Hannibal T1 | Em análise

 

hannibal
  • Título Original: Hannibal
  • Produtores: NBC
  • Criadores: Bryan Fuller
  • Elenco: Hugh Dancy, Mads Mikkelsen, Caroline Dhavernas, Hettienne Park, Lara Jean Chorostecki,Kacey Rohl
  • Género: Crime/Drama
  • 2013| EUA | AXN

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Surgiu este ano uma das mais aguardadas estreias na televisão americana. Na mesma altura onde o canal A&E recuperava o imaginário de Alfred Hitchcock com “Bates Motel”, a NBC debruçava-se sobre aquele que era expectável ser o melhor Hannibal desde o multiplamente oscarizado “O Silêncio dos Inocentes”.

Promessas à parte, a verdade é que a série de Bryan Fuller (Pushing Daisies, Dead Like Me) apresentou desde o seu episódio piloto (habilmente conhecido como “Aperitif”) certas peculiaridades que a afastou do cenário de cópia/remake dos filmes já conhecidos sobre o serial killer Hannibal.

Apesar de ser inspirado no romance de Thomas Harris, “Red Dragon”, Bryan Fuller apresentou a sua série como uma ‘prequela’ dos eventos ocorridos no livro, tanto que segundo Fuller “se colocássemos a série na linha do tempo dos filmes e livros, O Dragão Vermelho seria a nossa quarta temporada”. “Hannibal” foca-se então na época onde Dr. Lecter (Mads Mikkelsen) ainda era um psiquiatra de estatuto respeitável no FBI.

Hannibal - Em Análise (6)

A série tem como foco central o caso criminal que nos é apresentado no primeiro episódio. Uma investigação liderada por Jack Crawford (Laurence Fishburne) tenta desvendar um serial killer anómimo, para o qual não há qualquer pista do paradeiro. Com vista a desvendar o caso, Jack recorre a Will Graham (Hugh Dancy), um agente especial que apesar de conseguir ver o que está para além da realidade imediata, também é dono de um estado patológico preocupante. Dr. Hannibal Lecter é então o psiquiatra que tem como objetivo assegurar a sanidade mental de de Will, enquanto este ajuda o FBI a capturar os ases do crime.

O primeiro caso da série confronta-nos com o personagem Garret Jacob Hobbs, um assassino em série que “caça” as suas vítimas femininas e as trata com a mesma honra com que se despedaça um animal. E apesar de no início pensarmos que a série caminhava no rumo de “um caso diferente por semana”, a verdade é que o primeiro crime é um detalhe determinante para toda a sua evolução.

O caso resolvido no primeiro episódio, e sobretudo a captura de Garret Jacob Hobbs por parte de Will Graham, deixam marcas na mente do protagonista que sente o seu estado doentio a convergir de dia para dia para o abismo. Com a ajuda de Hannibal, Will consegue ajudar o FBI a desvendar mais criminosos, mas o fantasma de Garret Jacob Hobbs persiste em tomar Will da realidade.

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É com esta evolução quase esquizofrénica do estado mental de Will e a sua relação cada vez mais íntima com Hannibal que se vão desenvolvendo os primeiros episódios, dotados de alguns detalhes que talvez só iremos dar o devido valor no final da temporada.

Estava dado o mote de partida para um começo de forma consistente, tanto no plano dos magistrais diálogos, como no plano técnico onde o requinte impera nos cenários. É esse requinte harmónico entre a técnica e a componente argumentativa, que separam a série dos filmes. Há aqui uma frieza inesperada, onde a morte e todas as formas de morrer são objeto da estética, sendo abordadas como um retrato artístico da crueldade e da violência. Quase que nos apetece que os episódios não parem para que nós possamos ficar horas a ouvir os relatos filosóficos de Dr. Lecter no seu esplendoroso escritório.

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No entanto, a meio da temporada há alguma quebra de ritmo por força de alguns casos menos interessantes, mas que expõem alguns detalhes importantes à compreensão dos acontecimentos seguintes. O ritmo semelhante (e algo monótono) dos episódios “Ceuf” e “Coquilles”, abrem espaço para a surpresa que surge “Entreé” mas sobretudo para uma aparição posterior.

O surgir da fabulosa Gillian Anderson (“X-Files”, aqui como guest star) oferece um volte-face impressionante no seguimento da série. Gillian é Dr. Bedelia Du Maurier, uma psiquiatra que já não exerce a profissão uma vez que foi atacada por um dos seus pacientes, mas que abre uma exceção para Hannibal. E sensivelmente a partir do sétimo episódio, “Sorbet”, a qualidade volta a subir em ritmo exponencial. Somos convidados a entrar na mente de Hannibal e a aprofundar as suas tendências homicidas, enquanto este se torna cada vez mais emparelhado a Will. Os últimos quatro episódios são particularmente memoráveis atingindo níveis por vezes superiores a “O Silêncio dos Inocentes”, algo que inicialmente nos parecia utópico. E em todos esses momentos, é Mads Mikkelsen que comanda o leme.

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Ele é o foco manipulador da narrativa e muito facilmente a peça mais relevante de todo este jogo visceral. É a melhor réplica de Hannibal desde que Dr. Lecter conheceu Clarice e, sejamos sinceros, ombreia por diversas vezes com o soberbo Anthony Hopkins em “O Silêncio dos Inocentes”. É fácil reconhecer que Mads captou o requinte confinado de Dr. Lecter e expõe toda a sua complexa personalidade na expressão facial que é paralelamente semelhante aos seus altos cozinhados gourmet: não sabemos se havemos de bajular o seu aspecto e ficar sentados a olhar para a beleza do prato, ou comê-lo desenfreadamente sem pensar duas vezes na experiência gastronómica avançada a que estamos expostos. É esta ambiguidade psicológica que Mads Mikkelsen capta a cada momento: um olhar mais selvagem, um toque mais delicado, uma expressão mais intrigante. Tudo conduz para uma composição perturbadora e refinada de um serial killer que nos leva a adorar a sua malícia e a venerar todas as suas ações, mesmo sabendo que estão longe do padrão ético.

Mas Mads tem em Hugh Dancy o parceiro perfeito. Graham vê e sente as cenas dos crimes. E é isso que o ajuda a identificar os criminosos. No entanto, a empatia que sente pelos criminosos e necessidade que tem em compreender os seus motivos, definem a sua instabilidade. Hugh Dancy é progressivamente grandioso a avaliar essa instabilidade, atingindo nos últimos dois episódios o auge das suas capacidades interpretativas.

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A apontar algum defeito, teríamos e optar por dois. Primeiro, as personagens femininas não têm a importância desejada, havendo até um subaproveitamento do talento de Caroline Dhavernas, apesar de esta conseguir demonstrar todo o seu valor no derradeiro episódio. Por contraste, a personagem de Gillian Anderson e os seus diálogos com Hannibal Lecter são os pontos altos de alguns episódios.

O segundo ponto negativo que queríamos destacar é o facto de não ter sido renovada há mais tempo. Apesar dos elogios da crítica, “Hannibal” passou por diversas dificuldades para receber luz verde para uma segunda temporada. As fracas audiências, a manterem-se, dificilmente permitirão uma terceira temporada. Da nossa parte, está feita a vénia e a recomendação.

9/10

DR

Classificação por episódio:

01 – Aperitif eight
02 – Amuse-Bouche
seven_star
03 – Potage seven_star
04 – Ceuf six_star
05 – Coquilles six_star
06 – Entreé eight
07 – Sorbet nine_star
08 – Fromage eight
09 – Trou Normand eight
10 – Buffet Froid nine_star
11 – Rôti nine_star
12 – Relevés ten_star
13 – Savoureux ten_star

 

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