14º IndieLisboa | Le parc, em análise

Le parc é uma sedutora miniatura cinematográfica sobre um encontro entre dois adolescentes que dá lugar a um desconcertante episódio de surrealismo noturno.

le parc indielisboa

Le parc, a mais recente obra do realizador francês Damien Manivel, é um filme cuja principal característica é, sem dúvida, a sua simplicidade. Poderíamos mesmo classificar o projeto como um exemplo de minimalismo cinematográfico, pelo menos a um nível de formalismo e de premissa. Em questões de modulação tonal, no entanto, o filme aproxima-se mais do surreal na sua segunda e fascinante metade, onde a escuridão da noite consome o espaço titular e o torna numa floresta saída diretamente de um pesadelo de Apichatpong Weerasethakul.

Antes dessa onírica viagem noturna, contudo, Le parc começa com uma situação de esmagadora banalidade. Num parque urbano, algures em França, testemunhamos as interações entre um rapaz e uma rapariga que se encontram num banco de jardim. Os dois parecem já conhecer-se, mas o seu diálogo revela uma desconfortável e desajeitada tentativa de aprofundarem a sua relação com conversa fiada. Este é, aparentemente, o primeiro encontro dos jovens e Manivel documenta-nos a sua tarde através de uma coleção de planos estáticos, onde ações se prolongam em tempo real e as reações dos atores são tão apáticas que é praticamente impossível discernir qualquer tipo de caracterização para além das informações dadas pela imagem e pelo diálogo.

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Ele, que nunca recebe um nome, pratica karaté e está aparentemente interessado em Freud, uma recente descoberta sua, pelo que tenta explicar sumariamente o que é a Psicanálise à sua companheira que nunca ouviu falar do célebre austríaco. Ela, que se chama Naomie como a sua intérprete, foi uma ginasta quando era criança, tendo parado de praticar no seguimento de ter partido os dois pulsos ao cair de uma árvore, e os seus pais são professores de Educação Física na mesma escola secundária que ela frequenta. Ambos fumam e vivem nos edifícios que orlam o parque.

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Ao princípio, uma reticência insegura marca as interações dos dois adolescentes, especialmente no que diz respeito às reações monossilábicas da rapariga, mas, ao longo do passeio, as barreiras vão-se dissipando. Um jogo de observação de nuvens e uma selfie relutante marcam um ponto de viragem e rapidamente podemos observar as primeiras mostras de intimidade física entre os dois. Um toque curioso a um torso masculino desnudo e um beijo sob a sombra do arvoredo confirmam a ligação do casal, mas, eventualmente, o rapaz tem de se despedir, enquanto a rapariga decide ficar para trás no parque.

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É aqui que ocorre a primeira rutura tonal de Le parc. Apercebendo-se que o seu companheiro deixou para trás o maço de tabaco, Naomie envia-lhe uma mensagem por telemóvel, e espera ora uma resposta ou o regresso do rapaz. Prolongando o tempo de observação passiva a peculiares, mas delicados, extremos, o realizador torna a espera da jovem numa experiência de hipnótica imersão para a audiência que, tal como ela, deseja um fim da inação presente. Por fim, quando chega uma resposta escrita, tal evento marca somente o início de um novo jogo de espera, sob a forma de uma conversa em que o rapaz parte o coração da sua companheira. Num só plano fixo próximo da face da sua protagonista, Manivel deixa-nos examinar minuciosamente todas as suas reações e nos seus olhos vítreos projetarmos tudo o que entendamos, ao mesmo tempo que, reparamos como a luz do dia vai dando lugar à penumbra da noite e como o burburinho do parque se vai dissipando até que o silêncio é rei.

Há uma certa magia em tal cristalização fílmica do momento de espera e do processo natural do entardecer, tornando esse mesmo plano no píncaro do filme e na ocasião em que Manivel cria um novo tipo de ligação com o público até aí mantido a uma considerável distância das personagens. Tal mudança dos parâmetros de proximidade entre audiência e filme é imperativa, pois, quando a conversa termina com um desejo de voltar atrás no tempo, Le parc corta relações com a banalidade quotidiana do seu início para mergulhar num mundo de sonho e irracionalidade.

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Naomie efetivamente tenta regressar atrás no tempo, do modo mais maravilhosamente inocente possível, A sua mini odisseia acaba por chamar a atenção de um guarda que a avisa que o parque já fechou e tenta comunicar com ela. Os seus esforços iniciais são em vão mas, por fim, uma ligação parece ser estabelecida entre os dois e ela segue o caminho proposto pelo seu novo companheiro que, tal como o jovem que tanto a entristeceu, parece ser um entusiasta das artes marciais.

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Não é preciso muita análise para entendermos como, nesta passagem sonhada, Le parc está a propor uma visão espelhada e distorcida da história que ocupou a sua primeira parte. O registo formal, pela sua parte, mantém-se praticamente inalterado, substituindo a beleza diurna do parque pela densa escuridão da noite onde somente uns toques de luz claramente artificial permitem à audiência ver o que quer que seja nas sombras. Uma coisa é certa, o parque urbano há muito deu lugar a algo mais sinistro, mais perdido no espaço e tempo, e o comportamento progressivamente ominoso do novo companheiro de Naomie apenas reflete essa mesma evolução de sonho a pesadelo.

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Há algo de sedutoramente hermético no cinema de Manivel, onde as histórias sem importância do quotidiano são expostas com uma modéstia fílmica tão apropriada como surpreendente. Dos jogos de observação e ritmos plácidos propostos por Le parc, floresce uma considerável intimidade, que Manivel tem a astúcia de explorar na sua segunda metade com efeitos tão mais memoráveis pela sua simplicidade. Se formos muito intransigentes, poderíamos ver neste trabalho um esforço menor, uma miniatura inconsequente e sem valor, mas seria erróneo menosprezar a disciplina e a peculiar beleza de tal criação, mesmo que esta não nos tenha nada particularmente impressionante a dizer.

 

Le parc, em análise
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Movie title: Le parc

Date published: 8 de May de 2017

Director(s): Damien Manivel

Actor(s): Naomie Vogt-Roby, Maxime Bachellerie, Sobéré Sessouma

Genre: Drama, 2016, 71 min

  • Cláudio Alves - 79
79

CONCLUSÃO

Uma simples joia de cinema simultaneamente interessado numa abordagem minimalista e numa natureza surreal, Le parc é um pequeno triunfo para o promissor Damien Manivel.

O MELHOR: A sintética duração do filme que, com 71 minutos é curto o suficiente para não aborrecer o público com demasiada repetição das suas ideias formais e prolongado o bastante para construir os seus ritmos vagarosos e jogos de inércia pachorrenta.

O PIOR: A fotografia digital que funciona tão bem na primeira secção do filme, tende a revelar a falta de recursos do projeto na segunda metade, onde maior sofisticação visual seria preferível, como condutora das transformações tonais do filme, a uma abordagem low-fi.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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