O Interminavel critica

O Interminável, em análise

O Interminável” é uma proposta de ficção-científica intelectual sem grandes momentos de espetacularidade futurista, mas muitas surpresas desesperantes na manga.

No panorama do cinema independente americano, esta década tem sido imensamente rica em projetos de género, filmes de terror, de ficção-científica e fantasia. Em certos casos, cineastas dedicam toda uma carreira florescente a este mesmo tipo de projeto, usando os recursos limitados a que têm acesso como estímulo para a criatividade e engenho. Justin Benson e Aaron Moorhead são um bom exemplo desse mesmo fenómeno. O duo de realizadores assinou, até agora, três longas-metragens, todas elas esforços de ficção-científica cerebral, muito focada em estudos de personagens em crise consigo mesmas.

O Interminável” é o mais recente projeto dos dois cineastas que aqui voltam ao universo de um dos seus filmes anteriores. Aqui, eles não só realizaram como também escreveram o filme, produziram, filmaram, montaram e protagonizaram o projeto. Tal abordagem multifacetada é tanto fruto de uma procura por absoluto controlo criativo, como uma consequência do baixo orçamento que Benson e Moorhead tiveram de confrontar. Felizmente, na sua forma final, “O Interminável” exibe poucos sinais de esforço, sendo que os seus engenhosos efeitos visuais são um dos melhores aspetos de toda a obra.

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Um pesadelo de ciclos viciosos.

Essa natureza fantástica não é óbvia desde o início. Seguindo o modelo que têm vindo a aperfeiçoar com as suas longas e curtas-metragens, Benson e Moorhead começam por introduzir a história ao espectador sob a forma de um corriqueiro drama californiano sobre dois irmãos. Eles são interpretados pelos realizadores e partilham com eles os nomes de Justin e Aaron, mas é na especificidade da sua experiência pessoal que se encontram as sementes do enredo fantasioso. Quando conhecemos o par, há dez anos que eles confrontam o trauma de terem pertencido a um alegado culto, mesmo que as suas memórias da experiência sejam radicalmente diferentes.

Justin, que orquestrou a fuga dos irmãos, muito falou à imprensa dos pactos suicidas da comunidade e outras práticas hediondas que pintam um retrato de fanatismo perigoso. Por outro lado, Aaron, que era um adolescente na altura, só se recorda vagamente de bons tempos passados numa comuna de proto hippies amistosos. De facto, para Aaron, essas memórias solarengas representam a melhor parte de uma vida que, desde então, tem sido uma série de desilusões.

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Um dia, tudo muda, quando recebem uma misteriosa videocassete em que uma das suas antigas companheiras da comunidade cultista fala de uma iminente ascensão. Para Justin, trata-se de uma confirmação das suas ideias sobre pactos suicidas. Para Aaron, é uma prova de que esse mundo que tanta felicidade lhe trouxe ainda existe. Não demora muito até que os dois irmãos estão metidos no carro rumo ao campo onde a comunidade vive. Lá, eles encontram todos os seus antigos amigos, inalterados pelo tempo e aparentemente felizes com uma vida completamente circunscrita aos limites da comunidade.

Assim se plantam as sementes para o doloroso conflito entre os irmãos. Verdade seja dita, é fácil ver que a relação entre os dois já estava numa posição periclitante antes de voltarem à comunidade, mas este é o choque necessário para os levar aos antípodas do antagonismo fraternal. Justin quer fugir dali a qualquer custo, enquanto Aaron quer ficar, mesmo depois de constatar em primeira mão as bizarras ocorrências sobrenaturais que parecem apontar para a presença de uma entidade poderosa a controlar a vida de todos aqueles dentro da comunidade e seus arredores.

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Vale sempre a pena tentar fazer muito com pouco, do que se render à mediocridade e falta de ambição.

Não querendo divulgar demasiados spoilers, convém dizer que “O Interminável” é muito melhor quando deixa as suas personagens reagir à insanidade que os rodeia do que quando tenta copiar os modelos de um thriller. Ou seja, a partir do momento em que salta do precipício da razão, o filme brilha, ao contrário do que acontece nas longas sequências em que tenta criar uma atmosfera ominosa por entre dinâmicas comunitárias. Infelizmente, isto coloca muito peso nas caracterizações dos protagonistas, algo que Benson consegue suster com a sua prestação abrasiva. Moorhead, com uma personagem muito mais complicada nas mãos, não tem tanta sorte ou habilidade.

Apesar disso, a união fraternal entre os dois transpira autenticidade e serve de âncora aos aspetos mais cosmicamente assustadores desta proposta que nos põe a nós, enquanto espectadores, num patamar de cumplicidade com a entidade responsável por todo o sofrimento em cena. O melhor de tudo é quando esses mesmos elementos mirabolantes começam a servir de espelho e motivação para o conflito familiar, dando coesão temática a toda a tapeçaria fílmica. Pode ser difícil gostar destas personagens, ou compreendê-las no caso de Aaron, mas, chegado o clímax, estamos investidos no seu fado, pois todo o universo do filme assume-se como extensão delas e suas angústias.

De um ponto de vista narrativo, tais desequilíbrios não são muito problemáticos. Não se pode dizer o mesmo a nível formal, pois Moorhead e Benson têm claras dificuldades em conceber uma abordagem visual que funcione tão bem para diálogos a dois como para sequências mais carregadas de efeitos. Enquanto diretor de fotografia, Moorhead filma “O Interminável” em cores esbatidas que tornam a paisagem californiana em algo alienante, um cenário cronicamente desprovido de vitalidade. Em planos gerais isso cria um ambiente opressivo, especialmente quando empregue em composições ricas em espaço negativo. Em planos mais íntimos, o resultado é enfadonho, feio e banal.

No final, “O Interminável” é um tesouro de potencial narrativo, cheio de ideias fascinantes e propostas de ficção-científica verdadeiramente aterradoras. Contudo, a execução de tais premissas está longe de ser perfeita, desde problemas com a caracterização cruel de Aaron até às suas claras fragilidades formais. O resultado é uma dança interminável entre o potencial extraordinário dos cineastas e as suas limitações, não de orçamento, mas de criatividade técnica e sagacidade audiovisual. Podemos garantir que prestaremos sempre atenção a uma nova estreia de Justin Benson e Aaron Moorhead, se bem que os dois cineastas ainda têm muito que evoluir até ao dia em que os seus filmes sejam capazes de chegar aos calcanhares da sua ambição.

O Interminável, em análise
O Interminável

Movie title: The Endless

Date published: 2018-11-01

Director(s): Justin Benson, Aaron Moorhead

Actor(s): Justin Benson, Aaron Moorhead, Tate Ellington, Callie Hernandez, Shane Brady, Lew Temple, Kira Powell, David Lawson Jr., James Jordan, Emily Montague, Peter Cilella, Vinny Curran, Ric Sarabia

Genre: Drama, Fantasia, Terror, Ficção-Científica, 2017, 111 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO

“O Interminável” é um pesadelo de ciclos viciosos, tanto na esfera sobrenatural como no domínio das relações fraternais. Seus limites orçamentais são ofuscados por engenho e premissas narrativas ambiciosas, mas o filme é simultaneamente vítima de más escolhas textuais e formais, assim como da falta de habilidade dos seus atores/realizadores no que diz respeito a representar personagens complicadas. O filme é uma boa lição a cineastas em início de carreira pois vale sempre a pena tentar fazer muito com pouco, do que se render à mediocridade e falta de ambição.

O MELHOR: O inferno de manipulação temporal que está no âmago desta proposta fantasiosa.

O PIOR: Aaron, personagem, e Aaron, diretor de fotografia.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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