Diz-se que o argumentista polaco Krzysztof Piesiewicz terá tido a ideia para a sua obra-prima quando contemplava uma iluminura medieval que interpretava os Dez Mandamentos segundo as realidades contemporâneas do século XV. Em colaboração com Krzysztof Kieślowski, o argumentista passou os últimos suspiros do comunismo polaco a escrever o seu “Dekalog,” uma produção de épica envergadura, consistindo em dez capítulos, cada um com uma hora. Cada episódio dramatiza um Mandamento, situando a sua ação no mesmo complexo de apartamentos de tradição soviética.
Em 1989, este monumento de dez horas estreou no Festival de Cinema de Veneza, depois de, no ano anterior, o seu Quinto e Sextos Mandamentos terem sido projetados em Cannes em versão estendida. “Não Matarás” e “Não cometerás Adultério” tornaram-se em “A Short Film About Killing” e “A Short Film About Love,” esbatendo ainda mais a fronteira entre o cinema e a televisão que todo o “Dekalog” põe em dúvida. Independentemente de ser considerado um feito do pequeno ou do grande ecrã, este projeto marcou todos os que a ele assistiram, inclusive artistas que cresceram e desenvolveram a sua arte à sombra desse monumento.
Mais conhecido pelas suas responsabilidades como realizador, Kieślowski continuou a colaborar com Piesiewicz, assinando “A Dupla Vida de Véronique” em 1991 e a “Trilogia das Três Cores” entre 1993 e 1994. Este último seria o derradeiro trabalho de Kieślowski, que morreu inesperadamente em 1996 durante uma cirurgia cardíaca. Ao longo dos anos, Piesiewicz tem perpetuando o legado do amigo, chegando mesmo a completar outra trilogia que os dois tinham escrito – “Paraíso,” “Inferno” e “Purgatório” – com a ajuda de outros realizadores. Em 2025, foi anunciado um projeto ainda mais ambicioso.
Enquanto produtor, Krzysztof Piesiewicz organizou a reinvenção do “Dekalog” pela mão de dez realizadores contemporâneos, com dois capítulos a estrear no circuito festivaleiro deste ano. O primeiro deles nasceu da imaginação de Asghar Farhadi, o mestre iraniano por detrás de tais maravilhas como “Uma Separação” e “O Vendedor,” que interpretou o Sexto Mandamento para um novo contexto francês. Marca-se, assim, a terceira vez que Farhadi faz um filme fora do Irão e, como sempre, parece haver uma certa perda na tradução da sua dramaturgia persa para outras línguas e sociedades, realidades com as quais está menos familiarizado e que observa de fora.
Asghar Farhadi em diálogos post-mortem com Krzysztof Kieślowski.

Dito isso, esta é também a primeira obra estreada depois do realizador ser alvo de múltiplas acusações de plágio por parte de antigos alunos. “Histórias Paralelas” carrega o fardo dos legados de Kieślowski e Piesiewicz – que morreu pouco depois da fita estrear na competição pela Palma de Ouro em Cannes – e de defender a honra do seu criador. Em ambos os casos, é um fracasso. Contudo, não se trata de uma dessas catástrofes cinematográficas sobre as quais nada há de valor a dizer, nenhuma análise merecida. Por exemplo, um dos grandes problemas com que Farhadi se depara é a sua fidelidade à imponência histórica do “Dekalog.”
Em Veneza, Lee Chang-Dong estreou “Possible Love” em reinterpretação do décimo episódio e mandamento, “Não Cobiçarás,” e tão distante da escrita de Piesiewicz que o seu nome nem aparece nos créditos como referência para o argumento. O filme de Farhadi não segue a mesma linha de desapego total em relação ao “Dekalog” original, recorrendo a muitos elementos da conceção que os polacos deram ao Sexto Mandamento. De novo, temos um conto de voyeurismo, em que um jovem espia a vizinha e contempla a sua vida erótica, deixando-se apaixonar pela projeção dos seus desejos sobre uma figura que, na realidade, não conhece com qualquer intimidade nem com comunicação genuína.
Assim, pensam-se as moralidades abraâmicas através de uma premissa salaz ao estilo da “Janela Indiscreta.” Só que Farhadi, na posição em que se encontra presentemente, corrompe essa premissa com complicações adicionais e uma autorreflexão defensiva e muito amargurada. Por conseguinte, o filme gira em torno de artistas em uma canibalização ativa da vida uns dos outros, voyeurs cujas conjeturas dizem mais sobre si mesmos do que sobre os alvos de sua curiosidade. Tudo começa com um aparente acaso, quando o jovem Adam recupera a carteira furtada de Laurence no metro de Paris e ganha a confiança da senhora.
É assim que ele acaba por trabalhar para a tia da senhora, uma escritora tão excêntrica quanto reclusa – Sylvie. Sem inspiração para o próximo romance, ela começou a vigiar as vidas alheias que conseguia ver da sua janela e concebeu uma fanfic em que entrelaça detalhes da sua própria vida. Ou, pelo menos, é essa a insinuação que “Histórias Paralelas” parece fazer. Só que, para Adam, este jogo ganha novas dimensões, com o jovem a tornar-se um fiel acólito das práticas voyeurísticas com que Sylvie passa os seus dias. E ele vai mais além ainda, entrando em contacto com a gente real sobre a qual as ficções da escritora se constroem, quiçá motivado pela perversa ideia de que os conhece através da perspetiva alheia.
Entre voyeurismo, plágio, artifícios da ficção e projeção emocional.

Tal como Sylvie, Adam parece especialmente obcecado com a engenheira de som que passa os dias a trabalhar num estúdio de pós-produção com janelas perpetuamente abertas, outra fábrica de falsidades em semelhança com os escritos da autora, sempre à vista e mercê dos voyeurs. Mas essa mulher é muito diferente da ficção que impõe sobre si e muito mais distante das projeções pseudo-românticas que Adam faz sobre ela. A primeira metade de “Histórias Paralelas” omite a verdade da vizinha espiada, entrecortando a relação atribulada entre Sylvie e Adam, artista e seu assistente, com uma dramatização do texto que ela vai compondo. Um melodrama pouco convincente, um eco enfraquecido dos melhores trabalhos de Farhadi.
A segunda parte confronta-nos com a realidade complicada dos vizinhos, a verdade por detrás da mentira e a sua reação perante o vampirismo literário e emocional que Sylvie e Adam impuseram às suas vidas. Dramaturgicamente, o filme ganha fulgor na segunda hora, mas há muito mais interesse estético na primeira metade de “Histórias Paralelas.” A fotografia de Guillaume Deffontaines faz bom uso de distorções anamórficas e exposição exagerada que descarna a cor dos sujeitos perante a câmara e assim diferencia a banalidade do mundo real daquelas histórias na cabeça da escritora e seu assistente. Perde-se muito do rigor formal quando a verdade empurra essas ficções para as margens da fita.
Em contrapartida, temos aquele fulgor já referido e uma maior ênfase em Virginie Efira e sua peculiar química com Adam Bessa. Isabelle Huppert é uma presença magnética, mas não faz muito com uma personagem que deve tanto a Kieślowski e Hitchcock quanto a Highsmith e Simenon. Há muita referência à mistura, muito astro em órbita de um centro gravitacional oco, um fome insaciável que consome as tragédias alheias sem, no entanto, se afirmar enquanto personagem interessante por si só. Bessa é um abismo ainda mais profundo, mas há mais propósito no seu mistério do que no de Huppert, especialmente porque suas motivações, paixões e frustrações são muito mais difíceis de atribuir a qualquer arquétipo ou modelo narrativo.
Efira, Vincent Cassel e Pierre Ninney saem-se melhor na realidade das suas personagens do que Huppert ou uma Catherine Deneuve de passagem numa só cena. Contudo, alguns dos desenvolvimentos do seu enredo tendem para o lugar comum, banalizando “Histórias Paralelas” de um jeito que nada tem que ver com a glória do cinema de Farhadi feito na sua língua materna. Falta especificidade a este conto, mesmo com todas as citações ao original polaco, à Bíblia e uma série de outras referências, até aquele apelo final à imaginação soa a balelas depois de “Histórias Paralelas” ter exausto o espectador durante mais de duas horas. O filme vale por algumas ideias interessantes, por Bessa e Efira, mas pouco mais. É um trabalho menor dentro de uma grande filmografia e uma tentativa débil de recapturar a magia do “Dekalog.”
Histórias Paralelas
Conclusão:
- Antes de morrer, Krzysztof Piesiewicz organizou o renascimento da sua maior obra-prima – O “Dekalog” que Krzysztof Kieślowski realizou nos últimos dias do comunismo na Polónia. Tal como o primeiro projeto se inspirou numa interpretação contemporânea dos Dez Mandamentos, também esta nova permutação da ideia seguirá essa estrutura. Mas não têm que ser remakes diretos. Farhadi realmente afasta-se do conto de voyeurismo erótico do original, mas não vai tão longe como Lee Chang-do com o seu “Possible Love,” vencedor do Leão de Prata em Veneza.
- Falta especificidade nas observações sociais que o iraniano faz da sociedade francesa e as noções exploradas sobre as componentes mais oportunistas do impulso artístico e o modo como muitas vezes preferimos as ficções que pensamos sobre estranhos à realidade dessa gente. É pena, portanto, a falta de ritmo, desperdício de um grande elenco – com potencial exceção de Adam Bessa e Virgnia Efira – alguns gestos formais que conjuram otimismos prematuros e por aí além. Não admira que o filme tenha sido tão mal recebido em Cannes, mas louvamos a Alambique e a Festa do Cinema Francês por apostarem nesta visão de canibalismo literário e voyeurismo que transcende o erótico para almejar algo mais próximo do existencialismo.
- Pelo menos, se é isto que acontece quando Farhadi tenta ecoar o trabalho de outrem, talvez aquelas acusações de plágio tenham menos fundamento do que pareciam. Ou talvez isto seja tudo culpa do coargumentista Massoumeh Lahidji, com quem o realizador já havia colaborado noutra fraca façanha do cinema francófono, “O Passado.” Digo isto quando bem sei que Lahidhi também escreveu a “Cópia Certificada” de Kiarostami, um dos melhores filmes do século XXI! Enfim, até os melhores artistas erram de vez em quando. São estas obras a exceção que prova a regra da sua excelência.



