"Hopper/Welles" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’21 | Hopper/Welles, em análise

Dois cineastas visionários conversam pela noite dentro em “Hopper/Welles”, um serão fílmico que passou na secção Director’s Cut do IndieLisboa 2021. O filme estreou no Festival de Veneza e agora está em Portugal!

Chegado o crepúsculo dos anos 40, Orson Welles perdeu completa conexão com a máquina de Hollywood. Desde sempre um enfant terrible de grande prodígio, ele havia crescido em infâmia até ao ponto de ser persona non grata no paradigma cinematográfico em que se havia estreado com “O Mundo a Seus Pés”. As crispações políticas entre o artista e a indústria Americana, o cisma do pós-guerra e a interferência dos grandes estúdios, levaram ao seu exílio voluntário na Europa, por onde foi desenvolvendo alguns dos seus trabalhos mais arrojados e distantes do mainstream.

“O Processo” e “As Badaladas da Meia-Noite”, filmados em França e Espanha respetivamente, são duas das suas melhores obras, por exemplo. Contudo, não obstante a qualidade artística dos esforços, esta foi uma época difícil para o cineasta. Uma das tentativas penosos de regresso a Hollywood foi somente um triunfo temporário – “A Sede do Mal” em 1958. Outra dessas desventuras americanas nem teve a chance do sucesso efémero. De facto, filmado no início dos anos 70, “O Outro Lado do Vento” jamais seria completado por Welles.

hopper/welles critica indielisboa
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Só em 2018 é que viu a luz do dia quando a Netflix distribuiu uma reconstrução seguindo as notas do realizador. Assim o mundo viu um trabalho lacerante na sua dimensão pessoal, o conto de um cineasta que, no retorno de um longo exílio, morre antes que o filme estreie. A história desenrola-se como um documentário falseado, diários jornalísticos sobre um filme imaginário que serve de dissecação ao homem no centro de tudo – tanto a personagem fictícia como o próprio Welles. Sublinhando a vertente metatextual, algum do elenco é composto por outros cineastas. John Huston, Peter Bogdanovich, Paul Mazursky, Claude Chabrol são alguns deles.

Dennis Hopper também aparece na forma final de “O Outro Lado do Vento”, mas Welles filmou muito mais que o seu singelo cameo. Parte do processo foi uma espécie de conversa a tombar na entrevista, uma troca de ideias num bar californiano que durou toda a noite. Fazendo pausa na filmagem do exercício em meta-cinema “The Last Movie”, Hopper aparece perante Welles como um ícone da nova geração. Ainda ressacando do fenómeno que foi “Easy Rider”, a jovem estrela estava prestes a tornar-se em mais um renegado de Hollywood. Famoso, mas fracassado e ignorado pelos senhores do dinheiro, supor-se-ia que Hopper e Welles teriam muito em comum.

A verdade é bem mais complicada e é a colisão destas duas grandes personalidades que forma “Hopper/Welles”. Formalmente, este é um dos trabalhos mais modestos na carreira dos dois cineastas. Rodado num preto-e-branco de grande contraste e granularidade, a imagem captura a face de Dennis Hopper como se de uma escultura religiosa se tratasse. Ao mesmo tempo que elogia as feições da estrela, também o mergulha nas trevas e insiste obsessivamente na confrontação, documentando a confusão, a ansiedade, a relutância do entrevistado. Welles e o diretor de fotografia Gary Grover assim profanam a iconografia desse jovem astro das contraculturas.

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O homem mais velho, por sua parte, jamais aparece diante da câmara, existindo somente como uma voz insistente, qual mensageiro divino que exige respostas, que contra-argumenta como um mestre da oratória, do debate e da chacina gárrula. Talvez por conhecer a hubris caracterizante de Hopper, por já a ter vivido, Welles facilmente descobre os pontos fracos do outro artista, facilmente os expõe e faz deles espetáculo da retórica atacante. Por muito que o entrevistado recorra à evasão, não há escapatória possível à interrogação de Welles. Por vezes, conseguimos sentir o sabor do desdém nas palavras do senhor atrás da câmara.

Um ponto que Welles não se cansa de explorar a política, tanto o que Hopper representa como o que ele pensa. Acontece que o menino querido dos aspirantes revolucionários da década de 60 jamais quer tornar explícita a sua opinião. Nunca isso é dito, mas considerando quanto Welles sofreu por declarar suas posições a alto e bom som, quiçá se denote amargura no modo como ele delineia a hipocrisia passiva do outro realizador. Então ele é celebrado por sua simbologia política, mas depois não tem a simples coragem de esclarecer quais seus ideais? Quando Hopper revela que praticamente não lê jornais, a voz de Welles ganha a feroz voracidade do leão que mira uma gazela indefesa.

Contudo, não há violência nesta fita feita de hostilidades verbais. Sente-se que há um módico prazer na conversa, mesmo que um interveniente esteja decidido a triunfar sobre o outro. Poderíamos aqui ver um contraste de gerações, o reacionismo desdenhoso dos mais velhos sobre a mocidade, mas Welles até celebra a juventude contemporânea a “Hopper/Welles”. Há admiração pela sua rebeldia gritada, pela ação clara, pelo despir de hipocrisias. Por isso mesmo a interseção destes dois cineastas é tão curiosa. Apesar da idade e sua carga cultural, o mestre Oscarizado parece mais cheio de energia juvenil que o seu companheiro.

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Pelo meio se falam de outros cinemas, das vanguardas europeias e do quão aborrecidos são os filmes de Michelangelo Antonioni. Até se refere esse pecado que é adormecer durante a projeção de uma fita. Enfim, todos somos humanos, até Hopper e Welles. No fim, esse é o grande feito deste filme que mais valia ser um podcast – através da discussão banal, “Hopper/Welles” desmistifica estas figuras que parecem maiores que a vida. A sua forma também ajuda a centralizar a efetiva retórica nas palavras de cada um, obrigando o espetador a encarar o documentário como se também ele estivesse presente naquela noite Los Angelina.

A simplicidade do aparato cinematográfico salienta as ideias discutidas, faz da voz o principal ponto de referência e propõe uma experiência surpreendentemente imersiva. No entanto, essa mesma simplicidade tira peso à obra. Mais parece um programa de rádio, uma conversa disforme que não serve de estrutura a um filme especialmente excitante. Fãs dos cineastas vão amar, mas questiona-se se mais alguém terá paciência para ver um documentário que excede as duas horas e é composto quase exclusivamente por grandes planos do jovem Dennis Hopper. Quem sabe, esta relíquia pode vir a ganhar a mesma fama do “My Dinner with Andre”. Temos sérias dúvidas, mas a esperança é a última a morrer.

Hooper/Welles, em análise
hopper/welles critica indielisboa

Movie title: Hopper/Welles

Date published: 5 de September de 2021

Director(s): Orson Welles

Genre: Documentário, 2020, 130 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

À luz das velas e da paixão cinematográfica, Orson Welles filmou uma entrevista com o jovem Dennis Hopper. Este encontro de titãs aparece-nos na sua forma mais modesta e simplificada, como uma conversa monocromática com pouca variação visual, mas muitas ideias traiçoeiras, retóricas armadilhadas e discussões fervorosas. “Hopper/Welles” é daqueles filmes que só cinéfilos vão gostar, mas recomenda-se a todos aqueles que estejam interessados em entender o paradigma cultural daqueles primeiros anos da Nova Hollywood.

O MELHOR: A hostilidade latente no modo como Welles confronta Hopper.

O PIOR: O travo de inanidade que afeta todo o projeto.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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