20º Queer Lisboa | Grandma, em análise

Lily Tomlin exibe a sua grandiosidade em Grandma, uma comédia sobre uma avó que ajuda a neta a pagar um aborto, que lhe valeu uma merecida nomeação ao Globo de Ouro.

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No panorama do cinema independente (indie) americano existe um tipo de filme muito recorrente, especialmente quando o orçamento é escaço. Falamos daquelas produções em que todo o edifício cinematográfico está construído em cima de e como modo de celebrar o trabalho do elenco, cheio de vistosos papéis prontos a serem devorados por atores sedentos de oportunidades para roubarem o holofote uns aos outros. Grandma é precisamente esse tipo de projeto, sendo que, para seu monumental benefício, o seu tufão de showboating está sempre ancorado pela presença constante de uma das maiores comediantes na história do cinema americano, a incomparável Lily Tomlin.

Já havemos de chegar, mais à frente, aos elogios a Tomlin, entretanto é mais pertinente falar do esqueleto narrativo em que se constrói este desfile de prestações vistosas e personagens insólitas. Elle Reid é uma poetisa feminista na casa dos 70, que há relativamente pouco tempo sofreu a morte da sua amante de longa data e, desde então, também acabou uma tumultuosa relação com uma mulher mais nova. Um dia, à casa desta mulher, chega Sage, a sua neta, com um pedido muito específico: ela precisa de 630 dólares. Rapidamente a septuagenária deduz que a jovem necessita do dinheiro para um aborto e, tendo em conta que Elle está falida e recentemente transformou os seus cartões de crédito num espanta-espíritos, as duas partem numa mini odisseia em busca de alguém que lhes empreste a soma antes da consulta marcada por Sage que, como não podia deixar de ser, é nessa mesma tarde.

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O que se segue é uma miniatura de um road movie que, tal como os exemplos mais completos desse subgénero, sofre de uma estrutura bastante episódica e fragmentada. Basicamente, o grande corpo de Grandma consiste no encadeamento de várias cenas entre Tomlin e outros atores à medida que Elle vai saltando de conhecido em conhecido, passando também pela casa do pai do feto e por um café onde o filme se deixa repousar e dá a Tomlin oportunidade para se por aos gritos e mostrar os seus dotes para criar personagens desbocadas e abrasivas. E não se equivoquem, Elle é extremamente desbocada e abrasiva, mas mais do que servirem como modo de refletir sobre o autoisolamento da personagem, os cineastas estão muito mais interessados nos potenciais cómicos e didáticos dos seus estrondosos protestos.

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Isso é apenas um exemplo dos vários problemas deste guião concebido por Paul Weitz, que também, realizou. Há grande valor na fogosa militância feminista de Elle, mas o modo caricaturado como essas convicções são expostas tem mais de sitcom do que de sincero apelo ideológico. Não há nada de subtil aqui, tudo é gritado em Grandma, mesmo os pormenores de dinâmicas interpessoais que esperaríamos ver mais presentes em subtexto que demarcadas em longas cenas de exposição verbal. Quando muitas das personagens são tão exageradas que quase se revelam arquétipos é entendível como é que se chegou a tal situação, mas nada disso justifica a natureza esquemática de todo o filme, que podia ter sido criado a partir de um template tal é a sua base em fórmulas e estruturas cansadas do cinema indie.

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Felizmente, como já dissemos anteriormente, o filme tem um grande elenco e Weitz sabe quando se afastar da cena e deixar com que os seus atores resolvam as fragilidades do seu texto e desinspirada direção. Sam Elliott e Marcia Gay Harden são dois nomes de particular relevo. Ele consegue pegar num dos encontros mais breves e menos verbosos de Elle e nele criar um retrato de anos de histórias vividas em conjunto. Elliott apenas pinta nas entrelinhas, nunca rouba o foco a Tomlin e demonstra a todo mundo por que razão é que ele se tem vindo a tornar num dos mais consistentes character actors da Hollywood contemporânea e das produções independentes na sua periferia. Harden, por outro lado, entra no filme com a força de um bulldozer e chama tanto a atenção para a sua presença que, por momentos, o filme deixa de ser sobre Elle e passa a ser sobre a sua filha despótica. Mais do que qualquer outro ator em Grandma, Marcia Gay Harden é quem mais contraria as tendências duvidosas do guião, esculpindo o estereótipo corrosivo de uma insensível executiva obcecada com o sucesso profissional até aí encontrar uma pequena supernova de fúria filial que nos consegue levar a reapreciar o tipo de comportamento exibido por Elle ao longo do filme.

Mas é claro que Tomlin é a verdadeira estrela de Grandma e a sua prestação aqui é bombástica, mesmo que, ao contrário de Harden, ela nunca demonstre grande vontade em explorar ou subverter as facetas mais simplistas do texto. Em compensação, Lily Tomlin eleva todos os momentos cómicos que lhe são oferecidos e arrasa com a audiência nas cenas mais dramáticas, especialmente quando se evidencia o peso da perda da sua companheira de longas décadas. Em suma, este pode estar longe de ser um dos seus papéis mais complexos ou subtis, mas ela torna todo o filme num objeto de entretenimento eletrizante.

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É evidente, no entanto, que a atriz principal tem mais facilidade em mostrar as suas virtudes performativas quando está na companhia de bons atores. As suas cenas com Elliott e Gay Harden são os píncaros da sua prestação, sendo que os últimos momentos partilhados com Judy Greer também merecem algum destaque pela vulnerabilidade que transparece por entre as rachas na armadura de fúria abrasiva. Quando Tomlin tem de confiar na jovem Julia Garner, a história é bem diferente, sendo que, como Sage, ela é o claro elo mais fraco do elenco. Por um lado as suas interações com os companheiros de cena são sempre desconfortáveis, e por outro, Garner nunca é capaz de tornar Sage numa plausível visão de uma adolescente que cresceu na companhia da mãe e avó que o filme lhe concede. O pior de tudo é que, depois de Elle, ela é a personagem mais central de Grandma, sendo que a sua mediocridade se torna assim numa machadada fatal à qualidade geral do filme.

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No final, Grandma é uma obra cheia de fragilidades, pequenas e monumentais, tanto a nível textual como interpretativo. No que diz respeito à sua forma, o filme não podia ser mais prosaico ou convencional, traindo a insana insolência criativa da sua protagonista titular. Mas, apesar de tudo isso, este filme contém uma das mais vistosas prestações de Lily Tomlin dos últimos tempos, pelo menos em cinema, assim como uma pequena coleção de luminosos atores secundários como os já mencionados Elliott, Harden e Greer, mas também Laverne Cox e Elizabeth Peña. Ou seja, não estamos perante nenhuma obra essencial da sétima arte, o que não implica que o filme não seja divertido ou uma boa forma de passar um agradável serão a ver o que é, à superfície, uma casual comédia sobre abortos.

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O MELHOR: As interações entre Tomlin e Elliott e Tomlin e Gay Harden.

O PIOR: A apresentação introdutória de Gay Harden a exercitar-se numa passadeira no meio do escritório e a gritar indignamente pelo seu desgraçado assistente. Para um filme tão vocalmente feminista, esta é uma piada visual que transpira de sexismo corrosivo.


 

Título Original: Grandma
Realizador:  Paul Weitz
Elenco:
Lily Tomlin, Julia Garner, Marcia Gay Harden, Sam Elliott, Laverne Cox, John Cho, Judy Greer, Elizabeth Peña, Nat Wolff
Queer Lisboa | Comédia, Drama | 2015 | 79 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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