Tristeza e Alegria na Vida das Girafas

16º IndieLisboa | Tristeza e Alegria na Vida das Girafas, em análise

Tristeza e Alegria na Vida das Girafas” é uma deliciosa fábula urbana que mostra que o Cinema Português está vivo, de saúde e recomenda-se!

Há quem diga que o Cinema Português está morto, mas, e recuperando as palavras da nossa protagonista, é porque ainda “não se encontrou na ocasião” de assistir a filmes como Tristeza e Alegria na Vida das Girafas.

Baseada na peça homónima de Tiago Rodrigues, a nova incursão ficcional de Tiago Guedes (Coisa Ruim, Entre os Dedos) produzida pela Take It Easy acompanha a aventura de uma menina e o seu urso de peluche asneirento e com tendências suicidas, Judy Garland.

É de forma enfática, teatral e palavrosa que abre Tristeza e Alegria na Vida das Girafas. A nossa protagonista – que, não por acaso, conhecemos apenas pela alcunha de Girafa – segue decidida até à boca da sala de aula e prepara-se para apresentar um trabalho à turma. “Encontro-me na ocasião de apresentar um trabalho escolar intitulado A Vida das Girafas. Espero que retirem prazer do visionamento deste trabalho e que não possuam aborrecimento“. É este trabalho – aliado ao facto de o pai desempregado não ser capaz de manter a subscrição do famigerado Discovery Channel – que despoleta a micro-odisseia de Girafa e Judy Garland pela capital portuguesa, encapsulada em alguns planos deslumbrantes dos seus espaços mais icónicos.

Lisboa apresenta-se como uma espécie de território mágico, por vezes de proporções épicas, às vezes de traços manifestamente selvagens, onde a crise,  a austeridade e a hipocrisia ainda pairam sobre o espírito luso como um terrível monstro-papão – afinal, a peça foi originalmente escrita em 2011 e apesar de volvidos oito anos muitas coisas estarem diferentes, muitos destes sentimentos permanecem intactos.

Todos os encontros que colorem a expedição permitem a Girafa perceber o caos do mundo adulto numa cidade ajoelhada perante as suas próprias dificuldades. De uma forma doce mas pungente, observamos o contraste entre a visão inocente da protagonista e os excessos de um mundo regido por aberrações político-económicas e princípios dissimulados de humanidade numa Velha Europa que parece procurar o seu rumo.

Além da robusta sátira político-económica, as várias vinhetas que vão povoando Tristeza e Alegria na Vida das Girafas formam, talvez acima de tudo, uma ternurenta tragicomédia profundamente humana sobre a imensa dor do luto e sobre o crescimento pessoal que preenche cada uma das nossas mais difíceis jornadas. Ao mesmo tempo, é uma exploração permanente das dicotomias que tatuam a nossa existência quotidiana: a inocência e a amargura, a alegria e a tristeza, o passado e o futuro.

Tristeza e Alegria na Vida das Girafas

Por outro lado, e apesar de cavalgar nuns relativamente económicos 109 minutos, Tristeza e Alegria na Vida das Girafas não deixa de se debater com alguns problemas de ritmo decorrentes do próprio argumento, particularmente no segundo ato, onde algumas das vinhetas e interações acabam por se arrastar além do que seria necessário para convir o seu desenvolvimento.

No entanto e além do frequentemente extraordinário argumento dos dois Tiagos-Maravilha, é o elenco que faz brilhar este pequeno indie do canto da Europa.

Quase saída de um filme de Wes Anderson – desde a retidão da postura à intrincada arquitetura do discurso baseado num conhecimento mais ou menos profundo do Dicionário Sampaio – a nossa Girafa é uma personagem para a história, e Maria Abreu (filha do realizador) não dá um único passo em falso num papel que facilmente poderia descair para o âmbito gélido da sua inerente teatralidade.

No plano secundário, Miguel Borges (como pai) é incrivelmente dinâmico e Tonan Quito é impecável e recorrente comic relief de coração grande cuja afinidade com palavrões é tanta que lhe garantiria lugar cativo com relativa facilidade entre o elenco de South Park.

Digna de nota é ainda a banda sonora de toque e tom irónico, cortesia do sempre brilhante Manel Cruz.

Há quem diga que o Cinema Português está morto. Ou, no mínimo, que está enfermo, num recanto escuro e pantanoso do universo criativo. É mentira.

O Cinema Português está vivo. Na Girafa e na Judy Garland, nas suas dores de crescimento e de vida.

O Cinema Português está vivo e recomenda-se!

Tristeza e Alegria na Vida das Girafas, em análise

Movie title: Tristeza e Alegria na Vida das Girafas

Date published: 2019-05-12

Director(s): Tiago Guedes

Actor(s): Maria Abreu, Tonan Quito, Miguel Borges

Genre: Comédia, Drama, Fantasia

  • Catarina de Oliveira - 80
  • Maria João Bilro - 80
80

CONCLUSÃO:

Onze anos depois de Entre os Dedos (2008), Tiago Guedes regressa às longas de ficção para nos arrebatar com uma fábula urbana sobre a (perda da) inocência, os medos de criança, os desesperos de adulto e as crises contemporâneas da humanidade.

O MELHOR: O brilhante argumento de dois prodigiosos Tiagos, ora infecciosamente cómico, ora deliciosamente dramático, ora profundamente tocante. E Maria Abreu, a pequena gigante - a nossa Girafa.

O PIOR: O alongamento excessivo de algumas vinhetas e alguns aspetos técnicos como a fotografia algo irregular e nem sempre consonante com o argumento de estrutura simples mas de trato complexo.

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Catarina Oliveira

Licenciada em Ciências da Comunicação e com formação complementar em Design Gráfico, além de editora e diretora criativa da MHD é também uma das sócias fundadoras da mais recente face da empresa. Colaboradora de Cinema na Vogue Portugal. Gestora de conteúdo na Lava Surf Culture e NOS Empresas - Criar uma Empresa. Autora do blog de Cinema Close-Up.

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