Na verdade, Barnum era um sagaz homem de negócios que explorou pessoas com deformidades físicas, industrializou o freak show oitocentista e ainda veio a ser um célebre produtor de espetáculos racistas de menestréis.

Esta não é a primeira vez que a vida de Barnum é transmutada num musical frívolo, mas o tom de doçura socialmente relevante que “O Grande Showman” tenta construir para si mesmo transpira o fedorento odor do mais puro cinismo imaginável. Isto é o equivalente musical a alguém fazer um filme de Hugh Hefner enquanto um ícone feminista ou de Ayn Rand como uma defensora da importância da caridade. As ideias que o filme promove não são más, sendo extremamente relevantes e valiosas, mas o seu uso de revisionismo histórico para esse mesmo efeito faz com que tais ideais pareçam mais o resultado de estudos de marketing do que de qualquer tipo de intenção artística ou genuína preocupação sociopolítica. O pior de tudo é que, na sua forma final, “O Grande Showman” acaba por tratar praticamente todas as suas personagens mais fisicamente bizarras como adereços vivos ou figurantes glorificados.

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Por exemplo, Sam Humphrey interpreta Charles Sherwood Stratton, um homem que sofria de nanismo e se tornou numa parte famosa do espetáculo de aberrações promovido por Barnum. Nos créditos do filme, num toque final que salienta quão os cineastas não se interessam pela humanidade das pessoas que estão putativamente a celebrar, ao invés de aparecer o nome de Stratton, Humphrey está somente creditado como o General Polegarzinho. Certamente muitas pessoas que desconheçam os detalhes da vida de Barnum e não se interessem muito pelo modo como a narrativa negligencia todos aqueles que não são belíssimas estrelas de cinema vão adorar a mensagem do filme e se calhar até a vão considerar inspiradora. De facto, por muito hipócrita e cinicamente sacarino que todo o projeto seja, este é um filme ao qual é difícil resistir.

Visualmente, “O Grande Showman” tem pouco que o recomende, sendo que tanto os cenários como os figurinos parecem ser uma versão diet da folia de Baz Luhrmann só que desprovidos da lógica e coerência interna que guia os projetos desse visionário australiano. No entanto, a sua grande redenção estética vem sob a forma da fotografia de Seamus McGarvey que denota uma teatralidade luxuriante a atraente, especialmente no que diz respeito à iluminação dos grandes números musicais. A montagem, que foi feita por seis pessoas diferentes, também tem os seus momentos de grandeza, exibindo, acima de tudo, uma estupenda facilidade em mover a história a uma velocidade fulminante. É difícil cairmos nas profundezas do tédio quando vemos “O Grande Showman” pois o filme nunca nos dá tempo para sequer ficarmos aborrecidos. Isto, obviamente, também origina problemas, como a rapidez com que Barnum resolve um conflito matrimonial no terceiro ato da narrativa.

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Com isso dito, num musical, por muito importante que a fotografia e a montagem possam ser, nada se eleva acima da música. Ao todo, “O Grande Showman” tem nove canções originais escritas por Benj Pasek e Justin Paul e, com uma gloriosa exceção, todas elas são esforços tristemente medíocres e cheios de clichés, pelo menos ao nível da letra. Em termos de melodia a situação melhora com os arranjos pop energéticos e memoráveis que a parelha concebeu. Ainda este ano, o duo ganhou o Óscar e o Tony pelo seu trabalho em “La La Land” e “Dear Evan Hansen” respetivamente, e o estúdio por detrás deste musical parece estar decidido a acrescentar mais um troféu à coleção, desta vez pela canção “This Is Me”. Infelizmente, essa é, de longe, a mais canção mais cínica em todo o filme, proclamando que todos, independentemente das diferenças que nos separam, merecemos amor, atenção e respeito num filme que celebra um homem que sistematicamente usou a humilhação pública de pessoas “diferentes” como modo de se tornar rico.

Pela sua parte, o elenco mostra-se sempre apto a elevar as músicas. Rebecca Ferguson, como a cantora sueca Jenny Lind, é especialmente formidável, compensando o facto de a sua voz ter sido dobrada nos números musicais com alguns momentos de lipsync extraordinariamente dramáticos. Também ajuda, claro está, que Lynd canta a melhor canção do filme, “Never Enough”. Outros atores abençoados com um grande número musical, desta vez ao nível da coreografia, são Zac Efron e Zendaya. Como um menino rico da alta sociedade nova-iorquina e uma trapezista afro-americana cuja paixão é posta à prova por preconceitos racistas e classistas, os dois atores são espetaculares explosões de carisma e poder de estrela. Hugh Jackman, no papel principal, mostra-se ainda mais energético e empenhado que o trio já referido, mas há algo de desesperado na sua prestação, uma vontade de agradar e entreter a qualquer custo que por vezes se torna alarmante. No final, poder-se-ia mesmo dizer que “O Grande Showman” é bem representado pelo trabalho do ator australiano, sendo um filme que quer entreter o espetador a qualquer custo e que, pelo caminho, sacrifica integridade ideológica, coerência estética e originalidade cinematográfica para o fazer.

 

O Grande Showman, em análise
O Grande Showman

Movie title: The Greatest Showman

Date published: 2017-12-29

Director(s): Michael Gracey

Actor(s): Hugh Jackman, Michelle Williams, Zac Efron, Zendaya, Rebecca Ferguson, Keala Settle, Sam Humphrey, Yahya Abdul-Mateen II, Ellis Rubin, Skylar Dunn, Paul Sparks

Genre: Musical, Biografia, Drama, 2017, 105 min

  • Cláudio Alves - 55
  • Rui Ribeiro - 85
  • José Vieira Mendes - 60
  • Filipa Machado - 70
68

CONCLUSÃO

“O Grande Showman” é uma reinterpretação cinicamente idealizada da vida de P.T. Barnum que, apesar de tudo, é um musical pop energético e divertido. Hugh Jackman lidera um elenco muitas vezes desperdiçado num argumento pueril, mas o filme seria bastante melhor se Zac Efron estivesse no centro deste circo e não o ator australiano famoso por interpretar Wolverine.

O MELHOR: A espetacular cena em que Jenny Lind canta “Never Enough”, a melhor canção do filme.

O PIOR: O modo como “O Grande Showman” se tenta inocular de críticas negativas ao vilificar a figura de um crítico de teatro, acabando por redimir a personagem numa cena em que ele caracteriza hipoteticamente os feitos de Barnum como “uma celebração de humanidade” e quase admite que é incapaz de ter prazer no espetáculo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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