"Frágil" | © Promenade

IndieLisboa ’22 | Frágil, em análise

Os seus autores não querem prémios nem competições, mas “Frágil” é uma das obras na Competição Nacional do 19º IndieLisboa. Num ano marcado pelo maior número de filmes portugueses na História do festival, a equipa liderada pelo realizador João Eça deu muito que falar. Certamente não serão esquecidos pelos organizadores da festa.

“Nós não queremos competir contra xs nossxs amigxs” – assim lia a faixa que a equipa de “Frágil” instalou em frente ao ecrã do Cinema São Jorge antes da primeira exibição do seu filme em Portugal. A projeção terá sido o grande escândalo do 19º IndieLisboa, sendo precedida por meia hora de discurso pela parte dos cineastas. Lido por um amigo do realizador João Eça -creditado no filme pelo pseudónimo Pedro Henrique- o texto foi uma irreverente mostra de poder contra uma série de instituições do cinema português. As arguições foram muitas e muito acesas, disso não há dúvida.

Falou-se do Instituto do Cinema e do Audiovisual, da Escola Superior de Teatro e Cinema e até do próprio festival IndieLisboa. Os cineastas manifestam-se contra o conceito da competição promovida por esses ditos sistemas, desde o espírito incutido no meio académico até à própria programação em que “Frágil” é aqui exibido. O discurso peca por alguma incoerência, mas singra pelo teor rebelde. Quem quer que já tenha tentado produzir arte em Portugal identificar-se-á com parte daquilo que foi dito essa noite no São Jorge.

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Aplaudimos, em particular, os argumentos acerca da dependência de favores e entreajuda num panorama onde muita arte se faz graças a vastas redes de amizades. Muitos trabalham sem remuneração numa precariedade insustentável que leva à desistência. Tais realidades conduzem, como os cineastas apontaram, à exploração pela parte de instituições que atuam enquanto divulgadoras, quiçá distribuidoras daquilo que foi feito por outrem. Dito isso, é fácil imaginar contra-argumentos, alguns dos quais foram já apontados pelo IndieLisboa.

Não passaremos o resto do texto nessa contra-argumentação, convém dizer. Supostamente, isto é análise crítica ao invés de uma reportagem com pretensões de debate unilateral. De facto, diríamos que a invetiva dos artistas acabou por dificultar a sua apreciação enquanto objeto de cinema. “Frágil” não é manifestação-performance que marcou a sua estreia, é um filme. Como tal, encaramo-lo enquanto filme, mesmo com o palpite que os cineastas repudiarão qualquer observação aqui escrita. Enfim, a crítica de cinema é para o espetador, não para o artista. Por isso mesmo, não necessita da validação do cineasta.

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Tentando abordar a fita num paradigma separado da controvérsia, deparamo-nos com uma brincadeira lisboeta sobre a geração boémia na casa dos vinte. Rebeldia e irreverência correm pelas veias do organismo fílmico, com atores a interpretarem versões ficcionadas de si mesmos e a cidade a servir de cenário para a sua folia. O foco faz-se num grupo de amigos que passam os dias em languidez epicúria, tomando drogas, amando-se e fazendo planos redundantes para ir ao tão-falado “clube.” Ah, esse sítio que dá título e tanto assombra o filme, qual paraíso fora do alcance, qual Xangri-Lá secreta na vida noturna da capital.

O prazer da moca é implicitamente equiparado ao êxtase de quebrar as regras, ir contra o sistema e a convenção. Os dias são passados numa jornada eterna para a noite, enquanto a noite é, já por si, outra odisseia. Cambaleando na escuridão de quem vive tanto no presente que não consegue conceptualizar o futuro, Miguel, Belard, Clara, Sara e outros que tais dão vida a este filme “Frágil.” Dão corpo e alma ao manifesto, também, desafazendo-se em ironias humorísticas, quedas tardias em profundidades imerecidas e sua pronta subversão.

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© Promenade

Quando se perde em observações casuais do dia-a-dia, “Frágil” tende a afundar-se na prisão do lugar-comum. A montagem do diálogo pouco ajuda, seguindo ritmos e enquadramentos que dão ao filme temporários ares de série web com pretensões de grandeza. É só quando “Frágil” segue o exemplo das personagens e joga com os preceitos do seu engenho que as coisas melhoram. Em interlúdios musicais, techno sonhado e passagens psicadélicas, o projeto transcendo a pastiche pseudo-Godardiana que macula tanta da sua duração.

De forma geral, a obra cresce em qualidade à medida que avança, definindo sua primeira meia-hora como uma espécie de prova de fogo. Audiências capazes de superar o desafio entediante desse humor sem graça serão recompensadas com genuína invenção. Outra recompensa é a visão de uma Lisboa pré-pandémica, capturada com beleza humilde por Manuel Pinho Braga atrás da câmara. Essas imagens são marcas do tempo de rodagem, esticado por seis longos anos. A música é outra delícia, mesmo quando a sonoplastia fraqueja e revela a escassez de recursos com que “Frágil” foi feito.

Mesmo quando a provocação nos parece vácua, há valor na sua feitura e diversão para quem entrar na mesma onda dos cineastas e sua trupe de amigos feitos personagem. Alusões políticas e outras tantas confrontações com assuntos sérios podem soar a significantes sem significado, mas o tenor tragicómico com que o texto se conclui vinga pela positiva. Tão repleto de surpresas como de expectáveis desilusões, este filme faz para merecer o título. É um trabalho frágil, mas ambicioso, concebido com um afeto clarividente que mais se acentua pelas mensagens rosadas nos créditos de encerramento.

Frágil, em análise
fragil critica indielisboa

Movie title: Frágil

Date published: 6 de May de 2022

Director(s): Pedro Henrique (João Eça)

Actor(s): Miguel Ângelo Santarém, Francisco Belard, Redgi Cardoso, Clara Maria Dias, Rafaela Viana, Tomás Villar, João Robalo, Isadora Alves, Rafael Barra, Luís Calado, Maria Clotilde, João Edral, Afonso Ferreira, Sara Leite, Sílvia Luz, Luís Magalhães, Henrique Martins, Inês Meira

Genre: Comédia, Drama, Música, 2022, 98 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

Dar classificação numérica ao cinema é algo questionável e não temos dúvidas que os criadores de “Frágil” torcem o nariz à mera ideia. Contudo, assim é a estrutura de artigo aqui adotada e assim nos temos de orientar. Mas fica aqui um alerta – não deem muito caso a esse número, pois o novo filme de João Eça/Pedro Henrique merece ser visto. Trata-se de uma explosão de insincera seriedade e rebeldia performada daquelas destinada a despertar tanto ódio quanto amor. Aventura-te por esses labirintos fluorescentes e diz-nos tu se és fã ou anti-fã. Atreve-te a descobrir as fragilidades desta visão.

O MELHOR: A Lisboa antes da peste, o vídeo musical inusitado, a conclusão melancólica no meio da multidão.

O PIOR: O humor é o ponto fraco do filme, assim como a montagem em cenas de diálogo vulgar. Para cineastas tão predispostos a ir contra a convenção, essas passagens são tristemente banais em termos de forma e dramaturgia.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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