13º IndieLisboa | Raiders of the Lost Ark: The Adaptation, em análise

Raiders of the Lost Ark: The Adaptation será certamente uma das mais invulgares e gloriosas obras em exibição no presente IndieLisboa, sendo uma verdadeira carta de amor cinematográfica concebida pela mão de engenhosos jovens com aspirações de cineastas amadores.

Raiders of the Lost Ark: The Adaptation

Nas mais recentes décadas da história do cinema, com a crescente predominância de franchises que parecem exigir devoção quase religiosa aos seus muitos fãs, têm-se vindo a registar variados fan films, obras criadas pelos fãs dos filmes. Apesar desta crescente existência de obras amadoras, é raro encontrar-se algum projeto que se predisponha a recriar, plano por plano, e sem preocupação pelos limites logísticos de tal aventura, o filme que tanto capturou a imaginação de algum jovem cineasta amador ou inventivo cinéfilo. Isso é uma das razões pela qual Raiders of the Lost Ark: The Adaptation é uma obra extremamente singular e impressionante, mas não é certamente a única.

Para começar, é melhor um pouco de história, não da sétima arte em geral, mas deste particular sonho cinematográfico. Em 1981, estreou nos cinemas americanos um dos mais populares filmes do deus do cinema populista que é Steven Spielberg, Os Salteadores da Arca Perdida. No estado do Mississippi, três jovens nos primeiros anos da sua adolescência viram esse filme e ficaram completamente enfeitiçados. Já em 1983, este grupo de cineastas amadores deu início a um ambicioso projeto, recriar o filme, imagem por imagem. Com a ajuda de seus pais, amigos, e uma infinidade de organizações, negócios e indivíduos locais, eles foram avançando com o seu projeto, chegando a um estado de relativa finalidade em 1988, sendo que apenas uma cena faltava ser reproduzida. Durante os muitos anos de produção, amizades foram testadas e quebradas e o projeto acabou por ficar aquém dos sonhos iniciais, caindo num triste esquecimento. No entanto, Eli Roth miraculosamente descobriu uma gravação do filme em 2002. A partir daí, esta singela criação infantil foi redescoberta e tornou-se, em seu próprio direito e mérito, uma obra de fascínio e devoção. Tantos fãs este projeto alcançou com a sua redescoberta que, em 2014, com fundos reunidos no Kickstarter, a equipa original, agora adulta, conseguiu completar a sua obra. A versão que foi exibida no IndieLisboa, convém apontar, já integra as duas fases de produção, as filmagens nos anos 80 e a mais recente concretização da cena de ação em que Indy e Marion tentam fugir num avião nazi.

Raiders of the Lost Ark: The Adaptation

Com tudo isto em conta, é fácil perceber pela qual todo o filme, com singular exceção dessa sequência no aeródromo, é concebida de um modo que se poderia chamar primitivo. No entanto, tal palavra parece ser insultuosa e tal não é a intenção da sua utilização. Primitivo em termos técnicos, mas não em termos criativos. Aliás, parte da glória de ver este milagre de perseverança juvenil e amor cinéfilo, é mesmo a de ver como este grupo foi resolvendo os desafios que obviamente advêm de tal proposta de recriação de um dos mais adorados blockbusters da década de 80. Spielberg teve milhões para criar o seu filme e todo o fausto e técnica virtuosa de Hollywood, enquanto Eric Zala, Chris Strompolos e Jayson Lamb apenas tiveram as suas mesadas e algumas prendas de natal e aniversário, assim como o apoio familiar que, mesmo assim, apenas lhe permitia filmar durante as férias de Verão.

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É fácil rirmo-nos do ridículo que é o produto final, mas é também fácil nos deixarmos levar pelo seu peculiar feitiço. Afinal, estamos a ver a história de Indiana Jones na sua primeira grande aventura cinematográfica e tal é invariavelmente excitante, mas, ao mesmo tempo, estamos, cena a cena, a participar num jogo de expetativas e surpresa à medida que ponderamos e imaginamos como estes miúdos vão resolver os problemas que o filme de Spielberg revela para amadores a o tentarem recriar. Acabamos por estar a presenciar duas aventuras em paralela existência, a de Indy e dos cineastas. Aliás, parte da delícia de ver o filme é observar o crescimento destes sonhadores, ver Strompolos beijar uma rapariga pela primeira vez na pele do célebre arqueólogo de Harrison Ford, ou observar como, agora com mais de 40 anos, estes amigos se voltaram a reunir para completar as suas ambições infantis mesmo depois de muito a sua relação se ter deteriorado durante estas várias décadas.

Raiders of the Lost Ark: The Adaptation

Mas não torcemos apenas pelo sucesso dos cineastas e observamos com deleite a criativa captação em vídeo do seu crescimento. Em certas ocasiões, quase que ficamos assustados pela vida dos protagonistas juvenis, ao observar as suas perigosas experimentações com pirotecnia ou a concretização da perseguição automóvel em que Indy é arrastado pelo chão enquanto é puxado pelo veículo que transporta a arca titular. Fazer um filme deste calibre não é tarefa fácil ou segura e não é com facilitismos que uma garagem se torna num misterioso estabelecimento nas montanhas do Nepal ou um quintal se torna numa selva cheia de mortíferos segredos.

Voltando à relação que este filme tem com o original Salteadores da Arca Perdida, uma das coisas que se tornam óbvias com a rudimentar técnica desta adaptação é quão classicamente eficiente é a estrutura do original Indiana Jones. Mesmo quando confrontados com esta interpretação infantil e amadora, com todas as suas muitas limitações, ver esta aventura de Indiana Jones consegue ter algum do valor de adrenalina e entretenimento desse triunfo do cinema de ação e aventura. Por outro lado, também é bastante curioso como, ao arrancar ao enredo a pátina polida conferida por Hollywood, assim como a luminosidade dos seus atores estrelas de cinema, a adaptação revela alguns dos mais enraizados problemas de Raiders of the Lost Ark, nomeadamente terríveis e limitadas caracterizações que ameaçam converter-se em completos cartoons e diálogo indubitavelmente ridículo.

Raiders of the Lost Ark: The Adaptation

Quando começamos a pensar em tais relacionamentos com a obra que homenageia, Raiders of the Lost Ark: The Adaptation pode deixar de ser somente analisado como um fan film e ser mesmo encarado como uma obra de cinema independente. Haverá algo mais marcadamente independente que um grupo de miúdos, sem meios, a tentar copiar a glória e sofisticação de Hollywood, aprendendo e experimentando técnicas de cinema pelo meio. Ao longo da história do cinema independente nos EUA, especialmente a partir das décadas de 80 e 90, Hollywood e os indies estão numa constante relação de conflito, mútua homenagem e simbiose, basta ver-se as origens, inspirações e legado de cineastas como Quentin Tarantino e Kevin Smith para se verificar essa mesma verdade. Com tudo isto em conta, poder-se-ia mesmo dizer que, de todos os filmes que integram o IndieLisboa, Raiders of the Lost Ark: The Adaptation é muito provavelmente aquele que melhor e mais puramente engloba o conceito de cinema independente, especialmente o dito american indie e sua peculiar relação com Hollywood.

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Transcendendo o cinema independente americano e olhando a evolução deste meio artístico, vários movimentos e pensadores de alto gabarito intelectual falaram e defenderam a democratização da arte do cinema, a possibilidade de qualquer um para criar um filme. Parte desse pensamento foi o que impulsionou muitos autores da vanguarda em meados do século passado, que fugiam aos limites dos estúdios ou às convenções enraizadas nas grandes instituições da sétima arte. A um nível bastante superficial, estes fãs devotos de Indiana Jones não terão muito em comum com tais potências intelectuais, mas o facto é que poucas vezes na história desta arte, um filme demonstrou de tal modo esses mesmos conceitos da democratização da arte, do simples amor de um cinéfilo pela magia do cinema. É certo que este filme é imaturo e completamente inocente, algo que apenas se exacerba com os divertidos e caricatos créditos finais e sua longa lista de agradecimentos, mas isso não impede esta obra de ser uma das mais gloriosas cartas de amor alguma vez concebidas ao cinema. Mais do que objeto de troça, esta é uma peça digna de louvor, admiração e celebração. Afinal, se o próprio Steven Spielberg (ou Spielburg segundo os créditos que abrem este filme) aprovou e mostrou admiração por esta obra, quem somos nós para não a adorar?

Raiders of the Lost Ark: The Adaptation

O MELHOR: A ingenuidade e engenho dos cineastas juvenis aquando da construção de alguns dos mais complicados efeitos especiais do filme.

O PIOR: O contraste entre as filmagens da década de 80 e de 2014 é fascinante e digna de análise, mas é certo que se perde alguma beleza e inocência com a polidez e eficiência plástica desta recente adição.


 

Título Original: Raiders of the Lost Ark: The Adaptation
Realizador:  Eric Zala
Elenco: Chris Strompolos, Angela Rodriguez, Eric Zala
Aventura, Ação | 1989/2014 | 100 min

Raiders of the Lost Ark: The Adaptation

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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