LEFFEST ’17 | A Ciambra, em análise

Produzida por Martin Scorsese e realizado por Jonas Carpignano, “A Ciambra” é uma pequena joia de realismo cinematográfico vinda de Itália. Este é também um dos filmes em competição na presente edição do Lisbon & Sintra Film Festival.

leffest a ciambra critica

“A Ciambra” marca a terceira vez que o realizador afro-italo-americano Jonas Carpignano colabora com o jovem Pio Amato na criação de um filme marcado pelo legado inconfundível do neorrealismo italiano. A primeira destas três colaborações foi um filme do mesmo nome, que ganhou um prémio especial em Cannes, ao que se seguiu a primeira longa-metragem de Carpignano, “Mediterrânea”, onde o jovem Amato teve somente uma presença secundária. Neste novo projeto, também premiado em Cannes e já selecionado como representante de Itália na corrida aos Óscares, o cineasta voltou aos temas e estruturas da sua curta homónima, construindo todo o filme em torno da exploração de uma perspetiva subjetiva e de uma observação naturalista centradas em Amato, um rapaz romani que vive na Calábria.

Depois de se experienciar este segundo “A Ciambra”, é difícil não entender o interesse de Carpignano em registar Pio Amato com a sua câmara. O jovem, cuja expressão raramente oferece algo que não variações em carrancuda seriedade, tem a presença de um protagonista de de Sicca ou Rossellini, capturando a atenção do espetador e seu investimento empático sem nada fazer para tal exigir. É certo que o modo como o realizador construiu o projeto em volta de Amato ajuda à criação dessa eletrizante presença, mas crédito há que ser dado ao jovem, que aqui volta a interpretar uma versão ficcionada de si mesmo num filme que parece ser iluminado por uma luz divina de cada vez que um raro sorriso se esboça na sua face.

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Em nome da especificidade e precisão, há que se explicar um pouco o modo como Carpignano desenvolveu o projeto. Para começar, o realizador há anos que vive entre a comunidade que aqui se propõe a retratar, imiscuindo-se no seio das famílias dos seus intérpretes e assim ganhando uma perspetiva próxima que mais nenhum cineasta no mundo pode reclamar como sua. Foi a partir da sua observação cuidada das pessoas agora imortalizadas em 16mm, que o cineasta concebeu a sua história, onde cada ator se interpreta a si mesmo. Mesmo que a narrativa seja inventada, a ideia de autenticidade vibra de cada imagem. Em comparação, os dramas realistas dos Dardennes parecem dramas de prestígio dos grandes estúdios de Hollywood.

Combinando a amorfia observacional de um documentário com a tensão germinada do estudo social realista, a “Ciambra” retrata o processo pelo qual Pio é forçado a abandonar as últimas réstias de inocência infantil para se tornar num “homem”. Após o irmão mais velho do protagonista ser preso, como consequência das atividades criminais com que andava a sustentar os seus entes queridos, o jovem de 14 anos, cujo pai está também ausente, tem de se tornar no patriarca da família, preenchendo um vácuo inaceitável no tipo de estratificação social no meio da qual ele nasceu. Assim ele é iniciado numa vida de crime, oportunismo e xenofobia promovida por uma etnia que já todos os dias sofre na pele o impacto de preconceitos sociais semelhantes aqueles com que eles próprios ostracizam refugiados e imigrantes oriundos de África.

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Numa mostra de efémero anticonformismo, Pio desenvolve um forte laço de amizade com Ayiya, um imigrante do Burkina Faso que já tinha aparecido ao lado de Pio em “Mediterrânea”. A relação dos dois constitui uma lufada de ar fresco que permite que a audiência respire por entre os mais opressivos momentos da existência de Pio. A amizade dos dois torna-se também no centro emocional do filme, ancorando e complicando a sua estrutura de bildungsroman, para além de abrir as portas da história a uma crescente tensão nascida da fricção entre desejos individualistas e dever filial. Na sua criação de suspense naturalista, “A Ciambra” recorda os melhores filmes de Audiard, mesmo que a sua construção formal seja simultaneamente menos vistosa e muito mais elegante que a das obras desse autor francês.

Juntamente com o seu fiel diretor de fotografia Tim Curtin, Carpignano filmou “A Ciambra” em 16mm e sobretudo à base de grandes planos claustrofobicamente fechados sobre Pio e seus familiares. Tal estética promove uma crua imersão no mundo do rapaz, um mundo de materialidade tátil e peculiar beleza usualmente relegada à periferia da sua vida. Um mundo em que não há nada mais poderoso ou intimidante que a face esculpida com linhas de idade da sua matriarca. Um mundo em que, no entanto, existem momentos de paz de onde reverias luminosas podem florescer, como é o caso do encontro de Pio com um cavalo iluminado pelas labaredas de uma fogueira à noite. Nesse instante, Carpignano abandona momentaneamente os grandes planos, deixando a imagem respirar, deixando que a contemplação de Pio torne em abstratos ignoráveis os deveres que pesam sobre os seus ombros.

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Tais respirações estéticas são tão frágeis como uma fagulha a brilhar na penumbra noturna, mas Carpignano aplica o mesmo tipo de primor formalista a todo o filme, mesmo que isso não seja óbvio. Repare-se na sua orquestração de um jantar com efeitos cataclísmicos na história do clã Amato. Aí, a montagem conjugada com os grandes planos constantes constrói uma tapeçaria de faces ominosas que parecem ter saído de uma pintura de Caravaggio para se manifestarem contra Pio. Mesmo saindo do contexto da construção cénica, gestos e movimentos tão simples como o acompanhamento dos movimentos de Pio ao longo das ruas ou a mudança de perspetiva de um plano transpiram um virtuosismo tão mais valioso pela sua falta de conspicuidade.

Apenas um momento em “A Ciambra” parece declarar alto e bom som a sua construção intencional e estudada, e trata-se precisamente do último plano do filme. Aí, a renegação da infância em prol da aceitação dos fardos da vida adulta e todas as expetativas de bruta masculinidade que vêm por acrescento são ilustradas de um modo óbvio, quase violento, não fosse a delicada utilização de luz natural e a derradeira abstração do filme com um desfoque dramaticamente empregue. Esta imagem é bela, sem dúvida, mas o seu grande valor está no anti sentimentalismo e franqueza com que define a escolha de Pio, ou melhor a sua falta de escolha.

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Longe de entreter ideias de que Pio poderia algum dia sair do ciclo vicioso dos homens virados para o crime da sua comunidade, “A Ciambra” tem a maturidade de admitir que isso nunca foi algo possível na vida deste rapaz. Sonhar com um futuro liberto de tais estratificações e expetativas masculinas seria uma fantasia insustentável e isso é algo que Carpignano entende, demonstrando assim um enorme respeito pelas pessoas que está a filmar ao não romantizar os seus dilemas internos. “A Ciambra” é um retrato imersivo, mas nunca se propõe ao espetador como um estudo antropológico feito à distância e, por muito estranho que tal possa parecer, isso faz do filme uma preciosa raridade num panorama atual onde imensos cineastas se interessam pelas duras realidades de comunidades empobrecidas e ostracizadas sem, no entanto, mostrarem qualquer tipo de entendimento ou respeito pela existência dos seus objetos de estudo.

 

A Ciambra, em análise
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Movie title: A Ciambra

Date published: 2017-11-24

Director(s): Jonas Carpignano

Actor(s): Pio Amato, Koudous Seihon, Damiano Amato, Francesco Pio Amato, Iolanda Amato, Patrizia Amato, Rocco Amato, Susanna Amato,

Genre: Drama, 2017, 118 min

  • Claudio Alves - 88
88

CONCLUSÃO

Comparado com as dezenas, ou mesmo centenas, de outros dramas realistas sobre comunidades empobrecidas que todos os anos invadem os festivais de cinema, “A Ciambra” é um triunfo de autenticidade, respeito e subtil virtuosismo formal.

O MELHOR: A fotografia, simultaneamente semelhante às propostas de outros filmes europeus em busca de cru naturalismo e monumentalmente diferente de tais fórmulas desinspiradas. Isto sim, é um bom uso de grandes planos, câmara ao ombro, luz natural e película granulosa. Outros cineastas deviam tomar notas.

O PIOR: A estruturação da narrativa em volta do modelo bildungsroman é algo um pouco perfuntório para um retrato juvenil como este.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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