Justin Hurwitz | Compositor em Ascensão

Nomeado para três Óscares pelo seu trabalho em La La Land, o compositor Justin Hurwitz é um dos grandes favoritos desta Awards Season.

justin hurwitz la la land

Nascido em Los Angeles e um prodígio no piano desde cedo, Justin Hurwitz decidiu não ir para o Conservatório quando chegou altura de seguir para os seus estudos superiores. Ao invés, foi estudar composição musical em Harvard onde conheceu alguém que lhe iria mudar o curso da vida. Esse alguém foi Damien Chazelle, um estudante de cinema e baterista de uma banda em que Hurwitz participava no teclado. O grupo, chamado Chester French, trabalhava dentro de um registo inspirado na pop britânica, mas Chazelle e Hurwitz depressa descobriram que a paixão musical um do outro era jazz e assim floresceu uma amizade.

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Mais tarde, quando Chazelle chegou ao ano final do seu curso e teve de fazer uma longa-metragem como forma de tese final, ele pediu a ajuda do seu amigo estudante de música. O projeto Guy and Madeline on a Park Bench é uma espécie de experiência precedente de La La Land, um musical com ritmos e sons de jazz e uma atitude performativa reminiscente dos musicais enfaticamente artificiais da era doirada de Hollywood. A grande e titânica diferença entre os dois filmes é a escala e recursos da sua execução formal.

Enquanto La La Land é uma requintada modernização das estéticas passadas feita com impressionante brio e a energia apaixonada de um cinéfilo apaixonado, Guy and Madeleine on a Park Bench é um indie de orçamento microscópico filmado num preto-e-branco grosseiro, quase amador, e uma sonoplastia apocalipticamente má. Em certa medida, a música de Hurwitz demonstra virtudes e fragilidades semelhantes, uma ambição e ideia base fascinante acompanhadas de uma execução mais ou menos pueril em falta de necessários recursos.

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Mesmo assim, houve quem visse nos esforços de Chazelle a promessa de uma luminosa carreira futura e o filme lá conseguiu alcançar alguma notoriedade nos circuitos mais obscuros dos festivais americanos e seus ciclos de filmes de estudantes. Alguns anos depois, nos quais Hurwitz trabalhou como argumentista noutros projetos, esses primeiros rasgos de apoio crítico deram os seus frutos quando Chazelle conseguiu desenvolver uma ideia que tinha começado na forma de uma curta-metragem e expandi-la até ao filme que conhecemos como Whiplash. Estreado no festival de Sundance de 2014, o filme reuniu Chazelle e Hurwitz e o resultado da sua colaboração foi uma bombástica banda-sonora centrada na energia contagiante da bateria em composições de jazz.

O filme, inspirado pelo percurso musical do seu realizador, efetivamente abriu as portas de Hollywood a Chazelle e acabou por arrecadar cinco nomeações para os Óscares, incluindo para Melhor Filme. Apesar dos esforços de Hurwitz não terem sido reconhecidos, parcialmente pelo seu uso e adaptação de peças musicais já existentes para certas partes da banda-sonora, o filme foi um surpreendente sucesso aquando da noite dos prémios. No final, ganhou Melhor Sonoplastia, Montagem e Ator Secundário para J.K. Simmons.  Mais importante ainda, o sucesso crítico, popular e na Awards Season de Whiplash, fez com que Chazelle conseguisse aprovação para o seu próximo projeto.

Esse projeto foi, como já se sabe, La La Land, um musical original contemporâneo sobre o romance entre uma atriz e um pianista e os sacrifícios que ambos têm de fazer em ordem de seguirem os seus sonhos profissionais e artísticos. Desta vez a Awards Season foi mais frutífera e Justin Hurwitz é o inegável frontrunner para ambos os Óscares para o qual está nomeado. Esses prémios são o galardão para “Best Score”, ou seja o melhor acompanhamento musical instrumental que não engloba as seis canções compostas para o filme; e o prémio de Melhor Canção Original para o qual Hurwitz tem dois candidatos. Primeiro, temos “City of Stars”, o melancólico tema sobre a cidade de Los Angeles que é praticamente o terceiro protagonista do filme, e a seguir “Audition”, uma estonteante montra para o talento dramático de Emma Stone e a exposição musical da tese ideológica do filme.

Para o compositor, “Audition” é o melhor número do filme, mas as associações de prémios têm vindo a mostrar maior apreço por “City of Stars”. Quem sabe, se calhar até é Vaiana que arrecada esse Óscar no final? Uma coisa é certa, Hurwitz já praticamente tem garantida a vitória do galardão para Melhor “Score” e com razão. Inspirando-se fortemente na música dos filmes de Jacques Demy, especialmente As Donzelas de Rochefort, Hurwitz construiu um híbrido entre classicismo romântico a imitar os epítetos melódicos da Hollywood de outros tempos e a modernidade das composições de jazz que o inspiram desde os tempos de estudante.

O resultado final é verdadeiramente apaixonante, sendo que, desde a anergia bombástica de uma orquestra de 95 instrumentos a tocar “Another Day of Sun” na primeira cena do filme, passando pelo romantismo delicado da dança interestelar a meio do filme e terminando no epílogo instrumental, o trabalho de Hurwitz é sempre impecável e mais memorável que qualquer outra banda-sonora de 2016. Esse último exemplo que mencionámos, o epílogo, é um triunfo de particular gabarito, sendo uma recapitulação de todos os temas principais do filme, conflagrados num inebriante orgasmo musical completado com uma intervenção coral que eleva as melodias evocativas a um patamar de transcendente poder emocional.

Se vier a triunfar este domingo, Justin Hurwitz vai-se tornar num dos compositores mais jovens de sempre a ganhar o Óscar. De modo semelhante, se Chazelle arrecadar o prémio para Melhor Realizador, vai ser o vencedor mais novo de sempre na história dessa categoria.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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