"Granary Squares" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’21 | Granary Squares, em análise

Granary Squares” é provavelmente a longa-metragem mais minimalista em competição no IndieLisboa 2021. Esta obra de Gonçalo Lamas integra a programação de filmes portugueses.

A câmara de vigilância tem um olhar quase divino, clinicamente distante e impavidamente crítico em igual medida. Muitos já foram os cineastas que exploraram as possibilidades desta observação que tomba sempre para a inquietação voyeurística. Em “O Vigilante”, por exemplo, Francis Ford Coppola concebeu uma abertura extraordinária focando-se no contraste entre uma perspetiva distante e a sobreposição do som ilicitamente registado.  O resultado é sinistro, colocando o espetador numa posição de desconfortável poder.

Descontextualizando esse mecanismo do cinema narrativo, Gonçalo Lamas apela ao mesmo tom sensorial com o seu mais recente trabalho. Algures entre o documentário acético e um experimentalismo puro e duro, “Granary Squares” consiste num plano de câmara de vigilância. Durante pouco mais de uma hora, a imagem desenrola-se sem cortes. Só o zoom e a vaga oscilação, o seguimento de figuras perdidas no quadro urbano, ajudam a dar alguma variação ótica. De resto, trata-se de um exercício em banalidade citadina, capturada com estonteante frieza.

granary squares critica indielisboa
© IndieLisboa

O cenário escolhido é King’s Cross em Londres. Vemos um novo empreendimento nessa zona da capital inglesa onde se situa uma das estações de comboio centrais do país. Trata-se de um espaço intrinsecamente transitório, ponto de passagem para viajantes. Em certa medida, quase se pode classificar este palco cinzento como um não-espaço, extensão de terreno em perpétua descaracterização – um sítio onde não se vive, nem se permanece, onde ninguém passa mais que um momento esquecido. A praça pública assim vai sempre trocando o elenco, novas figuras aparecendo a toda a hora para depois desaparecerem sem deixar rasto.

Elas saem do alcance da câmara e do pensamento do espetador, mas o movimento da passagem não é, por isso, desprezado. Como há tão pouca informação visual ou sónica nestes “Granary Squares”, tanto câmara como audiência tratam cada variação como precioso tesouro. Nesse aspeto, a paciência observacional de Lamas quase recorda alguns dos trabalhos de Chantal Akerman nos anos 70. Também a cineasta belga se interessava pelo poder cinematográfico do quotidiano e do não-espaço. Vejam-se obras-primas como “Jeanne Dielman” e “Os Encontros de Anna” para comprovar isso mesmo.

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Só que, ao contrário de Lamas, Akerman pretendia usar esta observação para retratar a condição do indivíduo. O cineasta português procura um mural coletivo ao invés do retrato singular. É uma pintura feita por plasticidades digitais que, quanto mais se aproximam da figura humana, mais o ecrã se desfragmenta em pixéis ininteligíveis. É uma pintura do gesto casual e do espetáculo idiossincrático que daí pode nascer. Falamos de um animal pequenino que se aventura pela fonte pública, a conversa privada de dois rapazes cabisbaixos ou o passeio balético de uma mulher que usa a praça como seu estúdio de dança improvisada.

É também uma pintura do arco-íris presente em toda a massa cinzenta e amorfa. Obcecado com o cimento da arquitetura urbanística moderna, “Granary Squares” vai-se aproximando cada vez mais do chão. O zoom insistente estreita a perspetiva, mas também abre novos horizontes. No geral concreto, só existe a realidade nua. No olhar microscópico, encontramos a abstração e nesse vazio de significado pode existir toda uma galáxia. A possibilidade concetual ilustra-se pelo florescer da cor, separações mecânicas da imagem digital quando expandida até à exaustão.

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No patamar da abstração é quando o voyeurismo de Gonçalo Lamas transcende os limites do exercício proposto e consegue chegar alago mais forte. Um êxtase nascido de um ventre minimalista, modesto, mundano. O deambular da câmara vai perdendo o acaso do vigilante impessoal e ganha novas dimensões, ganha o propósito da mão que segura no pincel. Talvez por isso, os momentos finais de “Granary Squares” sejam também os mais empolgantes. Quando já nem percebemos para onde olhamos, se rua, se pessoa – a metamorfose miraculosa do cinema é tudo o que nos enche o olho, puxando pela imaginação de cada um, seu engenho, seu sonho.

Além de tudo isso, há mais um pormenor a apontar, uma faceta acidental que o filme ganha devido ao contexto histórico em que aparece. “Granary Squares” foi gravado antes da pandemia do COVID-19 mudar o estado do mundo e reformatar a aparência de toda a multidão citadina. Neste documentário minimalista jamais vemos a máscara cirúrgica e o contacto humano ainda se vê sem o desabrochar do medo, do contágio, da ansiedade virulenta. Em tal paradigma, a fita ganha a vertente de um requiem, uma canção amorfa e metálica de um mundo moribundo. Estas realidades banais são, de repente, uma impossibilidade e “Granary Squares” passa do registo mundano à memória melancólica do que se perdeu.

Granary Squares, em análise

Movie title: Granary Squares

Date published: 5 de September de 2021

Director(s): Gonçalo Lamas

Genre: Documentário, Experimental, 2021, 64 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO:

Um take de uma hora, o olhar voyeurístico de uma câmara de vigilância, sonoridades cavernosas e o sonho de um mundo pré-COVID – são esses os ingredientes principais de “Granary Squares”. O filme de Gonçalo Lamas é uma proposta surpreendente minimalista e experimental para a competição nacional do IndieLisboa 2021. Este tipo de cinema não é para todos, mas há muito a apreciar na ousadia do exercício, na banalidade esmiuçada até ao ponto da indefinição.

O MELHOR: O instante onde qualquer imagética concreta se sublima em pura abstração, cinzentos cimentosos que rebentam em prismas de cor primária.

O PIOR: Os jogos da sonoplastia são interessantes nas suas gradações de graves ribombantes. Contudo, essas sonoridades são lugar-comum no panorama experimental e sentimos que uma estilização mais agressiva teria feito maravilhas.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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