13º IndieLisboa | Brüder der Nacht, em análise

Em Brüder der Nacht, um grupo de prostitutos búlgaros a viver em Viena, partilham histórias das suas vidas por entre uma surpreendente e poderosa tapeçaria de artificialismo romântico conjurada pelo realizador Patric Chiha.

No seu mais recente filme, Brüder der Nacht, o realizador libanês Patric Chiha propôs-se a retratar e documentar as vidas e histórias de um grupo de jovens ciganos búlgaros a viver na Viena contemporânea. Desprovidos, negados ou intencionalmente incapazes de encontrar outras oportunidades ou caminhos de vida, estes homens prostituem-se como modo de subsistirem. No seu país de origem ficaram famílias, mulheres e filhos meio esquecidos, mas nas noites austríacas estes indivíduos vendem os seus corpos a outros homens, mesmo que estejam constantemente a falar de como planeiam ir a bordéis ou encontrar-se com mulheres. Afinal, há que se viver, e para tal é necessário dinheiro.

Brüder der Nacht

Para trazer ao ecrã tais vidas, Chiha utilizou os verdadeiros prostitutos que servem como seu sujeito, para se interpretarem a si mesmos. Tal escolha converte este filme num documentário, com a câmara do libanês a seguir estas criaturas da noite durante semanas, e principalmente filmando inúmeros relatos que eles fazem sobre as suas vidas. Memórias e incontáveis histórias do seu penoso e carnal ofício. Tais representações poderiam parecer punitivas ou incrivelmente deprimentes, mas há uma grande vitalidade em tudo o que vemos desenrolar-se em Brüder der Nacht assim como uma desconcertante casualidade por parte dos homens que relatam as suas vidas para a câmara. Nesse aspeto, Chiha parece ter capturado algum do génio realista, ou neorrealista, de realizadores como Pasolini, ou mesmo o recentemente falecido, Claudio Caligari, que fundiam realidade documental com drama, em maravilhosas e importantes obras de cariz social e humano.

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Apesar destes comentários sobre o realismo que o filme procura, é importante sublinhar quão antirrealista grande parte das escolhas estilísticas são. Aliás, mais do que sugerirem cinema clássico ou naturalista, as técnicas usadas por Chiha em Brüder der Nacht estão bastante próximas do cinema romântico. Nomes como Fassbinder e Sirk estarão na ponta da língua de muitos, incluindo o realizador, e com razão. Logo na sequência que abre o filme, isto se tornará óbvio. As águas do Danúbio não são vítimas de algum cenário ou reprodução de estúdio, sendo a realidade encontrada pelo realizador, mas, ao filmá-las, Chiha exacerba a sua beleza estética, destaca as cores vivas que se refletem na sua superfície espelhada durante as horas de noite e tudo isto acompanha com melodias de Mahler. Quando finalmente nos deparamos com alguns dos nossos protagonistas marginalizados, eles estão vestidos como marinheiros. Mais do que um documentário, audiências desinformadas poderão racionalmente assumir que estão a testemunhar uma estranha obra inspirada em Querelle ou outra criação de Jean Genet, um sentimento que apenas se intensifica quando chegamos ao bar onde estes jovens passam as noites e praticam o seu ofício. Com as suas paredes forradas a espelhos, atmosfera conspicuamente saturada de fumo e geral aparência de decadência desavergonhada, é difícil acreditar que tal espaço não é um antigo cenário de Fassbinder que Chiha desencantou de algum inexistente armazém.

Brüder der Nacht

Sob esta perspicaz e elegante câmara dirigida por Chiha, lutas amistosas entre estes homens parecem danças refletidas em espelhos antigos, sussurros frustrados insinuam beijos nunca dados e uma ternura fraternal transmuta-se em potente energia erótica. Em suma, nestas vidas dominadas pelo sexo, tudo parece transpirar desejo e luxúria. No entanto, ao contrário dos seus clientes, Chiha parece evitar a exploração desumana, sendo que, sob o seu olhar, estes homens são mais heroicas divindades dignas de fascínio do que qualquer tipo de vítima indigna. Para além do mais, ao exacerbar a proximidade entre os homens, Chiha realça uma das mais interessantes facetas destas vidas entrelaçadas que é o modo como, na sua camaradagem, estes jovens criaram uma peculiar ilha de aceitação e amizade, onde vivem as suas vidas, sem julgamentos ou estúpidos moralismos. A própria abordagem de Chiha parece seguir esta camaradaria, recusando desnecessários julgamentos que estariam em completa discordância com o resto deste filme.

Chiha não é nenhum autor literário oitocentista a tentar dramatizar vidas empobrecidas e nelas ver a nobreza de mártires. O papel do elenco de não atores é de particular importância nesse delicado balanço que Brüder der Nacht demonstra entre artifício romântico e casual humanismo. Com atores a simplesmente interpretarem estas vidas, seria possível que o dramatismo inerente à mise-en-scène conseguisse dominar todo o filme, mas a força das “personagens” afugenta tais possibilidades e desequilíbrios. Mesmo quando estão vestidos como marinheiros, em clara pose, estes jovens prostitutos e suas palavras são dotados de uma vivência que transcende e complementa os devaneios estilísticos de Chiha, e faz com que gráficas descrições de inúmeros atos sexuais nunca pareçam choques gratuitos, mas sim uma parte integrante das suas vidas.

Brüder der Nacht

E aí está grande parte do relativo génio estético de Chiha. Nos píncaros do artificialismo inerente a cinema romântico, este realizador maneja descobrir algo sincero, autêntico e cortante. A sua homenagem a Fassbinder e mesmo a Sirk, ultrapassa as barreiras da fútil superficialidade, sendo que este austríaco parece ter realmente traduzido parte do que fazia desses autores, verdadeiras divindades do cinema, a de encontrarem através do uso do fausto e falsidade do melodrama, verdades e realidades humanas que muitos preferem ignorar ou marginalizar. A sua crítica social é feita a partir de luz teatral e atmosferas de decadente luxúria, mas isso não quer dizer que tenham necessariamente menos valor que algo mais gritty, rude ou próximo da usual convenção do que é o realismo social em cinema.

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Tanto pela sua forma, ou como pela desdramatização inerente ao trabalho dos seus “atores”, Brüder der Nacht é uma magnífica obra de cinema documental, um hibrido de louvar e que reverbera com a energia das vidas em si retratadas. Veja-se o final do filme, uma festa no bar que é central à vida profissional e social destes prostitutos. Não há preocupação com moralidade ou elitistas conceitos de politicamente correto nesta celebração. Não há pudor estúpido e desnecessário nestes corpos em furor, nem mesmo normas sexuais nas suas interações. Tais limites, pelo menos na perspetiva adotada pelo filme, são meras convenções que não têm lugar na complexa e complicada realidade que são estas vidas.

Brüder der Nacht

No final, estes irmãos da noite estão presos, enclausurados na sua situação económica e no seu estilo de vida, mas, curiosamente, temem o fim da sua sentença. Impiedoso, o tempo vai passando e brevemente, estes homens deixarão de ser jovens e os seus corpos deixarão de ser visões de musculosa vitalidade e juventude erótica. Brevemente, eles serão como os prostitutos trintões que eles referem em gozo. A própria Bulgária e a vida que eles deixaram para trás é como um fantasma que assombra o filme, ameaçadoramente sugerindo o dia em que eles terão de abandonar esta vida e voltar a outra existência, menos hedonista e carnal, mas também sem oportunidades ou futuros atraentes. No entanto, enquanto estão ainda jovens em Viena, eles festejam pela noite dentro com danças de erótica masculinidade, com fumo a dramaticamente encher o ar e luzes coloridas a pintar abstrações de cor em todas as superfícies. A música vai pulsando e os corpos vibram, como chamas a arder com uma intensidade desmesurada como que a compensar pelo seu eventual apagamento. Eles cheios de vida, mesmo que só por mais esta noite e assim o mostram e celebram.

Brüder der Nacht

O MELHOR: O modo desdramatizado com que os jovens recontam e interpretam as suas histórias.

O PIOR: Por vezes, especialmente nas suas escolhas musicais e editoriais, Chiha parece querer insinuar em demasia uma melancolia trágica no retrato do filme. Tal escolha parece sempre inapropriada para a restante generalidade de Brüder der Nacht.


 

Título Original: Brüder der Nacht
Realizador:  Patric Chiha
Documentário, Drama | 2016 | 88 min

Brüder der Nacht

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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