LEFFEST ’16 | Hell or High Water – Custe o que Custar!, em análise

Em Hell or High Water, Chris Pine, Ben Foster e Jeff Bridges protagonizam um western à moda antiga, cheio de crime, paisagens desertas, violência e amoralidade.

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Tal como o seu último, e muito celebrado, esforço cinematográfico, Sicario, o mais recente trabalho do argumentista Tye Sheridan é marcado por uma virulenta falta de originalidade. Em ambos os casos, essa anemia criativa é redimida pela execução dos seus realizadores mas, ao invés de seguir o exemplo de Denis Villeneuve, David Mackenzie não tentou, de todo, subverter os conceitos quase retrógrados do argumento. Pelo contrário, este cineasta escocês pegou no guião para um western à moda antiga, com uma pitada de amargura vinda diretamente do cinema americanos dos anos 70, e executou-o com a mais óbvia abordagem imaginável. Felizmente para ele, e para nós espetadores, a sua escolha foi frutífera e Hell or High Water é um dos filmes mais elegantes e mecanicamente primorosos deste ano cinematográfico.

No Oeste americano dos nossos dias, um par de irmãos está a meio de uma odisseia pessoal de crime, assaltando, pelo caminho, todas as sucursais do banco que está a penhorar a propriedade da sua família. Eles são Toby e Tanner Howard e imediatamente o filme estabelece duas personalidade em conflito numa brilhante sequência de assalto que compõe os primeiros minutos da história. Toby é um pai divorciado, desesperado por assegurar o futuro do filho, enquanto Tanner é um ex-presidiário com um temperamento irrascível e um perigoso gosto por carnificina.

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Paralelamente à aventura justiceira, mas ilegal, dos Howard, Hell or High Water coloca um outro duo em cena, só que este encontra-se do outro lado da justiça institucional. Eles são Marcus e Alberto, dois rangers texanos que vão perseguindo os criminosos até um desfecho violento no meio da paisagem desértica. Mas, antes de chegarem a tais epítetos de sangue e fogo, esta equipa de agentes da autoridade passa a narrativa num registo quase cómico, com os comentários casualmente racistas de Marcus a constituírem um desconfortável tipo de humor bastante apropriado ao retrato social que Sheridan e Mackenzie estão a fazer desta América perdida no tempo e nas planícies arenosas do Oeste.

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Entre bancos quase vazios, restaurantes com empregadas carrancudas e incêndios agrícolas, os dois pares de homens em busca de justiça vão encontrando os últimos vestígios de um mundo obsoleto e caído numa miséria tão material como existencialista. Neste aspeto, mais do que um thriller, Hell or High Water vai-se revelando como um poema melancólico ou um elogio fúnebre. Ao mesmo tempo que pulsa com uma persistente tristeza, o filme também se mostra como um precioso exemplo do western enquanto comentário político, algo que em tempos caracterizou o género mas que se tem vindo a perder nos últimos 40 anos de esforços revisionistas.

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Ao ressuscitar um tipo de western que parecia ter morrido nos anos 60, Sheridan acabou por alcançar uma bizarra pontada de originalidade, não através da inovação, mas sim da abjeta retoma de temas ancestrais à história do género. Longe de ser uma ponderação sobre a mitologia folclórica do Oeste americano, este filme atua como um calcinante grito de acusação contra um sistema de empobrecimento e abuso de poder perpetrado pelas sanguessugas bancárias. Indo ainda mais longe, ao posicionar os dois protagonistas criminosos como Robin dos Bosques de moral ambivalente e os rangers em sua perseguição como cansados Javerts, as escolhas textuais subjacentes ao elenco de personagens quase sugerem o arquétipo primordial, a contemporaneidade enquanto mito de si mesma.

Com esse tipo de poderosa, mas simplista, criação de personagem a nível textual, cabe aos atores trazerem necessária coerência humana e peso dramático à narrativa. Depois de ter sugerido que os seus talentos vão para além da interpretação de charmosos heróis de blockbusters, Chris Pine prova aqui que é um ator de peso e astúcia. Longe de tentar puxar para si os holofotes, Pine traz um cansaço e modéstia absoluta ao papel de Toby, construindo uma figura anti-heroica que está num constante estado de resignação para com a insanidade da sua situação. Numa ponta diametralmente oposta está Ben Foster, cuja energia e virtuosismo habituais fazem de Tanner uma figura diabolicamente magnética. Ele é uma bola de imprevisível agressividade e euforia que vai rolando pela narrativa, sempre a deixar para trás um rasto de fumegante destruição.

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Não obstante a hipnotizante presença e complexidade de Foster, neste filme, as luzes da ribalta estão única e exclusivamente focadas em Jeff Bridges. Desde que ganhou o Óscar por Crazy Heart em 2010 que este veterano do cinema americano não tinha um papel tão carnudo para fincar os dentes. Com uma mistura de casualidade, humor e uma boa dose de ameaça, Bridges faz de Marcus a inesperada estrela do filme, mesmo que as suas ações e comentários sejam de uma moralidade tão dúbia como a dos criminosos que persegue. Por outro lado, a personagem mais subdesenvolvida do filme é o seu parceiro que, tendo em conta a sua etnia e função narrativa, acaba por ser reduzido ao estatuto de adereço, o que é uma marca muito negativa contra a integridade do projeto.

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Para além desse triste exemplo de racismo ou desatenção dramática, Hell or High Water padece dessa já mencionada falta de originalidade. A direção e execução formal, assim como o elenco, fornecem muita polidez ao projeto, especialmente a montagem cheia de adrenalina e suspense e a fotografia de tableux épicos e grandiosamente horizontais. E, no final, isso acaba por conflagrar tudo numa experiência de prazerosa eficiência cinematográfica que pode não ser extraordinária, mas está também longe da mediocridade ou da indiferença. Para fãs de westerns, este filme não é só visionamento obrigatório, mas sim um néctar dos deuses do cinema.

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O MELHOR: O trio de valerosas prestações de Pine, Foster e Bridges.

O PIOR: O modo como o texto trata e negligencia a personagem de Alberto.



Título Original:
 Hell or High Water
Realizador: David Mackenzie
Elenco:
 Chris Pine. Ben Foster, Jeff Bridges,  Gil Birmingham, Dale Dickey

NOS | Drama, Thriller, Western | 2016 | 102 min

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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