13º IndieLisboa | James White, em análise

James White é um jovem nova-iorquino em egoísta auto destruição que se vê forçado a cuidar da sua mãe, em rápido definhar causado pelo cancro, neste novo drama de Josh Mond.

james white

Desde o final dos anos 60 que John Cassavetes se tornou um nome de referência incontornável no panorama do cinema independente americano. As suas obras tardias, com especial ênfase para Uma Mulher Sob a Influência tornaram-se como que a pedra basilar para muitos cineastas futuros que viram nessas explorações naturalistas de problemas psicológicos de personagens da contemporaneidade, um perfeito molde cinematográfico. Como consequência desta importância histórica, os métodos de trabalho com atores e a estética dos filmes tardios de Cassavetes tiveram o infortúnio de se tornarem eles mesmos numa convenção limitante. James White, a primeira longa-metragem de Josh Mond, é um filme completamente enclausurado em tais padronizações estéticas, mas, apesar disso, consegue ser um dos filmes em recente memória que utiliza de melhor modo esse tipo de discurso que já nada tem de novo ou arriscado.

Uma primeira leitura de qualquer sinopse do filme ou visionamento de algum vídeo promocional pouco farão para reconfortar quem sinta aversão aos mais corrosivos clichés do indie americano atual. Afinal, temos aqui mais uma obra filmada em digital, com uso exclusivo de luz natural, que exacerba a importância do trabalho de seus atores num registo hiper naturalista, e que toma como seu protagonista, um jovem adulto nova-iorquino sem aparente rumo na sua vida, a não ser um progressivo afogamento nas profundezas da sua própria lassitude existencial. Apesar desta descrição pouco generosa, James White é portador de uma peculiar maturidade, revelando-se como um incisivo estudo de personagem assim como um dos mais dolorosos dramas domésticos a sair dos cânones do cinema independente americano dos últimos tempos.

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A narrativa do filme inicia-se com o nosso protagonista titular a cambalear para fora de um bar em pleno dia, indo diretamente daí para a shivá que está a decorrer no apartamento da sua mãe em luto do seu pai, que há muito é uma figura ausente na vida do filho e da ex-mulher. Logo a partir desta sequência, as duas facetas mais marcantes de James são estabelecidas, o seu decadente e errante estilo de vida em que parece estar a tentar esgotar a sua juventude e vitalidade antes de chegar aos 30, e a sua próxima, protetora e terna relação com sua mãe, Gail. Depois destes momentos, que terminam com o jovem inebriado a expulsar a maior parte dos seus convidados do apartamento que ele também habita, vemos mais uma série de tableaux em que o volátil temperamento de James é posto em enfoque. Ele envolve-se em fúteis e desnecessários conflitos num bar, destrói qualquer possibilidade de arranjar um emprego ao aparecer numa entrevista a feder de álcool, e outras situações semelhantes. Eventualmente, como menino de privilégio e dramática depressão que ele é, James decide ir passar uns tempos ao México, para relaxar e arejar as ideias. Lá, ele conhece e inicia uma relação como uma outra nova-iorquina em viagem, mas o seu idílico repouso no estrangeiro depressa é trazido a uma abrupta conclusão quando ele recebe uma chamada de sua mãe. O cancro de Gail voltou em força e está a espalhar-se. Ela precisa da presença e ajuda do filho.

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Com a reunião de James e sua mãe, James White finalmente começa a mostrar a grandeza que parece sugerir desde a primeira sequência, em que os pequenos detalhes de uma vida filmada in media res demonstram uma certa mestria no retrato naturalista de uma personagem complexa. A partir deste retorno a Nova Iorque, James é forçado a ser o completo alicerce e cuidador de sua mãe, cujo corpo parece estar num rápido processo de putrefação em vida. À medida que Gail definha, James não acalma as suas tendências auto destrutivas e as duas linhas motoras do enredo e da sua vida presente começam a entrar numa espiral em rápida trajetória descente. A morte paira no ar como uma névoa pegajosa e inegável, mas não é somente a morte de Gail, pois, é bastante sugerido que, depois de tal ocorrência a vida de James irá completamente mudar. O que será deste jovem sem rumo quando a sua mãe já não estiver lá para necessitar do seu apoio constante? Desengane-se quem pensa encontrar uma pitada de leveza nesta narrativa, pois este é um filme que facilmente se poderia caracterizar como uma vagarosa e ponderada marcha até à miséria pessoal.

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Podemos certamente louvar com vastas elegias o trabalho de Josh Mond enquanto realizador e guionista, mas há que se admitir que a grande razão pela qual James White se eleva acima de tantos outros indies americanos é o duo de magistrais prestações no seu centro. Christopher Abbott como a personagem titular é uma metade deste par, e seu trabalho é indispensável para o sucesso do filme enquanto retrato humano de uma crise pessoal e doméstica. Basicamente, Abbott tem a plena inteligência de nunca tentar pedir simpatia à sua audiência, concebendo o retrato de um jovem que facilmente vemos como alguém insuportável e extremamente repreensível na sua atitude e comportamento para com os outros. Com exceção da sua mãe, James vive numa pequena ilha de egoísmo e auto vitimização, como que celebrando a sua imaturidade com copiosas quantidades de intoxicantes e sempre exibindo-se como um indiscutível cretino. Isto é, quando está fora do alcance de sua mãe, com quem James não deixa de ser impertinente, mas também é um filho desesperado em preservar a vida da mãe e que eventualmente se apercebe que o máximo que pode fazer é atenuar o sofrimento dela enquanto esta caminha a passos largos para sua morte. A admiração e compaixão que acabamos por sentir por James é, consequentemente, um completo fruto da credibilidade do retrato de Abbott e não de qualquer forçada construção dramática. Sentimos simpatia por James porque afinal ele é um ser humano, numa situação de irremediável sofrimento, não porque o filme nos condiciona a tal reação por mecanismos narrativos de artificial glorificação do protagonista.

É claro que Christopher Abbott nada seria sem Cynthia Nixon que aqui constrói a mais impressionante interpretação da sua carreira. Inicialmente, parece que ela vai ser mais um cliché da mãe exasperada que se preocupa com o futuro do seu filho irresponsável, como já se viu em tantos indies menores, mas a atriz, especialmente nas cenas tardias, depressa revela especificidades no seu retrato que transcendem os limites do texto. Quando o filme entra na fase em que se torna uma exposição do definhar físico e mental de Gail, então Nixon rivaliza a titânica intensidade de Rowlands no melhor de Cassavetes. Ou melhor, com a sua anti intensidade, Nixon rivaliza essa lenda, pois o génio deste trabalho é o modo como Gail parece viver num estado de constante fúria e angústia, mas está de tal modo reduzida a um estilhaço humano que nem sequer tem forças para exprimir tais tormentas interiores.

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Na mais inesquecível e marcante sequência do filme, James vê-se a passar uma noite infernal quando Gail apresenta uma febre que teima em não atenuar. Desesperado ele telefona para um hospício, e tudo tenta para atenuar o sofrimento da mãe e os dois eventualmente acabam na casa-de-banho do apartamento. Ela precisou de ir urinar, mas não se consegue sequer aguentar sentada pelo que tem de se apoiar no peito de seu filho. James, pela sua parte, começa a contar uma história fantasiosa de um futuro risonho em Paris. Vemos nas caras de ambos, que não se olham, que tanto James como Gail estão perfeitamente cientes que tal nunca vai acontecer, mas estas duas almas desesperadas ficam ali, a segurar-se um ao outro, em mutuo reconforto e com as posições de pai e filho quase que perversamente invertidas.

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Com tudo isto em consideração, é justo dizer que, apesar da sua abjeta falta de originalidade formal ou temática, James White é uma flor que cresce, perfurando o oceano de alcatrão uniforme na sua mediocridade que é tanto do panorama independente americano. Como retrato humano é uma preciosidade imensa, mostrando níveis de maturidade, respeito pelas suas personagens, e minuciosa atenção às mais feias facetas da interação maternal, filial e fraternal. Não é um filme para se ver de ânimo leve, tendo uma das mais francas e dolorosas representações do processo de um ser humano a morrer dos últimos tempos de cinema, mas é, de facto, uma obra de indiscutível valor.

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O MELHOR: As duas supernovas de genialidade interpretativa que são as prestações de Abbot e Nixon.

O PIOR: Para além da anti originalidade da abordagem diretorial de Mond, a quebra estrutural da viagem ao México nunca deixa de parecer imensamente desnecessária para o tipo de estudo de personagem pretendido pelo resto de James White.


 

Título Original: James White
Realizador: Josh Mond
Elenco: Christopher Abbott, Cynthia Nixon, Scott Mescudi
Drama | 2015 | 85 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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