13º IndieLisboa | Jia, em análise

Em Jia, ou The Family, Shumin Liu concebe um majestoso retrato das três gerações de uma família na China contemporânea, ficando, no entanto, sempre aquém da grandiosidade humanista que parece sugerir.

Jia the family

Em cartoons, ou comédias que gostem de brincar com ilustrações sonoras, quando algo corre mal ou, repentinamente, uma situação deixa de ser positiva e resvala para algo desagradável, ouvimos o ruído de uma agulha a riscar um disco. Esse som, do ponteiro de um gira discos a se desviar do seu melodioso propósito, ganha forma de cinema nos últimos 10 minutos de Jia, a primeira longa-metragem de Shumin Liu. Ênfase especial na palavra longa, pois esta é uma obra que tem mais de 4 horas e meia, o que curiosamente faz com que o seu final passe de um simples erro de tonalidade e intenções a uma traição catastrófica, um ato de auto mutilação em que o filme se parece estar a querer abortar a si mesmo, e a todo o retrato humano que anteriormente havia cuidadosamente conjurado. A narrativa abruptamente cai num pessimismo quase misantrópico, num filme que, até então, se tinha demonstrado uma obra de gentil e modesto humanismo. Mais do que Ozu, com quem toda a gente parece querer comparar o filme, estes minutos parecem inspirados por Haneke ou Franco, para grande detrimento da experiência geral deste retrato familiar.

Essa comparação com o trabalho de Ozu é, no entanto, mais aplicável às horas que antecedem esses últimos minutos, onde Liu construiu um retrato de três gerações de uma família a partir de uma narrativa que tem os seus ares de Viagem a Tóquio, e de um método de trabalho que prima a autenticidade humana ao escolher um elenco de amadores para interpretar as variadas personagens. As filmagens desta obra de épica duração foram um processo laborioso de três anos de rodagem, com os não atores a interpretar as personagens e uma história fortemente ligada à vida íntima e familiar do seu realizador e autor. Os protagonistas são Deng e Liu, um casal de idosos que fazem uma viagem através da China para visitarem os seus filhos, com o aparente propósito de lhes pedirem auxílio financeiro para que a sua filha mais velha possa mobilar o novo apartamento, sendo que ela está temporariamente a viver com seus pais.

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Ao contrário desses outros filmes, usualmente associados a Viagem a Tóquio, Jia, com exceção do seu final, raramente cai em melodramas domésticos. Não há aqui nenhuma separação convoluta do casal pelas casas dos filhos, ou uma nora insensível e frustrada com a presença da sogra. Pelo contrário, os conflitos e dificuldades que emergem parecem ser muito mais orgânicos, simples contratempos e consequências da vida que estas pessoas têm na China moderna. Isso também se traduz no estilo maioritariamente adotado por Liu, que se aproxima muito mais de Chantal Akerman do que Yasujiro Ozu, construindo uma tonalidade observacional que é tão íntima como fria e distante, quase recordando a objetividade de autores que procuram um anti estilo, como Frederick Wiseman. Sendo assim, a câmara está usualmente estática e as ações são repetitivas e de prolongada duração. Os ritmos da vida, com todos os seus infindáveis silêncios e aborrecidas rotinas são capturadas meticulosamente e oferecidas à audiência em tableaux de precisa composição.

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Se há algum dramatismo narrativo neste jogo de observação prolongada, esta apenas se começa a manifestar quando falta pouco mais de uma hora para o filme terminar. Inicialmente, parece que esta viagem através da China é somente propulsionada pela necessidade que o casal tem da ajuda dos seus dois filhos mais novos. É claro que, eventualmente, nos apercebemos que tal razão é parcialmente um subterfúgio, pois, na verdade, esta viagem é uma espécie de triste adeus, como se, esperando o seu fim, os dois idosos tentassem trazer o máximo de ordem à vida da sua progénie. Quando tal nos é revelado, cenas que anteriormente poderão ter sido apenas interpretadas como momentos quase humorísticos destas vidas comuns, como a obsessiva limpeza e arranjo que Liu faz da casa do seu filho mais novo, depressa ganham outra dimensão, mais trágica.

Jia the Family

Como consequência, nos seus momentos mais dolorosos, Jia torna-se um estudo sobre negociações familiares, um jogo de aproximação e distanciamento, intencional e acidental. Isso torna-se óbvio, quando questões financeiras são invocadas, mas este regime transacional está sempre invariavelmente presente nas interações do seio familiar. Cenas de refeição são o píncaro deste aspeto do filme, demonstrando a interação próxima dos vários membros em simultâneo e permitindo que a audiência vá examinando cada uma das suas reações na composição conjunta. O olho vagueia pelo plano e vai registando seus movimentos, posturas, olhares, ritmos e maneirismos, e a audiência como que vai construindo, para si mesma, a sua visão deste mundo familiar e suas inúmeras complexidades humanas. Gradualmente, vamos como que interiorizando estas vidas e suas idiossincrasias, seus ritmos ritualísticos e a regularidade do seu quotidiano. Consequentemente, quando acusações indiscretas são feitas de um filho a seu pai, ou um acidente acontece durante uma preparação culinária, as reverberações de tais momentos de aparente insignificância ganham potência tectónica.

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É claro que nem tudo é ideal neste processo de observação. A verbosidade excessiva de alguns momentos é, por exemplo, bastante forçada e parece nascer de uma estranha falta de confiança do realizador para com os seus atores não profissionais, enquanto outros momentos, como um jogo de cartas num parque público parecem estar no filme como capricho de um autor demasiado enamorado com o seu elenco. Aliás, o filme resulta de modo muito mais fascinante quando o seu foco está na observação das ações que marcam a vida doméstica e seu tempo natural, quando deixa de tentar forçar a família como sujeito ativo do filme e a encara como seu objeto de análise distante.

jia the family

Poder-se-ia mesmo dizer que, nas suas mais gloriosas passagens, a família titular se converte num veículo para os verdadeiros sujeitos do filme emergirem por entre o drama humano, nomeadamente o tempo. A passagem do tempo em cinema tem sido, desde há décadas, se não desde a génese do meio, uma preocupação artística sem igual. Quando os realistas italianos criaram o seu neorrealismo, uma das suas revoluções foi a distinção natural de ações, a observação do tempo real e não de convenções de modulação dramática. Seguindo essas ideias, Liu concretizou, em Jia, um filme que quase e poderia chamar de experimental na sua ousada e impetuosa representação dos ritmos naturais da vida, especialmente da vida urbana. O realizador parece quase provocar a sua audiência com cenas em que personagens esperam um elevador, observando os seus números a moverem-se nos ecrãs digitais, ou, noutra ocasião, a contagem decrescente de um semáforo é o ponto de foco de um plano sequência.

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Mas tal relevância temporal não é apenas formal, sendo que este é um filme sobre relações de três gerações distintas de uma família e o tempo da vida humana e da história de uma nação são omnipresentes, talvez ainda mais que qualquer psicologia das suas personagens. Em certos momentos, a China moderna e sua relação com um passado ultrapassado ganham manifestação ilustrativa e as silhuetas de arranha-céus e guindastes coroam a paisagem que vemos num templo, por exemplo. Noutras ocasiões, mais tardias na estrutura do filme, o passado é invocado a partir de flashbacks, como que representando os anos difíceis da Revolução Cultural como um sonho meio esquecido dos protagonistas, e como uma verdade intencionalmente ignorada por este mundo industrial que avança impiedosamente no caminho do progresso.

Jia The Family

Essas já mencionadas composições, concebidas por este diretor de fotografia convertido em realizador, são das melhores componentes do filme, mostrando uma estética meticulosamente estudada, que, no entanto, nunca é ostentosa ou demasiado sufocante. O que faz melhor, apesar da sua beleza, é colocar a audiência à distância da família titular, ao mesmo tempo que constantemente sugere um mundo que se estende para além deles, vidas e tempos que existem fora desta insularidade doméstica. Isto é especialmente exacerbado nas cenas passadas em ruas de ambientes urbanos, onde a sonoridade é também de valor. Ruídos como a televisão, em mandarim para os idosos e inglês legendado para as gerações mais jovens, jogos de computador repetitivos ou a tapeçaria de vida urbana na sonoplastia, criam um mundo que se estende para além da imagem, para além deste retrato e sugerem algo mais grandioso que talvez até o realizador tenha intencionado.

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Essa mesma grandiosidade é a grande queda em desgraça do filme, pois na mesma medida em que o filme sugere ser uma das grandes obras-primas do cinema deste século, ele se revela como uma obra de um realizador indisciplinado e que talvez necessitasse de maior segurança autoral e astúcia na edição. A montagem, por exemplo, é irritantemente e irracionalmente inconsistente, com o uso de jump cuts na primeira metade do filme a serem particularmente bizarros. Akerman e Ozu, dois cineastas já aqui invocados como comparáveis autores, apresentaram, nos seus estudos da vida doméstica urbana, uma total segurança e confiança estética, muitas vezes marcada por uma rígida, mas elegante e precisa, austeridade formalista. Liu, pelo contrário, parece querer almejar a tais severidades, sem realmente perceber como as atingir ou o seu propósito, Em alguns dos seus mais estranhos momentos, Liu parece por completo abandonar o registo de planos gerais estáticos e inclui elaborados movimentos com ajuda de guindaste, que parecem sempre saídos de um filme completamente diferente. Isto conjuga-se com o desastroso final de tal modo que Jia, apesar da sua épica duração, nunca consegue ser mais do que uma sugestão de grandeza, um sussurro bem-intencionado mas que nunca se converte em discurso completo.

Jia the family

O MELHOR: O modo como Jia permite que a audiência observe a família e seus ritmos naturais, sem demasiado forçar dramatismos convencionais no seu retrato humano durante a maior parte da sua duração.

O PIOR: A malfadada conclusão do filme, onde Liu parece trocar a subtileza observacional por um simbolismo gritado que poderia ter saído de uma obra de F. Scott Fitzgerald, tal é a carga metafórica da sua colisão.


 

Título Original: Jia
Realizador:
  Shumin Liu
Elenco: Shoufang Deng, Lijie Liu, Xiaomin Liu 

Drama | 2015| 280 min

Jia The Family

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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