13º IndieLisboa | Un etaj mai jos, em análise

Mais um festival de cinema, mais uma fascinante obra do cinema romeno. Un etaj mai jos (Um andar abaixo) é um retrato minuciosamente realista do impacto da inação e do silêncio na vida de um homem que testemunha o possível prelúdio de um assassinato.

un etaj mai jos

A mais recente obra do realizador romeno Radu Muntean, Un etaj mai jos, inicia-se com uma sequência de inócua domesticidade. Sandu Patrascu, um homem de meia-idade a viver num apartamento em Bucareste com a sua mulher e filho, passeia o seu adorado cão, Jerry. Como audiência, observamos este fragmento da sua rotina diária com o tipo de ponderação objetiva que tem caracterizado tanto do recente cinema romeno. Longos takes são a regra, e neles vamos vendo e ouvindo os detalhes mais anti dramáticos da vida deste protagonista, incluindo o modo como dá água ao seu cão, ou como, para ele todos os cães são rapazes, independentemente do seu sexo. Quando o seu passeio corrido termina, ele volta ao seu apartamento, mas, ao subir as escadas para o seu andar, ouve uma acesa discussão de amantes. O seu percurso interrompido, ele fica ouvir, até que um homem sai do apartamento em fúria. Mais tarde descobrimos que este homem é também vizinho de Sandu, seu nome Vali Dima, e os dois cumprimentam-se tensamente antes de cada um partir para a sua vida. Quando, mais tarde, Sandu regressa do trabalho, descobre que a rapariga da discussão, a que vivia no apartamento do andar inferior ao seu, morreu.

Essa sequência de eventos representa apenas os primeiros minutos de Un etaj mai jos, sendo que o evento que realmente propulsiona toda a existência do filme ocorre quando um polícia, ainda no mesmo dia, faz uma visita à família de Sandu. Tal como o passeio com o seu cão é rotina para Salud, também estes questionamentos são rotina para o polícia, e há uma enorme casualidade na apresentação de toda a situação. Uma casualidade que, no entanto, deixa a audiência impreparada para as ações de Sandu. Quando lhe perguntam se sabe algo sobre a vizinha falecida, se tinha ouvido ou visto algo suspeito e outras perguntas de rotina, o nosso protagonista nada refere da luta de namorados, ou do seu vizinho. O seu silêncio de motivação incerta não traz qualquer paz, visto que depressa a presença de Dima se torna inescapável para Sandu, com o homem suspeito a imiscuir-se na vida do seu vizinho. Inesperadamente, ele pede a ajuda profissional de Sandu que faz a vida a auxiliar pessoas no processo de registos de automóveis, e começa a tornar-se presença comum na vida do filho de Sandu, Matei, cuja paixão por videojogos é alimentada e assistida pelos conhecimentos informáticos de Dima. A tensão é óbvia na disposição e atitude de Sandu face a este indesejado intruso, mas na narrativa nada parece acontecer, apenas uma espera por uma confrontação ou evento que cesse a inexistência de ação.

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Poder-se-ia mesmo dizer que Un etaj mai jos é um filme singularmente caracterizado pela espera, pela inatividade dramática face a uma situação de inegável dramatismo. Nas mãos de outros realizadores, esta proposta cinematográfica poderia certamente ter resultado num thriller, mas Muntean está longe de ser esse tipo de cineasta, sendo que a criação de suspense parece estar longe da sua lista de objetivos. Pela sua direção, este drama romeno depressa se revela como um autor imensamente desinteressado em criar tensa antecipação no seu público, pelo contrário tais jogos de perceção, típicos do thriller, são quase que subvertidos pela desdramatização que reina por todo o filme. No final, mais do que um thriller, este filme é quase que um anti thriller, uma obra que se preocupa em subverter tais expetativas cinemáticas em prol de um estudo de personagem, um estudo sobre uma constante incerteza e uma psicologia que, por muito que se esforcem, é sempre um pouco nebulosa para os espetadores de tal exercício.

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Aliás, Muntean quase provoca o seu público, enchendo o seu filme de minuciosas recriações das rotinas aborrecidas de uma vida “comum”, criando uma obra de frustrante tédio intencional, que tanto fascina como enfurece. No centro de tudo isto, está a personagem de Sandu, cuja inação se torna o alicerce temático e estrutural do filme. Com um guião que raramente dá quaisquer detalhes ou informações de relevo dramático ou psicológico, o peso da caracterização de Sandu cai sobre os ombros de Teodor Corban, um ator que já tem ganho alguma fama no circuito dos festivais pela sua colaboração com muitos dos melhores realizadores romenos da atualidade. Na pele deste homem, Corban volta a provar-se um exímio arquiteto de retratos naturalísticos, concebendo um ser humano complexo e com uma clara interioridade que, no entanto, nunca deixa de ser uma figura de incerteza e indefinição para a audiência. É um balanço formidável entre a telegrafia dos pensamentos e emoções que explodem debaixo da superfície e uma opacidade magistral que deixa sempre a audiência a uma distância considerável de tais intimidades.

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Mais do que serem explicadas pela expressividade do ator ou pelo texto, as motivações de Sandu vão sendo indiretamente sugeridas, sem nenhuma conclusão ser esclarecida. A audiência é assim convidada a examinar o mundo e a rotina deste indivíduo, procurando detalhes que justifiquem as suas decisões, que façam com que o seu silêncio seja entendível. Assim, observamos a minúcia das suas interações familiares, a sua relação com autoridades, ou mesmo as conversas acesas que tem com os seus amigos durante um visionamento televisivo de um jogo de futebol, em busca desses imateriais indícios. De certo modo, o filme convida quem o visiona a conceber um diálogo ativo com a objetividade do seu retrato humano, aliciando os seus observadores a encontrarem alguma solução ou interesse no seu crónico estado de incerteza. Mesmo o assassinato é uma incerteza, podendo ter sido um acidente, e como todas as marcas de violência neste universo, é apenas tangentemente percecionada pela câmara de Munteau. Ouvimos os gritos e os rumores sobre a morte, acusações infundadas de uma punição de promiscuidade feminina, a violência da história é conjurada por um toque telefónico que evidência a voz de Nicolae Ceausescu e os próprios jogos de vídeo cheios de violência são apenas sugeridos a partir de extensos diálogos ou sons mas nunca são examinados diretamente.

Esse diálogo sobre informática e videojogos acaba por ser uma das marcas autorais do seu realizador e argumentista, cuja filmografia está repleta de semelhantes passagens de extensa verbosidade cheia de inconsequentes informações técnicas que escondem conflitos nunca diretamente abordados. Neste caso, por detrás de tais conversas, está a o sufocante silêncio entre Dima e Sandu em relação ao que foi testemunhado pelo segundo. Tais jogos estilísticos e estruturais realistas têm vindo a caracterizar, juntamente com muitos outros elementos cinematográficos, o Novo Cinema Romeno, um movimento que tem vindo a afirmar o seu cinema nacional como um dos mais importantes no panorama do cinema europeu do século XXI. O sucesso em festivais internacionais que estas obras têm conseguido alcançar é impressionante, pelo que Un etaj mai jos não terá problemas em encontrar fãs, se bem que, há que referir, este filme parece ficar muito aquém da grandeza já alcançada pelos seus companheiros fílmicos deste movimento.

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Por exemplo, ao contrário dos filmes romenos que tanto renome encontraram internacionalmente, este retrato humano é claustrofobicamente focado no seu protagonista, muitas vezes reduzindo as pessoas na sua periferia a simples abstrações com forma humana, ou cifras a quem é dada consistência a partir de redutores clichés e detalhes de caracterização. Isto é particularmente óbvio na família de Sandu, especialmente o seu filho cuja completa obsessão com videojogos e redes sociais ameaça torná-lo numa paródia cliché de um adolescente contemporâneo. Tal impulso cómico e irónico poderia ser uma bem-vinda marca de humor em Un etaj mai jos, que, ao contrário de muitos recentes filmes romenos, não tem espaço para uma pinga de humor. Isto é particularmente estranho quando consideramos alguns dos maiores sucessos deste tipo de cinema, como A Morte do Sr. Lazarescu, onde uma odisseia noturna de um velho moribundo em busca de atendimento médico é tão caracterizado por abjeta miséria e desumanidade como por toques de acídico humor.

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O resultado final de tudo isto é um filme que se propõe a ser um exercício sobre espera e tédio e acaba por se converter numa vácua experiência de sufocante aborrecimento que vai para além de qualquer fascínio intelectual. Os conceitos inerentes a tal construção cinematográfica são deveras fascinantes, mas a sua final concretização testa mais a paciência do que elucida ou ilumina sobre os humanos que se propõe a retratar. Consequentemente, apesar de estar cheio de inegáveis méritos, Un etaj mai jos será uma obra que pouco se afirma em comparação com outros filmes romenos que receberam aclamação crítica à volta do mundo. Mesmo no panorama da filmografia do seu realizador esta obra deixa muito a desejar, não conseguindo rivalizar Terça, Depois do Natal como sublime retrato humano. Apesar de tudo isto, há que referir para quem não seja familiar com as recentes glórias do cinema romeno, este filme poderá apresentar-se como uma formidável porta de entrada, sugerindo grandezas formais e humanistas que tanto caracterizam este movimento cinematográfico nacional.

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O MELHOR: Os primeiros dez minutos do filme são uma pequena obra-prima de realismo cinematográfico em conflito com uma indesejada premissa dramática.

O PIOR: A inevitável explosão que quebra o silêncio entre Dima e Sandu que é tão insatisfatória que mais valeria não existir e deixar a audiência no seu mar de incerteza e expectativa não recompensada.


 

Título Original: Un etaj mai jos
Realizador:  Radu Muntean
Elenco: Teodor Corban, Iulian Postelnicu, Oxana Moravec, Ionut Bora
Drama | 2015 | 93 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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