Venice Sala Web | Ku Qian, em análise

Em Ku Qian, o cineasta Wang Bing retrata a vida de vários trabalhadores da indústria do vestuário na China contemporânea e acaba também por pintar um retrato coletivo e devastador da sociedade da sua nação. Tal como todos os filmes presentes no Venice Sala Web, esta obra foi exibida no Festival Internacional de Veneza e está, de momento, disponível no Festival Scope.

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Ku Qian, o mais recente filme do cineasta chinês Wang Bing, começa com um plano que, ao contrário do que é habitual nos seus filmes, é desprovido de qualquer presença humana, pelo menos a nível visual. A imagem mostra-nos uma paisagem mergulhada na escuridão da noite, com apenas alguns minúsculos e escassos pontos luminosos a anunciarem a presença de alguma casa. Estamos numa aldeia da província de Yunnan e, apesar das marcas de eletricidade serem escassas, vamos começando a ouvir o burburinho da vida humana de modo cada vez mais intenso. Eventualmente, Wang Bing abandona esta paisagem escura e entra numa das casas, onde ele nos apresenta a uma adolescente que está prestes a deixar a aldeia em direção a uma zona mais industrializada, onde poderá arranjar trabalho na confeção de roupas. Esta passagem é o último suspiro que vemos de algum local exterior a Huzhou, a cidade em questão, sendo que, depois de uma longa e aborrecida viagem de comboio, já a nossa aventurosa protagonista se vai perdendo na imensidão de trabalhadores em busca de uma vida mais próspera do que a que tinham no ambiente rural.

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Tal como nas suas restantes obras, Wang Bing não se vai restringir singularmente à experiência individual desta jovem trabalhadora. A partir do momento em que a sua câmara chega a Huzhou, Ku Qian revela-se um retrato coletivo de uma série de pessoas, todas elas trabalhadoras na indústria do vestuário e todas elas escravizadas pela promessa de estabilidade económica. O dinheiro está no centro de todas as decisões, mas é estranhamente ausente da vida das pessoas, com o pagamento do seu trabalho a ser constantemente negado ou adiado. Com um olhar que nunca se desvia da crua e dura realidade da China contemporânea, Wang Bing pinta um retrato devastador desta comunidade dominada por noções desumanas de industrialismo. Os vários protagonistas do filme são como escravos ou almas errantes a cumprir penitência num purgatório inescapável. Muitos deles falam sobre um dia saírem de Huzhou e irem trabalhar para fábricas maiores e mais justas, mas, nos dois anos em que Wang Bing os filmou, nada se altera e eles permanecem imóveis, estagnados e presos a esta existência sufocante.

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Sufocante é também a experiência da audiência que os observa. Wang Bing tem-se tornado notório pela longa duração dos seus filmes e um dos seus trabalhos mais celebrados é um documentário com mais de nove horas. Com apenas duas horas e meia, Ku Qian não chega a esses extremos, mas o seu realizador, quase numa radicalização realista de teorias cinematográficas como as de André Bazin, deixa com que os seus momentos individuais se desenvolvam em tempo quase real. Os planos distendem-se e copiam os ritmos de uma vida repetitiva e aborrecida, imergindo a audiência na experiência das pessoas filmadas, ou pelo menos numa impressão do seu estado psicológico. Durante uma memorável sequência, Wang Bing fecha-nos dentro do espaço de trabalho de um dos seus objetos de estudo, e lá ficamos durante bastante tempo, simplesmente a vê-lo coser uma série de peças de roupa iguais, num espaço quente, abafado e sem quaisquer condições.

Assim, o realizador tenta abrir-nos uma janela a vidas alheias, tentando não enfatizar a sua presença. Raramente se ouve alguém falar por detrás da câmara e as pessoas filmadas muito poucas vezes mostram estar conscientes da sua presença. Este tipo de abordagem é um desenvolvimento moderno do estilo “fly on the wall” que tanto se espalhou pelo cinema documental nos anos 60, mas Wang Bing demonstra sempre um certo cuidado em manter-se cauteloso, distante respeitoso. Essa remoção do calor e intimidade das vidas em exposição, leva a que, apesar de uma qualidade de imagem e som meio infelizes, este cineasta consiga impor um controlo admirável sobre a estética da sua obra. A capacidade que ele demonstra, ao encontrar enquadramentos e composições elegantes no meio da miséria e da imprevisibilidade é de impor respeito.

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Esse tipo de abordagem, com observação prolongada e estética grosseira mas sofisticada, chega ao seu píncaro e maior sucesso numa longa sequência noturna, em que acompanhamos Ling Ling, uma trabalhadora colega da adolescente do início, e o seu marido durante uma acesa disputa matrimonial. A câmara de Wang Bing é tão insistente em seguir as pessoas e capturar as mais voláteis minucias da sua vida que, a um certo ponto, parece que passamos de um documentário a uma peça em mandarim do falecido Edward Albee. É nesta passagem que a presença do realizador mais apaga e onde a câmara mais se afasta dos seus sujeitos, quase que tentando manter uma distância segura. Quando vemos Ling a ser humilhada publicamente pelo seu marido também surge outra dimensão ao projeto, uma de moralidade dúbia, sendo que nos sentimos quase como voyeurs passivos, que vêm todo este pesadelo matrimonial com fascínio mas nunca se dignam a intervir ou ajudar as pessoas. É cinema elétrico, feio, complicado e brutalmente humano.

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Com tudo isto dito, Ku Qian é mais uma comprovação do merecido estatuto de Wang Bing como um dos grandes humanistas do cinema documental contemporâneo. É certo que não é um tipo de cinema que vá agradar a todos, sendo que a sua austeridade e duração vão alienar muitos espetadores em busca de uma obra de mais fácil apreciação, mas, para quem for generoso e paciente o suficiente, existem maravilhas cinemáticas prontas a ser encontradas na filmografia deste autor chinês. No entanto, afirmar que Ku Qian é um dos seus melhores trabalhos também seria uma ligeira mentira. Esta é, sem dúvida, uma obra valiosa, mas outros filmes de Wang Bing, como Feng ai, Tiexi qu e San zimei, mostram a mesma abordagem e ideias semelhantes com muito maior eficácia, elegância cinemática ou simples impacto emocional e intelectual.

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O MELHOR: Toda a sequência com a disputa matrimonial.

O PIOR: A duração, como em todos os filmes de Wang Bing é problemática. Com mais edição e economia, é fácil de imaginar este cineasta a conseguir passar a sua mensagem e as complexidades do seu retrato humano sem colocar metade da audiência a dormir. Na sua forma final, Ku Qian é um trabalho que para muitos será cansativo e esgotante, senão um abjeto espetáculo de tédio e repetição


 

Título Original: Ku Qian
Realizador:  Wang Bing
Festival Scope | Documentário | 2016 | 152 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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